«"O Estado tem de cumprir a
sua parte, gastando menos, e as empresas privadas e as famílias vão ter de
gastar menos também, de modo a poder poupar, a aumentar a taxa de poupança em
Portugal e garantir condições para alguma retoma do investimento." Este
foi, sem dúvida, o pior conselho económico que Passos Coelho deu ao país e é,
enquanto programa político, responsável pela incapacidade da zona euro para
entrar numa nova fase de crescimento sustentado.
O apelo à poupança, especialmente
em tempos de crise, não é novo. Já Adam Smith considerava que a
"parcimónia e não a industria" é o motor do desenvolvimento
capitalista. A ideia é moralmente forte e perfeita para o objetivo de Smith ao
escrever a Riqueza das Nações: a elaboração de um argumento moral e económico
que justificasse o seu projeto de classe, na altura ainda por concluir, que se
baseava na construção de uma economia de mercado. Economicamente, a parcimónia
não é a melhor amiga do emprego e do crescimento.
Se há coisa que Keynes conseguiu
provar com a publicação da Teoria Geral, foi que, ao contrário do defendido por
Adam Smith, nem toda a poupança gera investimento. Por exemplo, numa altura de
crise, aqueles que detêm o capital preferem guardá-lo, em vez de o investir. Se
pensarmos bem, é a coisa racional a fazer, dadas as incertezas dos mercados, o
desemprego ou a manifesta falta de poder de compra. Se todos aqueles que têm
alguma possibilidade de gastar o seu dinheiro resolverem poupá-lo, o
investimento não crescerá, como aventou o primeiro ministro. Acontecerá
precisamente o contrário. As pessoas vão consumir menos, causando mais
dificuldades às empresas, mais desemprego, mais incumprimento de créditos.
Nesta economia, em que todos cortam no investimento e no consumo, os salários
vão descer, assim como os lucros das empresas. Mais poupança não gera mais
investimento porque a relação é oposta: é o consumo (externo ou interno) que
gera investimento, e é esse investimento que cria salários e lucros que
permitem novos projetos. A poupança é o que sobra neste processo. Por outro
lado, também é hoje claro que o investimento precisa de financiamento, e esse
vem do crédito, que, como bem temos visto, não depende do aumento da poupança
mas da vontade dos bancos.
A ideia da falácia da composição
proposta por Keynes é simples: é racional para uma pessoa poupar para pagar as
suas dívidas, é um desastre se todos o fizerem ao mesmo tempo. A mão invisível
deixa de funcionar, e o pior que um governo pode fazer é contribuir para esse
resultado, também ele cortando nas despesas que poderiam dar algum fôlego à
economia.
A parcimónia e a austeridade são,
de facto, uma péssima forma de uma economia pagar as suas dívidas. A começar
porque a queda do produto torna o peso da dívida automaticamente maior em
relação ao PIB. Em segundo lugar, porque o mais provável é a economia entrar
num processo de deflação (como o que vivemos), em que os preços começam a cair.
E aqui o mesmo raciocínio pode ser aplicado: é bom para um consumidor se o
preço das suas compras desce, se todos os preços descerem a economia encolhe,
as empresas sofrem e as dívidas de antes tornam-se mais pesadas (basta pensar
que enquanto antes bastava vender 100 pares de sapatos para pagar um crédito,
agora será necessário vender 120).
Inflação em excesso pode colocar
problemas sérios às economias, mas sem uma dose moderada da mesma não é
possível crescer. O que fazer então?
Uma das hipóteses é instar os
bancos a emprestar à economia real. Isto pode ser feito baixando a taxa de juro
e injetando dinheiro nos bancos. Acontece que, como os próprios bancos querem
poupar e limpar os seus balanços, o dinheiro do banco central nunca chega a
sair do sistema financeiro. E é este o ponto em que nos encontramos.
O Banco Central Europeu
apercebeu-se, finalmente, que a economia da zona euro não deve temer a
inflação, mas sim a deflação e a estagnação económica. Mario Draghi percebeu,
finalmente, que os três biliões injetados na banca nunca chegaram à economia.
Perante isto, aquele a quem já chamam Super Mario, decidiu descer novamente as
taxas de juro, e anunciar novos mecanismos que passam, além da injecção de
dinheiro nos bancos, pela compra de títulos bancários que representam dívida a
privados (os moldes concretos ainda não são conhecidos). Não parece mal, à partida,
mas será que resolve o problema?
Em primeiro lugar, parte do
mecanismo continua a passar pela injeção de moeda na banca, que já provou não
estar vocacionada para ajudar as economias nos momentos mais difíceis. Em
segundo lugar, mesmo que a compra de títulos de dívida privada seja
condicionada a empréstimos ao setor privado (o que ainda não está definido), se
estes empréstimos mais baratos servirem para pagar dívidas antigas, ou seja,
para poupar, e não para investir, o problema não será resolvido.
Independentemente de serem
consideradas mais ou menos ousadas, as medidas anunciadas pelo Super Mário
europeu não tocam no fundo da questão: para além de injetar dinheiro cegamente
no sistema financeiro, a outra forma - mais eficaz - de combater a deflação é
através de políticas fiscais e orçamentais. Não fosse por um absoluto
dogmatismo que vem, aliás, dos tempos de Smith, o que o Banco Central deveria
estar a fazer era a comprar dívida pública, a financiar os Estados a juros
baixos e prazos longos. E o que os Estados deveriam estar a fazer era promover
o crescimento pelos salários, pelo investimento no setor produtivo, pela
criação de verdadeiros programas de combate ao desemprego. Sim, estamos a falar
de políticas industriais e sociais, e de uma finança controlada pelo poder
público. Faz sentido, é o oposto do que nos trouxe até aqui.» - Mariana Mortágua,
no Expresso.
