quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Mas ele agora é o Moedas das ciências



Carlos Moedas quereria uma pasta talhada à sua medida, talvez a das ciências ocultas das relações com especuladores financeiros, paraísos fiscais e máfias das grandes multinacionais. Grande maldade, acabaram por pôr o rapaz na investigação, ciência e inovação, área com algumas semelhanças no nome mas na qual apenas tem uma experiência indirecta por ter pertencido ao Governo que também neste campo mais fez para dar cabo do pouco que por cá havia. Ainda assim, a sua reacção foi de enorme satisfação. Pagam bem, é poder, dá curriculum e pode ser que o tacho ainda dê para ganhar uns cobres por fora, ou os conhecimentos que se arranjam nestas coisas não tivessem sempre a sua ciência. Assim se distribuem as pastas na Comissão Europeia. Só por mero acaso é que dali não sairia invariavelmente asneira após asneira. Quem não sabe é como quem não vê. Também não é preciso. Rebéubéu, Moedas ao tacho. É português!

E se falassem de política?


No final do tão aguardado embate entre Costa e Seguro, ontem à noite, verbalizei no meu facebook a inquietação que me acompanhou durante todo o espectáculo: “Costa ou Seguro. Ou Passos Coelho. Gostava que me dessem um argumento político, um só, que justifique a preferência por um, pelo outro ou pelo terceiro. Estilo, aspecto, timbre de voz, firmeza aparente, capacidade de mobilização não são argumentos políticos, bem entendido. Isso é espectáculo, conversa de facção. Refiro-me a estratégia, a opções políticas, a coisas que possam mudar as nossas vidas, a política mesmo. Isto anda tão mau que até temos que explicar o que é política.”
Leio hoje o artigo de Nuno Saraiva, no I, e a inquietação que expressa é a mesma: e se falassem de política? «A estratégia era clara e previsível. Seguro partiu para o debate com o firme propósito de se vitimizar. Fê-lo durante 20 minutos, dos 35 que estavam reservados para o primeiro round do combate com Costa. Reafirmou-se traído, vítima de deslealdade, órfão de solidariedade, e quis colar o seu adversário nas primárias a José Sócrates, de quem, fez questão de o recordar uma meia dúzia de vezes, foi número dois no Governo e no partido. Deste ponto de vista, e só deste, Seguro ganhou o debate. Surpreendeu pela agressividade e acutilância e obrigou Costa, pouco habituado à proximidade com as cordas do ringue, a defender-se. Não sei se Seguro conquistou novos apoios. Desconheço, aliás, se era esse o fim a que se propôs. Ouvi, porém, à boca da sala comentar-se "coitado do António". Era de Seguro que falavam. Com pena, daquela que se tem de quem sofre maus-tratos ou é lamechas. No campeonato do Calimero, a derrota de Costa foi, portanto, estrondosa. No que importa, no campo da política, perderam os dois. Nenhuma ideia, nenhuma proposta, sobre aquilo que verdadeiramente conta para a nossa vida. Nem uma palavra sobre o que fazer à dívida que nos sufoca, ou como garantir a sustentabilidade da Segurança Social que faz das pensões uma incógnita, ou como lidar com um Tratado Orçamental injusto e incumprível numa Europa germanizada, ou como devolver o País à rota do crescimento sustentável, ou como atalhar o flagelo do desemprego, ou... Nada, a não ser generalidades, alguma demagogia e muita vacuidade. Hoje, é o segundo assalto. Esperemos que as contas estejam definitivamente ajustadas e que se fale de política para as pessoas e das pessoas. Porque é isso que se exige a quem aspira ser primeiro-ministro. Que se afirme como alternativa. Que diga, preto no branco, porque é que é diferente, para melhor, do outro. Agora, se esta noite a lengalenga for a mesma, de um lado a súplica por compaixão - já não há paciência - e do outro o vazio de propostas, Passos Coelho dormirá, seguramente, mais descansado.»