«Derrotada a proposta de
independência da Escócia, o que é interessante agora é verificar como, a
propósito do ato eleitoral mais participado desde há mais de 60 anos,
permanecem muito vivos os típicos argumentos elitistas sobre os perigos do
exercício da democracia, mais ou menos sintetizáveis numa frase: a política é
demasiado importante para ser deixada aos cidadãos; o melhor é manter as
grandes decisões (a soberania nacional, a guerra, as grandes políticas
macroeconómicas da austeridade, privatização, liberdade plena do capital) para
quem sabe...
Madrid fará bem em não deixar que
na Catalunha se repita o erro feito na Escócia. Ora, pelo contrário, o que
demonstra o referendo escocês é que as pessoas voltam às urnas quando percebem
que a mudança está ao seu alcance, mas não o fazem quando lhe dão Blair vs.
Cameron – ou Passos vs. Costa/Seguro (riscar o que não se aplique...).
Pela enésima vez, o medo
(descrito como ”realismo”) funcionou como instrumento decisivo de
condicionamento da decisão democrática. Recentemente, o mesmo se fez com os
gregos – e, na história eleitoral do Ocidente, instilar o medo da mudança é do
mais banal que encontramos. O disparate foi tal que o Royal United Services
Institute (um think-tank financiado pelo Ministério da Defesa) disse que a
Escócia independente podia sofrer um ataque de submarinos russos no dia em que
um novo governo exigisse a saída da frota nuclear britânica das suas bases
escocesas! O chefe do governo autónomo escocês, Alex Salmond, chamou-lhes as
“dez pragas do Egito” que Londres prometia que se abateriam sobre a Escócia se
ela quisesse ser independente: apesar da (moderadíssima) vontade dos
nacionalistas no poder de manterem a libra britânica ou até mesmo a Rainha de
Inglaterra como chefe de Estado (contrariando o republicanismo de muitos
independentistas), Cameron recusou-lhes poderem manter a moeda, ameaçou-os
(juntamente com Rajoy e o inefável Barroso!) com a saída da UE e da NATO, e de
que se bloquearia um futuro processo de reingresso em ambas. A Ucrânia pode
aderir a ambas - mas se a Escócia se separasse do Reino Unido, que nem pensasse
em reentrar em nenhuma delas! Cameron sabia que uma boa parte dos partidários
da independência, sobretudo à esquerda, apoiavam uma Escócia neutral e desnuclearizada,
mas queria amedrontar (e teve sucesso) o escocês moderado, descrevendo a
independência como o caminho para o poço sem fundo do isolamento internacional!
O cinismo foi tal que semelhante isolamento deve parecer-se ao futuro que a
direita britânica proporá em 2017 quando promover o seu próprio referendo para
sair da União Europeia!
Acima de tudo, haveria cortes e
caos nas pensões de reforma e no sistema público de saúde; na era em que as
transações financeiras, façam-se onde se fizerem, não conhecem fronteiras,
muitos escoceses iam perder o crédito à casa “porque metade dele estaria nas
mãos de bancos [britânicos, não-escoceses] que passariam a ser considerados
estrangeiros”!
Cameron fez aos escoceses uma
verdadeira declaração de marido despeitado face ao pedido de divórcio da
mulher: “Se a Escócia disser sim, o Reino Unido cinde-se e faremos para sempre
caminhos separados”, num “divórcio [sic] doloroso”. “Uma família não é um
compromisso”, disse ele - mas a unidade nacional, num Estado democrático, não
é, forçosamente, um compromisso? “Uma família é uma identidade mágica, que nos
junta mais do que alguma vez chegaremos a estar separados – portanto, por
favor, não rompam esta família”. “Mágica”, notem bem! Quem julga que os
sentimentos nacionais não passam disso mesmo - puros sentimentos e pouca razão
-, e o repetiu à saciedade sobre o caso escocês, diga-me, por favor, que
guionista de telenovela de 3ª categoria escreveu semelhante melodrama xaroposo
para ser lido pelo Primeiro-Ministro do Reino [Duvidosamente] Unido!
Por fim, ao assegurar que, com a
independência da Escócia, desapareceria “o maior exemplo de democracia que o
mundo alguma vez conheceu, de abertura, de gentes de diferentes nacionalidades
e fés se juntarem para formarem um só país”, Cameron deve ter-se esquecido de
quanto sangue se verteu na Irlanda para conseguir a independência do país, de
como os britânicos acusaram os nacionalistas irlandeses que fuzilaram em 1916,
em plena I Guerra Mundial, de serem agentes a soldo da Alemanha, ou dos séculos
de violência colonial, abertamente racista, praticada em África ou na Índia (e
já nem quero falar dos nossos dias...).
Raras vezes figurões como o
presidente dos EUA ou o de França, o da Comissão Europeia, o chefe do governo
espanhol, se intrometeram onde nunca algum deles aceitaria que se fizesse o
mesmo numas eleições em que eles estivessem em causa. Pelas nossas bandas, os
anglófilos de serviço mostraram-se horrorizados com a traição escocesa! É que
não esqueçamos que a maioria das elites do poder em Portugal, quer as que vêm
diretamente da alta burguesia conservadora, quer as que, do maoísmo,
transitaram para o neoliberalismo durante os tempos de Thatcher (1979-90), lê e
estuda o mundo (só) em Inglês, e a capital visível, próxima, à distância de
duas horas de avião, é Londres, nunca chegou a ser Washington/Nova Iorque.
Acresce-lhes o vício de geopolitizar toda a realidade: não entendem que os
escoceses queiram romper com Londres para, por exemplo, poder preservar a saúde
e a escola públicas – que foi o que começou a fazer já o Parlamento autónomo ao
tornar Escócia um dos raros sítios na Europa onde volta a ser gratuito estudar
na universidade, rejeitando as mega-propinas que Blair (2003) e Cameron (2010)
impuseram, hoje de 12 mil euros/ano! Os internacionálogos da nossa praça, que
desprezam as questões sociais e usam uma História de pacotilha nas suas
análises, gostam é de fazer contas às bases navais e aos rendimentos do
petróleo escocês – que pode ser usado por Londres para gastar o que mais
ninguém gasta em armamento na UE (2,3% do PIB, o dobro da Alemanha), mas é
gordura de Estado se for gasto em Bem-Estar Social.» – Manuel Loff, no Público.

