Podiam ter falado sobre a
vergonha de um salário mínimo que esteve congelado quatro anos para agora ser
aumentado nem em 1 euro por dia e sobre as consequências da decisão de
continuar a alimentar lucros reduzindo cada vez mais a riqueza e condenando centenas
de milhar de portugueses a uma miséria de onde não se consegue sair
trabalhando. Podiam ter explicado a razão que os leva a manterem a
flexibilização dos despedimentos que condena milhões de portugueses a viver um
dia de cada vez, sem sonhos de vida de médio e ainda menos de longo prazo. Podiam
ter explicado como vão repor pensões de reforma e salários na função pública
sem aumentar impostos e sem rasgar o Tratado Orçamental que o seu partido
ajudou a aprovar e que obriga a aumentar ainda mais a dose da austeridade que
destrói o país. Podiam dizer como é que vão deixar de continuar a desmantelar
Saúde e Educação e como é que vão financiar a tal reindustrialização do país se
o dinheiro vai todo para juros e eles não querem renegociar a dívida. Teria
sido interessante. Teriam falado sobre nós.
Porque tu isto, porque tu aquilo,
António Costa e António José Seguro preferiram falar para uma plateia que se
entusiasma a ouvi-los falar sobre si próprios, sobre poder, sobre resultados
eleitorais. Puderam dar-se ao luxo de não falar sobre política. Seguro perdeu o
debate ao falar num partido invisível que ninguém ignora que existe, que a
plateia dona dos votos que decidirão o futuro dos dois alegados antónimos gosta
de apontar ao partido rival, uma argolada que desagradou, quer por não ser tema
para tratar no terceiro frente-a-frente destinado a discutir os projectos que
ambos concordaram em não discutir pela terceira vez, quer pela forma
deselegante e pouco inteligente como foi abordado pelo desespero de Seguro. Costa
conseguiu não perder o debate mesmo sem explicar em que é que os seus círculos
uninominais são melhores do que a redução de deputados do outro António na
bipartidarização que ambos os projectos têm como objectivo. Prometeram eleições
primárias, ninguém esperaria que fossem tão primárias. Foram mesmo muito
primárias. No Domingo eles vão a votos. À noitinha, será conhecido o resultado
das primeiras eleições em Portugal em que um partido concede ao seu adversário
a possibilidade de eleger o António com quem prefere disputar eleições.
Garantidamente, um deles ganhará. E perderemos todos se nada fizermos para que as
próximas legislativas voltem a ser mais uma oportunidade perdida de devolvermos
à democracia a esperança que permitimos que o rotativismo passa-culpas nos fosse roubando.

