«(…) A construção da alegada
superioridade do humanitário sobre o político assenta na qualificação dessas
causas como neutras, por contraste com problemas cujo diagnóstico e cujas
soluções assumidamente o não são. O humanitarismo é consensual porque se
declara politicamente neutro e porque, ao colocar o centro na condição de
vítima, substitui a escolha política pela técnica terapêutica. Tudo neutro,
tudo técnico, tudo só generoso sem mais implicações. Essa neutralidade, assim
construída, dá aliás imenso jeito: a escolha do campo da neutralidade em
detrimento do campo das escolhas contrastadas e polémicas faz parte dos cânones
da gestão da imagem de boa parte dos rostos destas campanhas. O que não cause mossa
à popularidade unânime é dito como sendo nobre, o que obrigue a escolhas que
dividem é tido como inconveniente e fica para "os políticos". (…) A
generosidade é sempre bem-vinda. Mas enquanto ela for complacente com um
sistema fiscal iníquo e com um desinvestimento na saúde como bem público, não
haverá campanhas de figuras públicas que nos valham. A disponibilidade de
atores, futebolistas, gente do jet set, apresentadores de televisão para,
aceitando os riscos de desagradar a alguns dos seus fãs, ir além do gesto
convenientemente humanitário e fazer campanha contra o verdadeiro duche gelado
que é a realidade de um país injusto e onde cada vez há menos capacidades de
todos poderem lutar de igual modo contra a doença soa a utopia. Porque será?» -
José
Manuel Pureza.
«(...) O povo construído pela
televisão é degenerado, ridículo, monstruoso. E os seus criminosos construtores
têm nomes publicamente conhecidos e sucesso alargado: são as Júlias, as Luísas,
os Joões, os Manueis e os seus directores de programas, produtores, chefes,
empresários, até ao topo da hierarquia. Há o “povo” que vem aos estúdios dos
programas da televisão (quase sempre um “povo” suburbano que já conhece bem os
códigos da televisão e sabe imitá-los); e há o povo que a televisão visita no
seuhabitat natural, geralmente os recantos profundos do país onde se vai em
busca de arquétipos. Um e outro são descaradas mentiras, falsas construções que
deformam até à degradação. (…) A televisão não concede ao seu povo existência
política. Pelo contrário, retira-lha e despolitiza-o, mesmo quando ele surge
enquadrado num contexto ou num motivo políticos. Quantas vezes não assistimos
já às câmaras a fazerem um zoom sobre as mãos encarquilhadas, ou qualquer outra
parte do corpo, do indivíduo do “povo” que se queixa de uma qualquer decisão —
ou da ausência dela — dos governantes? Nesse momento, a pessoa é espoliada do
seu estatuto político e ganha uma espécie de qualidade étnica. Já alguém deu
por a televisão fazer um grande plano das mãos de um ministro? Já alguém viu,
na televisão, as mãos de Marcelo Rebelo de Sousa a não ser como instrumentos de
gesticulação expressivo-didáctica? O povo da televisão não é representado como
sujeito minoritário do populus, do corpo de todos os cidadãos. É visto, antes,
como espécie castiça de um parque natural que fica longe, muito longe, da
Comporta. (…)» – António
Guerreiro.
«É repugnante odiar os pobres por
não estarem sempre a sofrer mas é cada vez mais frequente ouvir-se que o
não-sei-quantos vai buscar comida à igreja mas depois vai beber uma imperial na
praia. Uma das mais velhas anedotas judias é a do schnorrer (crava esperto) que
vai pedir um empréstimo de 25 florins a um ricaço que, logo depois, dá com o
devedor a atacar uma bela maionaise de salmão. O ricaço indigna-se e o pobre
inteligente responde que não percebe: se não tem dinheiro, não pode comer
maionaise de salmão. Se tem dinheiro, também não pode comer maionaise de
salmão. Pergunta de seguida, com tanto desespero como lógica: "Quando
então é que posso comer maionaise de salmão"? (…) A caridade que por aí
anda parece-se mais com compras e consumismo: dá-se dinheiro para obter o
prazer dos resultados que se desejam. Quase nunca se dá a única coisa boa que
se pode dar: a liberdade de gastar o dinheiro como se quer, que é um direito de
que ninguém com um mínimo de dinheiro prescinde. Mandar nos outros (ou, pior
ainda, querer mandar nos outros) é uma barata sobranceria. (…)» Miguel Esteves
Cardoso.

