Parece que a Comissão Europeia
ficou muito
incomodada com o aumento de 20 euros do salário mínimo que começará a
vigorar a partir de amanhã. Não porque o aumento não chega a um euro por dia.
Não porque 505 euros continua a ser um salário de miséria. Não pela forma como
o Governo o negociou, aceitando sacrificar os contribuintes, que para além de
juros agiotas e rendas de parcerias mais ou menos privadas irão agora também ajudar
os empresários a pagar os salários de miséria que quantificam a exploração que
lhes alimenta as fortunas. Diz a Comissão que por ser uma medida de sinal
contrário ao dos compromissos assumidos pelos três partidos do arco do
memorando que aceitaram implodir salários e direitos laborais para transformar
a pobreza generalizada e a liberdade de explorar quem trabalha em ganhos decompetitividade. E diz a mesma Comissão que o aumento agora anunciado é temporário.
São eles que nos avisam que a campanha eleitoral já começou.
Nem de propósito, na Quinta-feira
passada, na Alemanha, a Câmara Baixa aprovou uma
remuneração mínima horária de 8,5 euros, isto é, quem na Alemanha trabalhe
as oito horas diárias e os cinco dias úteis semanais que se trabalham em
Portugal passará a ter como garantida uma remuneração mensal de 1496 euros.
Será demasiado? Pelo contrário. Não é por aí. Não são os alemães que estão
demasiado bem, os portugueses é que estão demasiado mal. E poderiam ficar
melhor se os alemães ganhassem ainda mais e as importações
alemãs puxassem pelas exportações portuguesas.
O que é aqui criticável é, por um
lado, a irracionalidade económica e a insensibilidade social, a roçar a
xenofobia, de um directório europeu que amplia as assimetrias que devia reduzir
e promove a estagnação económica em vez de potenciar o crescimento europeu e,
por outro, a subserviência de três partidos portugueses que se puseram de
acordo com o primeiro e aceitaram trabalhar para fazer de Portugal uma reserva
de mão-de-obra barata, uma economia com um baixo padrão de especialização, um
país que produz lucros mas não produz riqueza, onde se empobrece a trabalhar.
Mas o pior de tudo é que a
maioria dos portugueses assiste, na mais perfeita indiferença, sem perceber que
não é apenas o direito a uma vida digna de centenas de milhar de compatriotas que fica nos bolsos dos empresários que
choram e berram sempre que lhes é proposto subir o salário mínimo. É a Saúde de
todos, é a Educação dos filhos de todos, são os empregos de todos e são as pensões futuras de todos. É do consumo que depende a criação e a manutenção de postos de trabalho. E é
destes salários e de todos os salários que são fixados em função deste mínimo
que vêm os descontos e os impostos que pagam o Estado social que vamos deixando
de ter. Isto vai custar-nos muito, mas mesmo muito caro. Andamos há demasiado
tempo a dormir muito acima das nossas possibilidades.

