«(...) O antigo bastonário foi
mestre na mais fina arte populista: a caça ao voto com o tiro aos políticos. O
que é surpreendente nesta história é que Marinho não tenha sequer aguentado 3
meses sem se revelar, ele mesmo, a mais perfeita representação dos políticos
que caricaturava. Marinho Pinto pediu os votos para o MPT, que hoje admite ter
usado apenas como barriga de aluguer, apresentando-se como de esquerda, apesar
de hoje estar integrado no grupo europeu dos liberais. Bem sabemos que foi uma
solução de recurso. Os Verdes europeus - a primeira escolha - é que não levaram
muito a bem a declarações homofóbicas do então candidato português.
Marinho e Pinto prometeu ser um
"formiguinha" em Bruxelas, mas já disse que não cumprirá o mandato
para se poder candidatar às legislativas e, logo a seguir, às presidenciais. O
formigueiro de Bruxelas não era senão um trampolim político para o homem que,
quem sabe, ainda vamos ver um dia candidatar-se à Casa dos Segredos, se achar
que as noites com a Teresa Guilherme lhe podem dar mais votos que as manhãs do
Goucha.
Marinho Pinto foi eleito porque
denunciava os privilégios dos políticos, os seus salários e regalias. Cresceu
com o "são todos iguais". Hoje, acha que o salário de eurodeputado é
"vergonhoso" mas que, por via das dúvidas, vai mantê-lo até saber se
consegue ser eleito deputado nacional. Um sacrifício pela pátria, está visto,
já que o salário de bastonário, €4800, "não dá para muito", e muito
menos o de deputado nacional, muito abaixo desse valor.
E é assim que, em pouco mais de
três meses, Marinho e Pinto consegue contrafazer tudo o que prometeu em
campanha. O seu populismo revelou-se inversamente proporcional ao contributo
político que teve para oferecer. Ainda não vimos o deputado europeu a lutar por
menos impostos, por salários dignos, por mais direitos. Até agora, só a
atrocidade de lamentar um salário de €4800 no mesmo país em que a média das
pessoas não ganha mais de €900, e que mais de meio milhão vive com €485
mensais.
O populismo que toma os políticos
como um todo, que se alimenta do descontentamento popular oferecendo respostas
fáceis, exagerando os factos, encontrando bodes expiatórios, em nada contribui
para a democracia. Pelo contrário, descredibiliza-a, afasta-a das pessoas,
menoriza-a, sem resolver nenhum dos problemas de fundo: a pobreza, o
rotativismo incessante, a certeza de poder pouco perante a corrupção e os
grandes interesses financeiros.
Se há abusos, acabe-se com eles,
mas com a coragem de rejeitar as derivas populistas que em nada contribuem para
aprofundar a democracia portuguesa e para fazer da política um verdadeiro
instrumento de cidadania ao serviço daqueles que cá vivem. Tem de ser possível.
Afinal, não somos todos iguais a Marinho e Pinto.» – Mariana Mortágua, no Expresso.

