«Já se percebeu que o “argumento
Sócrates” vai ser um dos principais instrumentos de combate a António Costa e
ao PS. Ele fala, ou, mais comummente, não fala, e Sócrates é atirado para cima
da mesa como a pedra de serviço.
É um pouco pobre como argumento,
mas não deixa de ter alguma eficácia marginal, à falta de melhor. É verdade que
Sócrates é um dos principais responsáveis pelo estado calamitoso do país,
tornou-se uma personagem que provoca uma imediata repulsa, tem uma imagem
pública pelas ruas da amargura e a mera evocação do seu nome provoca fúria.
Muitos portugueses detestam-no com grande convicção e tornou-se símbolo de uma
era cujo resultado foi a bancarrota e a troika. Num ou noutro aspecto, o
balanço da sua actuação como Primeiro-ministro podia ser mais mitigado, - nem
tudo é de sua inteira responsabilidade, - mas o que sobra de sua directa e
intransmissível responsabilidade, mais que justifica o anátema que caiu sobre o
seu nome. Quem não percebe isso vive na Lua.
Mas a história de Sócrates,
convém recordar, não é a preto e branco e muitos dos que hoje andam com as
pedras com o seu nome para atirar ao PS tem bem pouca autoridade para o fazer.
Eu sei, até pela minha experiência de crítico, - que pode ser consultada no
arquivo destes artigos, - como era solitário e incompreendido criticar
Sócrates. No PSD, sim no PSD, nos mesmos meios que se colaram com cola-tudo ao
“ajustamento” e ao governo salvífico de Passos Coelho-Gaspar-Portas, desde os
altos negócios, ao aprendiz de feiticeiro num mini-blogue, houve louvaminhas a
Sócrates que nunca mais acabavam.
Sócrates foi endeusado por muitos
os que saíram dos almoços de negócios e dos escritórios de advogados, das
recepções e inaugurações, dos gabinetes e dos telefonemas, onde o frequentavam
e incensavam, para agora o tratar como demónio vivo. Eu li milhares de palavras
sobre como Sócrates era o representante de um “novo” socialismo moderado,
aberto ao mercado e aos negócios, cujos esforços para corrigir o défice deixado
por Santana Lopes, era notável e apoiando-o nalguns dos conflitos corporativos
mais duros que o seu governo teve, como o dos professores. Havia igualmente a
tese, que sempre combati, de que Sócrates tinha tirado “espaço político” ao
PSD, governando como um social-democrata e que isso marcava um ponto sem
retorno ideológico e político. Passos Coelho, então desenvolvimentista contra
Manuela Ferreira Leite que dizia que “não havia dinheiro”, estava muito próximo
de Sócrates na visão, nem mais nem menos, … das grandes obras públicas. Estão
todos esquecidos, não é verdade?
Mas há mais: quando o nome de
Sócrates começou a aparecer em todas as trapalhadas, suspeitas, histórias e
negócios, do curso às marquises, do Freeport à Cova da Beira, do bizarro
contrato com Figo à tentativa de controlar os media, a TVI em particular,
usando a PT, quando se conheceram detalhes da iniciativa dos magistrados de
Aveiro de processar Sócrates por abuso do poder, somaram-se as declarações em
sua defesa de Passos e Miguel Relvas, queixando-se que lhe estava a ser movido
um “ataque pessoal”. Este par do PSD protegeu Sócrates quanto pôde das
consequências que podia ter o inquérito parlamentar, considerando que não se
devia ir mais longe, de novo porque isso seria um “ataque pessoal”. Isto vindo
do mesmo homem, Passos Coelho, que há uma semana, referindo-se claramente a
Sócrates numa insinuação disse: “Não possuo riqueza acumulada nem tenho em nome
de tias, filhos e primos quaisquer bens”. Estamos conversados.
É por isso que eu não aceito o
“argumento Sócrates” em 2014 e espero que o “argumento Sócrates” se transforme
no “argumento Sócrates-Passos Coelho-Portas”, identificando-se assim a tripla
que, desde pelo menos 2008, e até antes, ajudou a destruir Portugal, a destruir
a sua economia e finanças, a por em causa a sua independência, a alterar
profundamente os equilíbrios entre grupos sociais, a dividir os portugueses
atirando-os uns contra os outros e aprovar muitas medidas iníquas, que minaram
a boa-fé que deve presidir à actuação do estado em democracia. E que ajudaram a
que a democracia portuguesa conheça uma crise de representação muito grave.
Sócrates e Passos Coelho não
destruíram os mesmos aspectos, não destruíram as mesmas coisas nem da mesma
maneira, não actuaram de modo igual, mas deixaram um rastro demolidor de que o
país muito dificilmente se vai livrar tão cedo e vai condenar muitos
portugueses a passar os últimos anos da sua vida sem esperança nem destino que
não seja empobrecer e ficar cada vez pior. Ambos mostraram pouco apreço pela
lei e pelo estado de direito, actuando no limite ou para além da legalidade,
ambos se rodearam de cortes interessadas e interesseiras com origem nos seus
partidos, permeando os lugares de estado com os seus boys, numa exibição de
prepotência com base nas suas maiorias absolutas. Um esbanjou sem controlo
milhões e milhões em projectos “bandeira” e em “má despesa pública”, outro
dividiu os contratos entre os de primeira (PPPs e swaps, tributos aos credores)
e os de segunda (reformas e pensões, acordos colectivos de trabalho,
compromissos laborais, etc.), criando desequilíbrios que fazem com que os
frutos do trabalho e da riqueza sejam hoje pior distribuídos. Ambos permitiram
a captura do sistema político pela banca, com os resultados que o caso BES revela
em todo o seu esplendor. E ambos usaram e abusaram dos poderes do estado para
colocarem os cidadãos no seu sítio, quer fosse com o fisco, com a inversão do
ónus da prova, quer fosse a ASAE a multar restaurantes por causa dos
galheteiros. Ambos foram total e completamente anti-liberais, no plano
económico, social e político.
Sócrates e Passos Coelho são
muito diferentes, mas são também muito iguais. Aquilo em que foram e são mais
iguais é na amoralidade que introduziram e reforçaram na vida pública, aqui
também com a prestimosa ajuda de Portas. A moralidade na vida pública não se
nota quando existe, mas torna-se um monstro que inquina tudo quando não existe.
Ambos usaram do dolo, do engano como método de governar, utilizando todas as
técnicas das agências de comunicação e marketing, as novas formas de
propaganda. Ambos desconhecem o seu país, não gostam do seu povo, não prezam a
sua independência, fazem gala de não precisar da História para nada e são
incapazes de aprender, embora sejam muito capazes de se adaptar, sem memória,
nem honra, nem compromisso com a verdade. Em suma, eles marcaram a chegada ao
poder de uma geração de governantes muito iguais entre si, gente mal formada,
mal preparada, mal-educada, mal instruída e mal-intencionada. De gente como Sócrates
e Passos Coelho.
É isto que o “argumento Sócrates”
me lembra. Nunca o utilizarei a não ser em tandem com o “argumento Passos
Coelho”. Até porque, convém recordar, que quem está no poder é o segundo e não
o primeiro. E quanto a António Costa eu só posso desejar que não repita os
erros trágicos de Sócrates e que não repita os erros trágicos de Passos Coelho.
Até, porque, realisticamente, não é impossível que venha a repetir mais
facilmente os erros de Passos Coelho do que os de Sócrates. Vamos ver.» – Pacheco
Pereira, no Público.

