
«Mario Draghi, presidente do
Banco Central Europeu, tem sido tratado na comunicação social como o
"salvador do euro". De facto, antes das suas declarações do Verão de
2012, a especulação contra a dívida pública espanhola e italiana tinha
conduzido as suas taxas de juro a níveis insustentáveis. Tudo se encaminhava
para uma situação em que estes países tivessem de escolher entre pedir apoio
financeiro à UE e emitir moeda própria. No entanto, após os
"resgates" da Grécia, da Irlanda e de Portugal, já não havia apoio
político no Norte da UE, em particular na Alemanha, para assumir
responsabilidades adicionais. Ao dizer que estava disposto a fazer o que fosse
preciso para salvar o euro - comprar dívida pública nos mercados secundários,
sem limite -, Draghi produziu uma baixa decisiva nas taxas de juro e, por isso
mesmo, não teve necessidade de intervir. Desde então, a abundância de liquidez
nos mercados financeiros tem mantido os juros da periferia da zona euro
desligados da sua evolução económica e financeira. Até um dia...
Acontece que a insistência na
austeridade para alguns, a par do generalizado esforço para alcançar o
equilíbrio orçamental, conduziram a uma quebra na procura interna que já não
pode ser compensada pelas exportações. As exportações de uns enfrentam a procura
insuficiente dos outros, para mais com um euro forte que torna ainda mais
baratas as importações dos países de baixos salários. Com a procura deprimida,
a inflação baixou imenso e em vários países, incluindo Portugal, os preços têm
diminuído. Estamos em sério risco de mergulhar numa deflação, à semelhança do
Japão nos anos 90. O BCE já percebeu que a situação é grave. Com deflação, as
taxas de juro reais (nominais deduzidas da variação nos preços) sobem e tornam
as dívidas ainda mais insuportáveis, o que conduz a mais falências, mais
desemprego e crises bancárias (sim, para além do BES!). Face à degradação da
conjuntura, Draghi voltou a falar (22 Agosto) e disse o impensável: há riscos
políticos graves (leia-se "risco para o euro") se o desemprego não
for enfrentado com a política orçamental, em complemento da política monetária
excepcional que está a preparar. Os mercados financeiros ficaram satisfeitos e
relançaram a bolha especulativa. Até um dia...
Muitos dizem que Draghi reforçou
o seu estatuto de "salvador do euro" e esperam que a nova Comissão
Europeia, reconhecendo a natureza excepcional da situação, comece a
flexibilizar os critérios do défice e da dívida. Esperam também que o BEI
financie grandes obras de investimento público (com poucos efeitos na
periferia) através da emissão de obrigações, possivelmente compradas pelo BCE.
E até vislumbram uma conferência europeia para a reestruturação das dívidas da
periferia. Porém, num contexto de grande incerteza geopolítica, o mais provável
é o agravamento da crise. Na verdade, fazer deslizar o horizonte dos 3% no
défice não chega a ser política orçamental. Também não é previsível que as
eurobrigações em grande escala, mesmo que camufladas pelo BEI, venham a obter o
acordo da Alemanha. Mais, se a taxa de juro negativa sobre os depósitos dos
bancos no BCE já causou escândalo (ver Jörg Bibow, "German Savers Have It
Really Tough"), imagina-se o que aconteceria se Juncker sugerisse uma
conferência sobre a dívida. Fiel à ortodoxia, o BCE também insiste nas reformas
estruturais, o que na prática significa a passagem do Estado social a um Estado
assistencial, negócio para os fundos de pensões e uma ainda maior precarização
do trabalho. O consumo das classes mais desfavorecidas e o investimento são
prejudicados, o que aliás impede a redução dos défices. Mas para isso haverá
tolerância em Bruxelas, desde que o mais importante seja feito - desmantelar o
Estado social com o pretexto de que se está a salvá-lo. Até um dia...
Antes que o país desapareça, é
urgente fazer chegar esse dia, aquele em que salvaremos Portugal dos seus
salvadores. E ajudaremos a salvar a Europa da depressão, dos fanatismos e da
guerra.» – Jorge Bateira,
no
I.