
«“Temos de os matar – não só os
militantes do Hamas, mas toda a população de Gaza!" É o que diz a um
correspondente do Guardian um soldado israelita de 22 anos no funeral de um
camarada seu, um dos 18 soldados israelitas mortos na enésima invasão de Gaza,
um miúdo de 20 anos que fazia o serviço militar obrigatório. "Não temos
escolha: se não lutarmos até ao fim, eles matam-nos." Nas ruas de
Jerusalém todos se dizem contra um cessar-fogo: querem que se “dê cabo do
Hamas. E isso leva tempo”. Perguntados pelas centenas de palestinianos mortos
(até ontem de manhã eram mais de 600, o equivalente aos passageiros de dois
aviões iguais ao da Malaysia Airlines abatido na Ucrânia), 80% dos quais civis,
segundo a ONU, 20% crianças. A lengalenga sinistra é a mesma de sempre: “Muita
gente foi morta porque o Hamas usa escudos humanos. Os palestinianos não têm
respeito pela vida, nós é que temos.” De descrições de inimigos fanatizados e
sem apego à vida está a História cheia: os americanos achavam o mesmo dos
vietnamitas, era o que os nazis diziam de soviéticos e jugoslavos na II Guerra
Mundial... Como explica uma porta-voz da B'Tselem (uma ONG israelita de
direitos humanos), “os israelitas não negam que [os palestinianos] morram;
simplesmente fazem um raciocínio que os culpa pela sua própria morte”. E
queixam-se de que os media “mostram imagens de crianças mortas sem explicar o
contexto do conflito” (Guardian, 20 e 21.7.2014).
Pois é, o contexto... A Aministia
Internacional (AI) tem repetido que é precisamente o inverso que se passa: nas
sucessivas operações punitivas sobre Gaza, “soldados israelitas utilizaram
civis palestinianos, crianças incluídas, como escudos humanos durante as
operações militares”. Foi o que aconteceu na operação Chumbo Fundido (22 dias
entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009): cerca de 1400 palestinianos mortos,
“incluídas pelo menos 330 crianças” Cinco anos depois (e, pelo meio, outra
operação, em 2012, que matou mais 160 palestinianos), tudo se repete: Israel,
ainda que incomparavelmente menos pressionado que qualquer outro ator
internacional, martela a opinião pública com esta propaganda de que, se há
mortos, a culpa é da forma perversa como os seus adversários fazem a guerra –
mas quando a poeira assentou em 2009, o que as organizações independentes (a
AI, as agências da ONU) comprovaram é que o Exército israelita atacou “15 dos
27 hospitais de Gaza”, “uma trintena de ambulâncias”, “matou 16 membros do
pessoal médico”. Ao contrário do que dizia a propaganda israelita, “a AI não
encontrou indício algum de que os combatentes do Hamas ou doutros grupos
armados tenham utilizado os hospitais para se esconder ou para conduzir
ataques, e as autoridades israelitas não forneceram provas dessas alegações”.
Pelo contrário: “impediram deliberadamente a ajuda humanitária e as equipas de
socorro [da Agência das Nações Unidas para os Refugiados e da Cruz Vermelha] de
entrar em Gaza, ou obstaculizaram a sua circulação, atacaram veículos, centros
de distribuição e pessoal médico.” (AI, Relatório Anual 2010)
Por tudo isto é verdadeiramente
patética a discussão sobre se é “desproporcionada” a reação israelita aos
rockets lançados a partir de Gaza. Desproporcionada, não; ela é um crime
internacional, feito enquanto o resto do mundo olha para os restos do avião
Malysia Airlines! Invoca Obama o direito de Israel a defender-se, como se Gaza
fosse um país independente que agride outro país independente. Não: é Israel
que desde há 47 anos ocupa Gaza (e a Cisjordânia, e Jerusalém Oriental)
ilegalmente, e a bloqueia por terra, ar e mar (nenhum barco se pode aproximar
da costa, nenhum avião pode aterrar sem autorização militar israelita) desde
2007, controlando todos os seus acessos (salvo Rafah, no qual tem a colaboração
do Egito). A retirada militar israelita em 2005 não alterou em nada o estatuto
de território ocupado. Em apenas 360 km2 (o tamanho do concelho de Sintra)
vivem 1,8 milhões de pessoas, 43% delas menores de 14 anos, 80% dependendo de
ajuda humanitária por causa do desemprego, da pobreza extrema. Para a AI, “a
amplitude do bloqueio e as declarações dos responsáveis israelitas sobre os
seus objetivos demonstram que esta medida é uma forma de castigo coletivo
infligido à população de Gaza, em violação flagrante do Direito Internacional.”
De todo o quadro de ilegalidades
cometidas por Israel que a UE e os EUA toleram, o bloqueio a Gaza supera tudo.
Nada há neste planeta mais próximo de um gueto (o mundo deveria pensar a que é
que isto soa...) no qual se fecham, até à exasperação total, quase dois milhões
de pessoas. Os israelitas – e esta coisa
a que cinicamente se chama comunidade internacional – comportam-se como se eles
fossem todos “terroristas” do Hamas. Os
media (veja-se o Huffington Post, 13.7.2014) mostram moradores das colinas
próximas de Gaza sentados em cadeiras de praia a aplaudir o espetáculo dos
aviões e drones que bombardeiam Gaza. Trazem pipocas, fumam cachimbos de água –
enquanto a poucos quilómetros de distância famílias inteiras ficam soterradas
debaixo dos escombros, crianças são levadas em desespero para hospitais
bombardeados, onde se operam feridos num corredor... “Os palestinianos não têm
respeito pela vida!”» - Manuel Loff, no Público.