Hoje celebramos o 104º
aniversário da República. Sem a dignidade do feriado nacional que deixámos
suprimir sem esboçar o mínimo protesto digno desse nome. Comemorar a República
nestas condições é prestar homenagem aos valorosos cidadãos que arriscaram as próprias
vidas e se sublevaram por rejeitarem ser os vassalos que hoje fazemos questão
de ser, aos visionários que quiseram ver o povo com a instrução que a moda de
ser ignorante e despojado de ideais hoje dispensa de bom grado, aos patriotas
que souberam impor a abolição dos privilégios de casta dos bem nascidos e a separação
entre Igreja e Estado às quais o défice de cidadania da maioria da população é
hoje incapaz de dar a importância devida.
Cento e quatro anos depois de
1910, ainda foi possível a uma aristocracia republicana que enriquece à sombra
dos privilégios de exploração de monopólios naturais como energia, combustíveis
e telecomunicações, cujos lucros e fortunas têm privilégios fiscais que os
salários não têm e cuja delinquência banqueira sobrevive a um sistema de
Justiça que lhe confere imunidade, convencer um povo que nunca foi rico que
viveu acima das suas possibilidades. Mais de um século depois, a República que
nos toca a todos sem excepções fazer acontecer ainda aceita sem questionar ser
sobrecarregada com os impostos que uma Igreja Católica maior proprietária
imobiliária do país completamente isenta de impostos não paga.
Ainda é o salário, o carro, a
casa e a vida do vizinho plebeu que os plebeus questionam, não o direito que
não é direito de lhe pagar um salário de miséria e de explorá-lo do patrão nobre
que graças à República também já não é nobre e formalmente é igual em direitos
ao plebeu que, porque continua a aceitar
olhá-lo de baixo para cima, prefere canalizar a sua insatisfação contra o
plebeu que lhe está mais próximo. Esta submissão perdura até aos nossos dias para
fortuna de uma escassa minoria e para infortúnio de todos os restantes. Mais de
cem anos depois, a mentalidade predominante permanece muito pouco republicana.
O 5 de Outubro de 1910 pode
comemorar-se relembrando todas as suas conquistas, mas deve também servir para
sublinhar-lhe o que ficou por fazer. Uma revolução é sempre um processo
inacabado. Os heróis da República primeiro – e os heróis de Abril depois – fizeram
o mais difícil, o mais fácil deixaram-no para nós o fazermos. Sem corrermos riscos
de vida. Este ano quis homenagear a República e os seus heróis assim, entre o
que foi feito e o que continua por fazer, entre o que se conquistou e o que teria
sempre que ser conquistado depois.
Viva a
República!

