Foi numa Sexta-feira. Ontem. O
país das políticas estrebuchava após mais de doze anos de austeridade em vias de se
tornar eterna se nada se fizer em contrário. O país dos governantes
irresponsáveis e incompetentes desdobrava-se em entrevistas para explicar o
inexplicável sobre uma reforma da Justiça que a afastará de onde é necessária,
de perto dos cidadãos, e que começou num caos feito de milhões de páginas de
processos em trânsito pelos ares e com o sistema informático que lhe serve de
suporte completamente paralisado. O país da impunidade engordava com mais um
banco falido que todos iremos pagar. O país das claques partidárias do arco
disto tudo entoava os cânticos do costume, "o meu partido é melhor do que
o teu". O país do abstencionismo vociferante, como o próprio nome indica,
vociferava a bom vociferar na esperança de que a vidinha melhore por efeito directo
da sonoridade dos seus insultos sobre a inconsciência surda de quem lhes decide
os destinos com a garantia de que tal ruído não conta para o seu totobola. O
país do abstencionismo não te rales lia a Caras enquanto esperava pela hora da
telenovela.
Nisto, todos pararam para receber
a notícia "Face
Oculta: todos condenados num dia histórico para a Justiça". Hoje até
choveu. "Vitória, vitória", como se fosse aqui que terminasse a
história. Não terminou. Todos os condenados irão recorrer e não é inédito que corruptos
inicialmente condenados a penas de 6 ou 7 anos de prisão acabem depois por ver a pena
reduzida no número de anos e a prisão efectiva transformada em trabalhos
alegadamente prestados à comunidade em instituições de solidariedade dirigidas
por gente amiga, uma moda judicial muito em voga nos dias que correm.
Valeria a pena moderar o
entusiasmo. Reparar que o Face Oculta se trata de um caso sem grande
complexidade, que não envolve nem somas astronómicas, nem grandes tubarões. Não
me parece que seja o caso, e há que enaltecer o excelente trabalho de uma
equipa de profissionais que pôde trabalhar numa unidade especializada em
criminalidade económica bem dotada de meios humanos e materiais, mas não
custaria nada aos tubarões sacrificarem dois carapaus e um jaquinzinho
coleccionador de carros de corrida para acalmarem as águas e poderem nadar mais
à vontade.
Seja lá como for, amanhã é
Domingo. E depois é Segunda-feira, tudo regressa a uma normalidade que exclui a
condenação de corruptos como regra e a impunidade como excepção. Nada mudará enquanto
o poder de fazer as leis e de ditar como estas são aplicadas permanecerem nas
mãos de quem nos fez os dias assim. A impunidade tem-nos ajudado a necessitarem
de cada vez menos votos para manterem esse poder. Que uma excepção não os ajude
a necessitarem de ainda menos. À Justiça o que é da Justiça, aos cidadãos o que
compete aos cidadãos. Fazerem a democracia funcionar. Porque só a democracia faz
funcionar a Justiça. E porque a democracia só funciona se a Justiça funcionar.
