A Justiça em pantanas, a Ministra
pediu desculpas, e ficou assim. A Educação em pantanas, o Ministro pede
desculpas, e ficou assim. A Saúde está em pantanas, o caso BES vai de pantanas
em popa, o desmantelado Instituto de Meteorologia e Geofísica meteu água por
estar de pantanas com falta do pessoal qualificado dispensado por alegadamente
estar “a mais”, o país vai estrebuchando, mas vai ficando assim mesmo. O
Governo sabe que pode contar com o silêncio do senhor Presidente da República e
ambos sabem que podem contar com o silêncio dos portugueses. Não admira que Pedro
Passos Coelho nem se dê ao trabalho de dar explicações sobre o seu extenso
passado de ilícitos. Já se sabia que fez parte de uma quadrilha que enganou o
suficiente para receber 1,4 milhões de euros para formar centenas de funcionários
de aeródromos que não existiam: eram apenas dez. Quando a marosca saltou para
os jornais disse qualquer coisita sobre estar de consciência tranquila. E ficou
assim. Agora sabe-se que durante esse período de intensa actividade formativa
também andou a enganar
a Assembleia da República para receber por uma exclusividade que não tinha,
ao mesmo tempo que
enganava o fisco ao não declarar os cinco mil euros que durante anos
recebeu mensalmente da quadrilha dos aeródromos. Passos diz que não se lembra de
nada. E há-de ficar assim. O que é que fizemos para merecer isto? Nada. Quando
muito, uns aproveitam para praticar o desporto nacional do momento, brincar aos
insultos nas redes sociais, outros para se entreterem a dizer que o Sócrates
era melhor/pior que o Passos, outros para justificarem o nada que fazem a dizer
aquela dos políticos todos iguais. Nada, nada e nada. O nada que eles
rentabilizam. Uma organização de umas poucas centenas de elementos descobriu
como enriquecer a dar cabo de um país e das vidas de milhões de portugueses.
Quantos somos nós, afinal?
terça-feira, 23 de setembro de 2014
Gostei de ler: "A vitória da Tina"
Há dias, numa reunião pública
sobre saúde, alguém lembrava os extraordinários sucessos alcançados no domínio
da saúde materno-infantil no Portugal pós-25 de Abril e recordava com
entusiasmo o trabalho das equipas que tinham andado a percorrer o país após a
revolução, a criar consultas de saúde materno-infantil nos centros de saúde, a
formar o pessoal de saúde, a lançar campanhas de informação, e sublinhava os
progressos conseguidos logo nos primeiros anos, que transformaram Portugal num
exemplo mundial.
O tema em discussão era a
literacia de saúde e a campanha pela saúde materno-infantil nos anos 70 era
dada como exemplo do que é possível fazer, mesmo com meios escassos, quando
existe uma estratégia e uma vontade. Muitos dos presentes tinham idade para se
recordar ou para terem participado nestas acções e ninguém pareceu discordar da
mensagem da intervenção, mas alguém que falou a seguir lembrou com realismo que
“isso foi logo a seguir à Revolução, uma altura em que se podia fazer tudo
porque toda a gente estava mobilizada e todos queríamos melhorar as coisas e
acreditávamos que tudo era possível.” Hoje, isso seria impossível.
Por que é que houve uma altura
onde pensámos que tudo era possível e porque é que hoje tudo nos parece tão
inalcançável? Por que é que houve uma altura em que ousámos construir tantas
coisas novas e hoje tudo o que não seja a continuação do passado nos parece
demasiado arriscado? Por que é que ontem nos parecia evidente que era preciso
correr o risco de nos enganarmos para inventar e construir um mundo melhor e
hoje esse risco parece excessivo mesmo quando sentimos que a vida que vivemos é
vergonhosa e inaceitável? Por que é que ontem nos pudemos mobilizar
colectivamente em torno de melhorias concretas para todos e hoje isso nos parece
um sonho irrepetível?
Durante os últimos anos
repetiram-nos à exaustão que a austeridade era a única solução para um problema
que tínhamos provocado por termos sido preguiçosos e perdulários. Todos sabemos
hoje que o diagnóstico e a terapêutica eram falsos e que apenas serviram para
empobrecer os pobres, enriquecer os ricos, dar mais poder aos poderosos,
reduzir a nossa autonomia e a democracia. Mas, apesar disso, um número
impressionante de pessoas continua a repetir o mesmo falso mantra da
austeridade e irá votar nos mesmos partidos que a defenderam e aplicaram.
Conheço algumas destas pessoas. Algumas aceitam que outro caminho podia ser
melhor, mas têm medo de experimentar. Habituaram-se a ser servos nesta
plutocracia do PSD e do CDS e receiam mudar para algo novo. Desaprenderam não
só de sonhar mas de desejar. Receiam e recalcam os seus próprios desejos. Há um
provérbio, abjecto como tantos provérbios, que diz que é melhor o mau conhecido
que o bom por conhecer. Não há forma mais rastejante de ser conservador. É
assim que os poderes ilegítimos que nos governam, os mercados financeiros, as
máfias dos partidos, a finança da fuga ao fisco impõem o seu jugo. É melhor não
mudar porque se pode mudar para pior. É a estratégia do medo. E funciona. O que
espanta é como é possível que alguém queira dar este exemplo aos seus filhos,
um exemplo de servidão, de obediência canina sem direito a levantar os olhos do
chão.
Margaret Thatcher gostava de
repetir que “there is no alternative”. Não havia alternativa à liberalização, à
destruição dos serviços públicos, à redução dos direitos laborais, à
privatização dos bens públicos, à desregulação dos mercados. O mantra
neoliberal que hoje cobre todas as acções dos governos ocidentais, desde os da
direita assumida até aos que ainda se intitulam socialistas. A frase ficou
conhecida pelo acrónimo TINA. TINA representa o contrário de democracia, o
contrário da escolha popular, o contrário da soberania do povo, o contrário de
eleições onde se referendam programas políticos. Não há alternativa. As
escolhas impõem-se por razões naturais e, para Thatcher e para os seus
sicários, só se pode escolher entre ser escravo ou o caos. E muita gente
prefere ser escravo. Se eles dizem que não há alternativa, para quê escolher?
O referendo escocês foi outra
destas vitórias. Uma vitória do medo, uma derrota da autodeterminação. Os
escoceses escolheram não ter de escolher, escolheram a opção que lhes permitia
escolher o mínimo possível, continuar tanto quanto possível como até aqui.
Naturalmente que havia muitas boas razões para votar “Não”, mas as mais fortes,
as que determinaram o resultado, foram o receio da mudança. “It’s not worth the
risk” dizia um slogan do “Não” à independência.
É a democracia que está em crise,
não o sistema ou o regime mas a própria ideia da democracia. Escolher e assumir
o risco da escolha tem neste momento má imprensa. A ideia da moda é que o
melhor é não fazer ondas, não mudar nada. Seguir o rebanho. Nem na UE, nem no
euro, nem do Reino Unido, nem em lado nenhum, porque qualquer coisa nova pode
ser pior. A direita conseguiu impor o medo da rotura, da construção de algo
novo, o medo de tentar, o medo de escolher. Mas sabemos que para sair deste
pântano vamos ter de tentar.» - José Vítor Malheiros, no Público.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


