condutor
«François Hollande, Monsieur le
Président, empossa hoje o segundo governo de Manuel Valls, o seu rival e
salvador, que devia ter restabelecido a pose da maioria mas que só somou
desgraças: perdeu as eleições europeias para Marinne Le Pen e caiu 20% nas
sondagens em três meses. Se era a última cartada do Presidente mais impopular
da Vª República, então fracassou tristemente. Nem o autoritarismo de Valls, nem
o seu frenesim sarkoziano, nem a sua xenofobia concorrencial com a
extrema-direita, nada serviu para refazer o contrato presidencial.
É certo que tudo começou mal. A
campanha prometera um novo farol para a social-democracia: Hollande seria o de
uma nova Europa, o homem que faria frente a Merkel e que corrigiria os
desmandos financistas de Schauble, impondo um musculado Anexo ao Tratado
Orçamental, de modo a salvar a União, reconduzida ao caminho sensato do emprego
e das pessoas. Duas semanas depois de ter tomado posse, Hollande ouviu o
ralhete da Chanceler, o Anexo de Hollande finou-se sem glória e o Presidente
voltou para a mansidão do Eliseu, esquecido pela Europa e vergado à canga do
Tratado.
Desde então, a história continuou
a piorar, a luz do farol desvaneceu-se e Monsieur Le Président inaugurou a era
da austeridade. Recorreu para isso a Valls, o socialista disponível mais
parecido com a direita. Agora, o segundo governo Valls, reconhecendo o impasse
– a França não consegue um ajustamento orçamental suficiente, a economia
ressente-se, o desemprego não diminui, as tensões aumentam – resolve o assunto
ao modo prussiano, com mais cortes e mais austeridade.
Dois ministros que se atreveram a
criticar a solução neoliberal da austeridade e do desemprego, Montebourg e
Hamon, foram enxotados sem uma carta de recomendação, curiosamente no mesmo dia
em que a Europa e os mercados financeiros aplaudem as palavras de Draghi: um
pouco menos de austeridade, se faz favor. O FMI, pelo seu lado, pede aumentos
de salários na Alemanha. Um pouco menos de austeridade, que a deflacção ameaça
e a recessão se prolonga já por seis anos.
Valls, impávido, e Hollande,
solene como sempre, continuarão no entanto o caminho presidencial, indiferentes
a essas querelas que temem mais do que tudo, porque já verificaram que são mais
as vozes do que as nozes. Austeridade será.
Para a Europa, é simplesmente a
confirmação de que, passados os arroubos eleitorais, a pesada realidade se
impõe e Berlim manda como quer. Mas, para os socialistas que queriam um
vislumbre de esperança, fica o espelho cruel: afinal, o seu herói é uma miragem
de Merkel. E, finalmente, para Portugal, enterra-se a derradeira e mirrada
esperança de que, se a Europa ainda fosse gerida pelo duo Alemanha-França, o
poder era divisível e um deles talvez procurasse aliados para qualquer pequena
barganha e se lembrasse de nós. Não se lembram, a Europa não existe e Hollande
também não. A vida é assim.» – Francisco Louçã, “Hollande,
uma fraude contra a Europa”
«Amarrados ao "cumprimento
dos nossos compromissos externos", não há alternativa. Esta frase da moção
de António Costa é exemplar da quadratura do círculo em que os partidos
socialistas europeus estão implicados - e que, chame-se o líder Costa, Seguro,
Hollande, Renzi ou rato Mickey, não dão mostras de conseguir ultrapassar. Ora
vamos lá a ver: António Costa defende que a recuperação económica e social
"tem de integrar um novo equilíbrio entre um sério cumprimento dos nossos
compromissos externos no quadro da União Económica e Monetária" - aqui
está a frase maldita que muitos juravam que Costa nunca pronunciaria - com
"o respeito das responsabilidades constitucionais" e também com
"uma renovada capacidade para dar resposta às necessidades de desenvolvimento
da nossa sociedade".
A verdade é que "os
compromissos externos" são exactamente aqueles que o governo tem esgrimido
como principal motivo da devastação económica e social a que assistimos nos
últimos três anos. Pode dizer-se que o governo gosta da política em vigor na
União Europeia e o PS não gosta - isto é uma verdade, venha ela do socialista
Costa ou do socialista Seguro. Mas uma coisa é não gostar, outra é pôr em causa
esses compromissos, através de propostas de renegociação de dívida e quejandos:
e nisso os dois candidatos às primárias estão de acordo. Estamos vinculados
"a um sério cumprimento dos nossos compromissos", diz António Costa,
que é basicamente o mesmo que dizia António José Seguro quando a ala mais à
esquerda que hoje apoia António Costa atacava Seguro pela sua complacência face
a esses "compromissos". Tudo isto acaba por ser um bocadinho cómico.
Claro que Costa defende outra
atitude perante a Europa com que Passos não concorda - mas que Seguro, por
acaso, também defende. Aliás, defendem os dois o mesmo. Cito a moção de Costa:
"É no quadro da negociação destas novas políticas europeias que o PS se
deve comprometer a trabalhar para encontrar um novo equilíbrio entre os
compromissos assumidos em matéria orçamental, a necessidade de reduzir os
custos da dívida pública e a urgência de políticas para mais crescimento e
emprego." Isto era bom que acontecesse, mas até agora não aconteceu. Um
senhor chamado François Hollande, presidente da República Francesa, um país com
muito mais poder que Portugal no quadro europeu, não conseguiu nada. A maioria
na UE que manda é contra. A política socialista (não importa quem é o
protagonista) resume-se a rezar.» – Ana Sá Lopes, “O plano económico
do PS é rezar”.
