![]() |
O pôr-do-sol num paraíso fiscal
|
«Existe uma espécie de omertá
entre os poderosos do país - que, todos juntos, não enchem uma casa da Quinta
da Marinha -, que permitiu que o escândalo BES fosse abafado quase até ao
momento do estertor final. Foi a mesma omertá que fez com que o BPN se aguentasse
tanto tempo de pé, com o patrocínio de muitos poderosos do país, e muito depois
de as irregularidades no banco de Dias Loureiro terem vindo a público.
As elites portuguesas não primam
pela "ética republicana" e habituaram-se a conviver com uma fórmula
que o Exército dos Estados Unidos usava para lidar com os homossexuais:
"Don't ask, don't tell." Irregularidades? Negócios suspeitos?
Favorecimento de amigos? Tráfico de influências? Não perguntem, não contem.
Esta maneira de viver tem consolado todos os comensais e permitido a cada um
recolher, à vez, as respectivas fatias do bolo disponível - irmãmente, como se
dizia dantes.
Foi este regime apodrecido que
permitiu que o devotamente chamado "único banqueiro" do país - e hoje
tratado como cão pelos que o incensavam - chegasse onde chegou, com o risco
enorme de arrastar meio país consigo. O BPN não era um banco sistémico, o BES,
pertença do Grupo Espírito Santo, é um banco sistémico. Dito de outra maneira:
é como se fosse o nosso Lehman Brothers. E neste momento não se sabe o fim da
história.
A ideia de que o Banco de
Portugal teve um comportamento exemplar - ao contrário do que se tinha passado
com o anterior governador, Vítor Constâncio, relativamente ao BPN - é uma
teoria que resiste tão bem aos testes de stresse como resistiu o BES durante
estes anos de avaliações europeias. Em Fevereiro de 2013 - há quase ano e meio
-, depois de o i noticiar o esquecimento de 8,5 milhões na
declaração de impostos de Ricardo Salgado, o Banco de Portugal trata de produzir
um raro comunicado em que declara toda a sua confiança em Ricardo Salgado. Sim ,
o Banco de Portugal tinha pedido "explicações", mas depois disso
ficou muito satisfeito. Naquela peça não tão antiga assim, o governador afiança
que "as informações recolhidas pelo banco não fundamentam as suspeitas
lançadas pela comunicação social". Enquanto o poder de Ricardo Salgado
parecia imutável, o Banco de Portugal preferiu lançar as culpas para o
mensageiro. Não foi o único: este é o modo de actuar da elite portuguesa, que
só se distancia dos seus quando estão mortos. O BES é o regime, a crise do BES
é a crise do regime.» – Ana Sá Lopes, no I.

