Comecei por escrever “se
perguntarmos ao cidadão comum”, mas imediatamente esbarrei na minha
incapacidade de delimitar o conceito. Não sei o que é lá isso de “cidadão
comum”, expressão empregue por tantos especialistas tão às escuras nisto como
eu mas que conseguem disfarçá-lo melhor. Pela lógica, um “cidadão comum” seria
um “cidadão”, alguém com valores de cidadania, o que nos dias que correm é uma
raridade, que simultaneamente seria “comum”, isto é, uma coisa ao mesmo tempo
rara e comum. O “cidadão comum” é um disparate. Mesmo a calhar. Era minha intenção
escrever sobre um grande disparate, o adiamento de uma decisão que teremos que tomar
mais cedo do que tarde.
Regresso, pois, à formulação
inicial. Se nas décadas 80 e 90 perguntássemos ao “cidadão comum” sobre esses primeiros
anos da nossa integração europeia, decerto que os balanços seriam maioritariamente
positivos. E o “cidadão comum” sabia dizer porquê: passou a ter acesso a
melhores hospitais, escolas mais modernas para os seus filhos, auto-estradas e
comboios novinhos em folha que reduziram para menos de metade a duração dos
trajectos, a casa própria, o carrito e até as férias ao sol que antes quase
ninguém tinha. Claro, havia a percepção da existência de figurões que
enriqueciam à margem da lei, tolerava-se que o Estado pagasse 10 pelo que
poderia custar 1, percebia-se perfeitamente que o sol de tantos milhões pouco
entrava nas casas dos vinte ou 30 por cento mais pobres, mas lá está, já nessa
altura era pouco comum o “cidadão comum” ser minimamente cidadão.
Entretanto, tudo mudou. A Europa que
se comprometeu a financiar a redução do atraso estrutural que herdámos da
ditadura para nos convencer a aderirmos à então CEE inverteu quer a torneira
dos milhões, que hoje correm de cá para lá, quer a ajuda que nos presta, hoje
obriga-nos a definhar, a empobrecer, a implodir economicamente, a regredir
socialmente. A vida da grande maioria dos portugueses piora todos os dias, cada
ano pior do que o anterior, e tudo aponta para que continue a piorar durante as
próximas décadas. Contudo, se perguntarmos ao “cidadão comum” se vale a pena
permanecer nesta Europa que nos impõe o declínio como destino sem nos dar nada
em troca e neste euro que nos pinta o futuro em tons de negro cada vez mais
carregados, a resposta maioritária será o sim, um sim porque sim,
instintivo, o cidadão comum não consegue dizer porquê.
Por tudo isto este cidadão comum ficou muito satisfeito
com a notícia do lançamento no dia de amanhã de “A Solução Novo Escudo”, escrito
por Francisco Louçã e João Ferreira do Amaral precisamente para um público de cidadãos
sem aspas que procura estes porquês, os dois autores avisam que este não é um
livro técnico. "Partimos da hipótese de que ocorreu ontem a saída do euro,
sem discutirmos aqui se é ou não a melhor estratégia ou sequer a melhor
solução", dizem Louçã e Ferreira do Amaral na introdução de "A
Solução Novo Escudo". Os dois autores assumem à partida a diferença de
pontos de vista sobre o assunto: João Ferreira do Amaral foi desde sempre um
defensor da saída da moeda única, enquanto Louçã mantém que essa é a última
opção a tomar, se a reestruturação da dívida continuar a ser recusada. Mas
ambos reconhecem que "por imposição externa ou por imperativo de escolha
nacional, a saída do euro pode vir a ocorrer em prazos porventura curtos".
“"Os dois autores sublinham que "Portugal não pode aceitar mais
sacrifícios em nome do euro e prosseguir a austeridade que tem destruído a
economia e o emprego". A conclusão do livro pretende demonstrar como após
a saída do euro se poderá "melhorar a parada para os que têm sempre
perdido e não merecem continuar a perder, ou como se pode mudar a relação de
poder na gestão económica, para favorecer a democracia". (mais aqui, entrevista com os autores em duas partes, aqui
e aqui)

