Podia ter sido uma vitória magra,
de Pirro, numas eleições pouco participadas e controladas pelo aparelho do
partido. Caso tivesse sido assim, seria forçado a concordar com o Francisco
Louçã no que escreve quanto à democracia ter ficado esburacada e ter saído a
perder com as primárias do PS. Calhou não ter sido assim, e reforço o calhou,
porque aos dois riscos que mencionei atrás soma-se pelo menos ainda mais um,
eleições abertas a “simpatizantes” estão-no também a “antipatizantes”, aos
quais é dada a possibilidade de se organizarem ou para elegerem o candidato
mais macio e facilmente derrotável em legislativas, ou para reduzirem uma
vitória que apenas com simpatizantes seria garantidamente folgada a uma vitória
tangencial, que corroeria sempre a legitimidade e a autoridade do vencedor.
Embora a pretexto de uma
aberração, a eleição do candidato a Primeiro-ministro, o PS viu-se livre de uma
liderança que controlava a máquina do partido mas com a qual a sua base
eleitoral não se identificava e, nessa medida, reduziu o risco de desintegração
associado a esse fosso. Tivesse o Bloco sabido fazer o mesmo no momento certo e
ter-se-ia evitado a agonia dos últimos anos, mas Francisco Louçã achou mais democrático
designar sucessão e a máquina obedeceu-lhe. A democracia que se prega para a casa
dos outros nem sempre é a mesma que se escolhe para esburacar a própria casa. Acontece aos melhores.
Regressando ao PS e às primárias,
também a mim me inquieta o mistério do entusiasmo gerado pela vitória de Costa.
Escreve Francisco
Louçã: “Costa polarizará voto útil contra a coligação PSD-CDS e o PS
entrará em 2015 com a maior das ambições: uma maioria, um governo, um
presidente. Pode conseguir tudo. A pergunta é: para fazer o quê? E aqui começa
o TPC de António Costa. O próximo governo tem a obrigação, por Tratado
Orçamental, de agravar a austeridade. Não tem agenda de década, só cortes
perpétuos. Não há salários ou pensões, só dívida. Por isso, o primeiro trabalho
de Costa será explicar como vai pagar ou como vai cortar. O segundo trabalho é
apresentar uma ideia para responder à irrelevância europeia de Portugal e,
pior, ao perigo europeu. Que não seja a mão estendida, triste decadência. Ora,
o arrojo é também um mundo novo cheio de riscos.”
