sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Cartas na mesa


Ontem foi António Costa a dizer que não está para levar com a porta na cara em Bruxelas por causa da dívida. Acabaram-se as ambiguidades. Hoje foi Passos Coelho a dizer que não estará do lado de nenhuma conferência para reestruturar ou perdoar dívida porque não é essa a vontade dos portugueses depois de terem contado com a solidariedade europeia. Mais claro seria impossível. Isto no dia em que o INE publicou dados quer sobre a tal solidariedade europeia de Passos Coelho, quer sobre o nada de tão grave que obrigue António Costa a querer fazer diferente e correr riscos pelos seus. Quem não corre riscos pelos seus não pode querer ser delegado de uma turma do ensino básico, quanto mais Primeiro-ministro de um país. E nem Passos nem Costa, são os próprios a garanti-lo, darão a cara em Bruxelas para inverter o crescimento do risco de pobreza que em 2013 abrangia 1 em cada 5 pessoas, o mais elevado desde 2005 ,  1 em cada 10 portugueses com trabalho (medida de como em Portugal se empobrece a trabalhar), mais de 4 em cada 10 portugueses sem trabalho, mais de 1 em cada 4 crianças até aos 18 anos. Em 2013, o rendimento dos 10% mais ricos era 11,1 vezes o rendimento dos 10% mais pobres; em 2010 era 9,4 vezes. A privação material abrangeu 1 em cada 4 portugueses ( em 2014 e a privação material severa 1 em cada 10. O relatório detalhado do que deixámos que fizessem aos nossos está disponível aqui. E ainda não vimos nada. O PSD, o PS e o CDS garantem que conseguem fazer ainda pior.




2 comentários:

fb disse...

Isto no dia em que o INE publicou dados quer sobre a tal solidariedade europeia de Passos Coelho, quer sobre o nada de tão grave que obrigue António Costa a querer fazer diferente e correr riscos pelos seus. Quem não corre riscos pelos seus não pode querer ser delegado de uma turma do ensino básico, quanto mais Primeiro-ministro de um país.

Alberto Silva disse...

A vitória do Syriza terá efeitos em toda a Europa. Já está a ter. Os problemas na aprovação da continuação das sanções à Rússia são apenas o primeiro exemplo. Porque o governo grego é quezilento? Não. Porque leva a sério uma ideia simples: a União Europeia é uma união de Estados soberanos com igualdade de direitos e deveres. E todos têm uma palavra a dizer sobre o que a União decide. Isto, que devia ser óbvio, tem estado ausente da lógica política da União. A UE é hoje uma união de três ou quatro Estados que tomam decisões que se aplicam a 28. E é isto, entre outras coisas, que está a matar o projeto europeu. Deste ponto de vista, a entrada em cena da um país que pretende ganhar peso polít ico na União, até porque o desfecho da renegociação da sua dívida depende desse peso, é um elemento fundamental para qualquer transformação europeia.
Há, no entanto, uma coisa de que não tenho dúvidas: será difícil a Grécia conquistar uma solução equilibrada para sair da asfixiante crise em que se encontra e, ao mesmo tempo, ficar no euro e na União Europeia, sem encontrar aliados noutros Estados. E será difícil os periféricos reequilibraremos desequilíbrios da construção europeia, da arquitetura do euro e da relação da Europa com a sua crise financeira sem aproveitarem esta oportunidade. A vitória do Syriza é, independentemente da convicção ideológica de cada um, uma oportunidade histórica para mudar as regras do jogo. Insistir no "nós não somos a Grécia" é insistir no isolamento. Em vez da força de uma aliança de quem tem interesses coincidentes, esperam-se favores por bom comportamento. Já nem sublinho a cobardia do raciocínio. Ele é, antes disso, estúpido.