Dá sempre jeito ter na mão um governante
com um passado nebuloso: tu que sabes que eu sei o que andaste a fazer
no Verão dos subsídios comunitários nunca vais ousar sequer pensar em não
fazeres o que for mais conveniente para mim quando houver uma privatização de
um monopólio natural que me garante uma renda para todo o sempre, quando aparecer do nada o buraco de um banco para tapar com dinheiros públicos, quando tiveres que
escolher entre aumentar os impostos sobre o trabalho e tributar as grandes
fortunas, quando eu precisar de um perdão fiscal, quando a exploração de um
serviço público for dada a um privado, quando o Estado necessitar de um
fornecedor de bens ou serviços como tu sabes que eu sou. E o tal governante
mafioso tem tanto mais a perder quanto mais a sua aceitação depender da imagem
de pater moralista que dá o exemplo de ir de Clio passar férias à Mantarrota e
de pôr os ministros a viajar em classe económica para mostrar como estamos
pobrezinhos e a seguir desatar a vender empresas públicas ao desbarato e a
cortar e a congelar os salários que deixam de sair do bolso de quem enriquece
na proporção da pobreza assim gerada. Nós, público, só vemos o que nos é dado a
ver por quem mexe os cordelinhos que fazem mexer o fantoche e ao sabor das suas
conveniências.
O caso Tecnoforma foi-nos dado a
conhecer em duas tranches. Nunca saberemos se a primeira foi um aviso para
intimidar quem sabemos que tanto cortou, privatizou, concessionou, novo-bancou.
Mas sabemos que a
segunda aparece num momento excepcionalmente bem escolhido. O PCP está onde
sempre esteve, atrás de um muro que já não existe há um quarto de século. O BE
vai tratando de desaparecer de vez, a alucinação
desta semana pretende que “és boa”, um piropo, seja punido com a pena de
prisão que a nossa legislação não prevê para “és feia”, “és gorda” ou até para o
pior dos insultos. O PS está prestes a concluir a triste procissão dos antónios
completamente descredibilizado pela pobreza patenteada no trajecto. O Governo
PSD/CDS vai demonstrando que está esgotado, ora resolvendo com folhinhas deExcel o caos que apenas uma aplicação como o Citius quando funcionava poderia
resolver, ora com pedidos de desculpa na vez das demissões que se vão adiando,
ora com as estatísticas de um descalabro económico e social que o optimismo completamente
consumido da sua propaganda e o seu exército de comentadores já não conseguem disfarçar.
O PSD quer manter-se no poder e sabe
que dificilmente o conseguirá com Pedro Passos Coelho. Que
jeito daria se caísse agora. Houve denúncia anónima. Que jeito daria apresentar-se a eleições, deixa
cá ver, por exemplo com alguém como Rui Rio no seu lugar. António Costa, o António
mais bem posicionado para ganhar a corrida no PS, até fez o favor de assumir publicamente
que um entendimento com o PSD de Rui Rio é uma ideia que lhe agrada muito. E é uma
ideia que com toda a certeza ainda agradará mais a Cavaco Silva, que poderá sair
do seu torpor a qualquer momento. Não é todos os dias que surge uma oportunidade
destas para insuflar uma coligação com expressão parlamentar suficiente para rever
a Constituição e pulverizar o que ainda resta do que conquistámos em democracia. Já vimos
de tudo, é impossível prever se Passos Coelho resistirá a mais esta ou não. Mas
que faz sentido que caia agora, quer-me cá parecer que sim. Seria a forma mais airosa
de aguentar o regime durante mais uns tempos. Pelo menos até que não sobre nada
que valha o suficiente para alimentar a fome de poder do centrão que nos tem a saque.


