Passos Coelho andou a convidar os
nossos jovens a emigrar. Agora diz estar muito
preocupado com a natalidade e promete pôr toda a gente a procriar. Como? Quem
não tem emprego evita ter filhos. Teria lógica que fosse aumentando as
protecções sociais no desemprego. Quem não tem dinheiro, idem. Impunha-se uma
actualização do salário mínimo e a aprovação de legislação que obrigasse as
empresas a indexar as actualizações salariais aos lucros e ao salário das suas
administrações. Quem vive um quotidiano de incerteza, a menos que ou tome umas
coisas ou seja atrasado mental, em princípio também evita ter filhos. Haveria
que combater a precariedade e legislar no sentido de minimizar a insegurança no
trabalho. Quem vê escolas e centros de saúde a serem diariamente encerrados
pensa três vezes antes de decidir ter um filho. Haveria que inverter este
cenário.
É óbvio que os
"peritos" a quem Passos Coelho encomendou o pacote de medidas que
hoje apresentou não podiam defender nada disto. O Governo andou três anos a
fazer o país caminhar no sentido contrário, mandavam-nos procriar logo a seguir. Restou-lhes
fazer de conta que o desemprego jovem não ronda os 40%, que o trabalho
temporário e os falsos recibos verdes
não deixaram de ser a excepção para passarem a ser a regra, que os
despedimentos nunca foram tão fáceis e tão baratos, que os jovens auferem
rendimentos suficientes para pagarem impostos, que a compra de carro novo é
factor que influencia a decisão de ser pai ou mãe da grande maioria.
Por tudo isto, a natalidade
de Passos Coelho aumenta reduzindo o IRS a uma faixa etária que está isenta
ou por desemprego ou por receber salários muito baixos, por reduzir o ISV a
quem nem sequer em sonhos consegue ter carro próprio, por prolongar a licença
de paternidade e maternidade a quem nunca teve e não tem perspectivas de alguma
vez vir a ter um contrato de trabalho. Está-se mesmo a ver que natalidade NÃO
vamos ter. Nunca mais vamos ter. O actual Governo conseguiu superar todos os anteriores
no objectivo de enriquecer uma minoria empobrecendo toda a restante maioria. Um
quarto da riqueza de Portugal está nas mãos de 1% da população. Dos Salgados donos disto tudo,
dos Belmiros donos disto tudo, dos Amorins donos disto tudo. Passos Coelho que se deixe de contos. Ou temos ricos,
ou temos filhos. A natalidade desapareceu para ali.

