«No próprio dia em que os
deputados da maioria decretaram, pela segunda vez, que a comissão Parlamentar
de Inquérito aos Programas de Aquisição de Equipamentos Militares: aeronaves
EH-101, P-3 Orion, C-295, F-16, torpedos, submarinos U-209 e blindados Pandur
II estava encerrada, e que não se ouviria ali mais nenhum testemunho, a
imprensa voltou a trazer revelações.
O jornal i revela detalhes de uma
reunião do Conselho Superior do GES, no dia 7 de Novembro de 2003, em que os
principais representantes da família Espírito Santo decidiram partilhar cinco
milhões de euros da comissão paga pela empresa alemã à ESCOM. “Deram-nos 5 a
nós e eles [os administradores da ESCOM] guardaram 15”, relatou Ricardo
Salgado, aos seus familiares e sócios, segundo o i.
Na altura, o GES detinha 67% da
ESCOM (estando os restantes 33% nas mãos de Hélder Bataglia). E o banco do
grupo, o BES, fora contratado pelo Governo da altura (liderado por Durão
Barroso) como parceiro minoritário do consórcio financeiro que “emprestou” o
dinheiro (mil milhões de euros) para a compra dos submarinos. Também aqui, a
comissão descobriu que a vitória do consórcio que integrava o BES é, no mínimo,
polémica, uma vez que no final do leilão bancário, a oferta do spread (margem
de lucro do banco) que ganhou era mais alta do que a que perdeu… A comissão
paga pelos alemães à ESCOM incluía o trabalho na definição das contrapartidas
(que foi um dos pontos que fez com que a Man-Ferrostaal ganhasse o concurso de
aquisição). Contudo, esse foi um dos aspectos mais nebulosos de todo este
processo, estando ainda por cumprir a maioria do valor previsto. Por isso, o
pagamento à ESCOM sempre levantou dúvidas.
O Expresso revelou, em Março, que
os destinatários finais do dinheiro da ESCOM, que circulou por diversas
entidades e países, eram os próprios dirigentes do GES e da ESCOM. A própria
empresa reconhecia isso, num comunicado inusitadamente claro: "A Escom e o
seu Conselho de Administração sempre actuaram com total conhecimento e
concordância dos seus então accionistas (…) E de outra forma não poderia ser,
nomeadamente no que toca à definição de critérios ou políticas de distribuição
de resultados a título de prémios, remunerações ou distribuição de
dividendos."
Mas ninguém da cúpula do GES será
chamado a explicar mais do que isto, porque a comissão parlamentar encerrou.» A
maioria teve toda a pressa em encerrá-la. Nunca se esteve tão perto de perceber
o destino final da comissão de 30 milhões de euros pagos pelos alemães à ESCOM.
- Comissão que investiga negócio dos submarinos recusa seguir o rasto do
dinheiro, por Paulo Pena, no Público.

