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Infografia realizada pelo Expresso com base na investigação de
"Os burgueses"
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«Há precisamente um ano, numa
entrevista, referindo-se às suas férias de Verão, na Herdade da Comporta, dizia
Cristina Espírito Santo premonitoriamente: "É como brincar aos
pobrezinhos." Não vai, certamente, ficar "pobrezinha", mas a
família levou o Grupo Espírito Santo à falência. Os pedidos judiciais de
protecção contra credores servem apenas para realizar um funeral ordenado, em
vez do vasto conjunto de empresas do grupo ser atirado para a vala comum.
Quanto ao BES ainda está por saber qual a dimensão da exposição ao poço sem
fundo em que o Grupo se transformou. Daí dependendo se será ou não engolido
nesta voragem.
A falência do Grupo Espírito
Santo, cujos interesses se espalham por múltiplos sectores de actividade
económica e financeira, desde a saúde ao turismo, do imobiliário aos diamantes,
da construção civil às obras públicas, levanta a dúvida sobre a sacrossanta
tese neoliberal, segundo a qual "os privados estão mais vocacionados e são
mais competentes para gerir as empresas do que o Estado". Esta tese, que
parece ter pés de barro, tem levado à última sanha de privatizações, muitas
vezes de empresas do Estado que apresentavam lucros, como os CTT ou a ANA. Até
a Caixa Geral de Depósitos esteve nesta lista de património público a passar
para as mãos da "iniciativa privada".
Nem sequer o argumento segundo o
qual a gestão das empresas nacionalizadas fica nas mãos dos "amigos
políticos" do partido que está no governo, incompetentes para o desempenho
do cargo e quase sempre permeáveis a uma gestão "de amiguismo e
governamentalizada" – o que tem sido, em regra, verdade – serve para
sustentar o "direito natural" de boa gestão dos privados. O que
conhecemos é suficiente para perceber a "rede de amiguismo" que
sustentou a decisão da administração da PT, uma empresa privada, em comprar
quase 900 milhões de euros de "papel comercial" do Grupo Espírito
Santo, três meses antes da falência, sabendo os responsáveis que estavam a
atirar aquele dinheiro para uma fogueira.
Responderão os aficionados
neoliberais: as decisões das empresas privadas não prejudicam o Estado, nem os
contribuintes, mas apenas os accionistas. Este argumento é, pelos vistos,
falacioso, sobretudo depois das consequências da presente crise europeia.
Grande parte deste nosso mundo empresarial privado "abastece-se" nos
depósitos do Estado, com o dinheiro dos contribuintes, seja nas rendas pagas às
empresas de energia, seja nas PPP, seja nos contratos swap e em muitas outras
formas de sugar o erário público. As consequências para os contribuintes da gigantesca
fraude da "gestão privada" do BPN é o exemplo mais dramático que caiu
em cima dos portugueses, mas não é o único.
No emaranhado deste
"maravilhoso mundo novo" ainda sobram para os contribuintes as
fraudes fiscais e os branqueamentos de capitais, os milhões e milhões de euros
que se escapam aos impostos através de "malas cheias de dinheiro entregues
no balcão do cambista Zé das Medalhas". Ou em qualquer uma offshore no
Panamá. Afinal, o que está à vista é que esta obsessão ideológica pela redução
do papel do Estado esconde, sob diversas formas, um tenebroso mundo de
favorecimento e enriquecimento de uns quantos à custa do empobrecimento da
maioria dos portugueses. O que se está a passar deveria servir para lançar uma
discussão pública sobre as intenções deste ou de outro governo em privatizar o
que ainda resta na saúde, na educação, na segurança social e no sistema de
reformas. Se não atalharmos este caminho, se deixarmos que o Estado se demita
das suas funções sociais, a maioria será cada vez mais pobre e a uma dúzia de
famílias cada vez mais ricas. E não é por serem capazes de gerir melhor as
empresas do que o Estado. É apenas porque beneficiam de uma protecção do Estado
vedada ao resto dos cidadãos.» – Tomás Vasques, no I.

