quinta-feira, 18 de setembro de 2014

E siga o derby laranja-rosa


No início do mês, as hostes laranja regozijaram-se com a notícia da sentença do Face Oculta. Passados dias, a mesma festa com a notícia da sentença de Maria de Lurdes Rodrigues, com as hostes rosa ainda mais assanhadas do que da primeira vez a defenderem a sua dama com unhas e dentes entre urros e gritos. Mas hoje, e desculpem lá os pormenores, com o sistema de Justiça em estado de Citius, com o concurso de professores a atestar o pandemónio que vai na Educação e com mais uma demissão de uma directora hospitalar a mostrar que na Saúde o regabofe não anda menos animado, inverteram-se os papeis porque a notícia é “Campanhas do PSD e Filipe Menezes sob investigação por suspeita de desvio de milhões do erário público”. A desforra. Umas vezes ganham os de laranja, outras vezes ganham os de rosa. Nós perdemos sempre. Mas há quem sempre ganhe. O Conselho de Ministros aprovou nesta quinta-feira a venda da Empresa Geral de Fomento (EGF) – o grupo estatal que controla o tratamento de dois terços dos lixos urbanos do país – ao agrupamento Suma, liderado pela Mota-Engil. Quer o poder esteja nas mãos de PSD, quer o poder esteja nas mãos do PS, pinga sempre qualquer coisita nos quintais de empresas como a Mota-Engil. Porque toda a gente sabe que o PSD é inquestionavelmente melhor do que o PS. E porque até uma criança é capaz de perceber que o PS é incomparavelmente melhor do que o PSD. Sem estes dois partidos, este país seria ingovernável. O presidente da República é o garante do regular funcionamento das instituições democráticas.


Para esquecer mais uma privatização a preço de saldo, a notícia seguinte: O primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, estará a ser investigado pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) por ilegalidade devido a rendimentos auferidos entre 1995 e 1998, período em que era deputado em exclusividade, e que não foram declarados, avança a revista "Sábado".

Gostei de ler: "Salvemos Portugal dos seus salvadores"


«Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu, tem sido tratado na comunicação social como o "salvador do euro". De facto, antes das suas declarações do Verão de 2012, a especulação contra a dívida pública espanhola e italiana tinha conduzido as suas taxas de juro a níveis insustentáveis. Tudo se encaminhava para uma situação em que estes países tivessem de escolher entre pedir apoio financeiro à UE e emitir moeda própria. No entanto, após os "resgates" da Grécia, da Irlanda e de Portugal, já não havia apoio político no Norte da UE, em particular na Alemanha, para assumir responsabilidades adicionais. Ao dizer que estava disposto a fazer o que fosse preciso para salvar o euro - comprar dívida pública nos mercados secundários, sem limite -, Draghi produziu uma baixa decisiva nas taxas de juro e, por isso mesmo, não teve necessidade de intervir. Desde então, a abundância de liquidez nos mercados financeiros tem mantido os juros da periferia da zona euro desligados da sua evolução económica e financeira. Até um dia...

Acontece que a insistência na austeridade para alguns, a par do generalizado esforço para alcançar o equilíbrio orçamental, conduziram a uma quebra na procura interna que já não pode ser compensada pelas exportações. As exportações de uns enfrentam a procura insuficiente dos outros, para mais com um euro forte que torna ainda mais baratas as importações dos países de baixos salários. Com a procura deprimida, a inflação baixou imenso e em vários países, incluindo Portugal, os preços têm diminuído. Estamos em sério risco de mergulhar numa deflação, à semelhança do Japão nos anos 90. O BCE já percebeu que a situação é grave. Com deflação, as taxas de juro reais (nominais deduzidas da variação nos preços) sobem e tornam as dívidas ainda mais insuportáveis, o que conduz a mais falências, mais desemprego e crises bancárias (sim, para além do BES!). Face à degradação da conjuntura, Draghi voltou a falar (22 Agosto) e disse o impensável: há riscos políticos graves (leia-se "risco para o euro") se o desemprego não for enfrentado com a política orçamental, em complemento da política monetária excepcional que está a preparar. Os mercados financeiros ficaram satisfeitos e relançaram a bolha especulativa. Até um dia...

Muitos dizem que Draghi reforçou o seu estatuto de "salvador do euro" e esperam que a nova Comissão Europeia, reconhecendo a natureza excepcional da situação, comece a flexibilizar os critérios do défice e da dívida. Esperam também que o BEI financie grandes obras de investimento público (com poucos efeitos na periferia) através da emissão de obrigações, possivelmente compradas pelo BCE. E até vislumbram uma conferência europeia para a reestruturação das dívidas da periferia. Porém, num contexto de grande incerteza geopolítica, o mais provável é o agravamento da crise. Na verdade, fazer deslizar o horizonte dos 3% no défice não chega a ser política orçamental. Também não é previsível que as eurobrigações em grande escala, mesmo que camufladas pelo BEI, venham a obter o acordo da Alemanha. Mais, se a taxa de juro negativa sobre os depósitos dos bancos no BCE já causou escândalo (ver Jörg Bibow, "German Savers Have It Really Tough"), imagina-se o que aconteceria se Juncker sugerisse uma conferência sobre a dívida. Fiel à ortodoxia, o BCE também insiste nas reformas estruturais, o que na prática significa a passagem do Estado social a um Estado assistencial, negócio para os fundos de pensões e uma ainda maior precarização do trabalho. O consumo das classes mais desfavorecidas e o investimento são prejudicados, o que aliás impede a redução dos défices. Mas para isso haverá tolerância em Bruxelas, desde que o mais importante seja feito - desmantelar o Estado social com o pretexto de que se está a salvá-lo. Até um dia...

Antes que o país desapareça, é urgente fazer chegar esse dia, aquele em que salvaremos Portugal dos seus salvadores. E ajudaremos a salvar a Europa da depressão, dos fanatismos e da guerra.» – Jorge Bateira, no I.