O génio anónimo que no princípio
dos tempos inventou o primeiro sistema de rega de certeza que não recebeu
nenhum prémio. E seria inteiramente merecido. Não apenas pelo invento em si.
Por ter mostrado à humanidade que não tem que se submeter aos caprichos da
natureza. Por ter demonstrado ao Homem que, ao contrário de todos os
animaizinhos que se limitam a ficar à espera do que a vida lhes dá, o Homem é
dotado de inteligência suficiente para esperar muito mais da vida se se rebelar
contra as avarezas do destino.
Graças ao seu invento, os povos
que não dispunham da força bruta necessária para conquistar as melhores terras,
aquelas que não necessitavam de rega, passaram a viver tão bem como aqueles
outros que dispunham da força necessária para manter a sua posse. E deixaram de
ter que lhes obedecer, de lhes mendigar o pão, de ter que aceitar a repartição
de riqueza que aqueles podiam impor pela força. Ou pela coacção dos deuses todo-poderosos
na determinação do destino de cada um, que os senhores do mundo sempre tiveram
à mão para os auxiliar na dominação através da ideia de que de nada serve
tentar lutar contra um devir supra-determinado. Mas adiante, não quero
perder-me. Vou saltar esta parte.
Prefiro observar que a explicação
para a inexistência do prémio passa, em primeiro lugar, por naqueles tempos
primitivos o único prémio ser a sobrevivência. Para além disso, mesmo que outros
prémios já tivessem sido inventados, o espírito humano estava ainda em estado bruto.
A sensibilidade para as injustiças do mundo, aquela luzinha que quando se
acende no espírito humano nunca mais deixa o seu hospedeiro indiferente ao que
se passa à sua volta, apenas apareceu muito depois. A arte de acendê-la também.
E o interesse em calar essa arte e em manter apagado o espírito do maior número
possível de brutos também. A Inquisição encarregou-se de vedar o mundo a novas
ideias ao longo de séculos. E não há uma única ditadura que abdique de ter uma
máquina de repressão que assegure o serviço. Os poderosos sempre olharam para a
arte como uma ameaça ao seu poder. O mundo sempre avançou ou recuou em função do
resultado deste duelo entre os que o querem melhor e mais justo e os que apenas
o querem seu e só seu.
Ainda hoje é assim, embora em
democracias formais como a nossa os métodos utilizados sejam bastante mais
sofisticados. Não é à toa que se convidam artistas pimba e não outros para os
programas de entretenimento das televisões. Não é por acaso que certos
comentadores têm sempre lugar nos programas de opinião e outros apenas aparecemesporadicamente ou não aparecem de todo. Não é casualidade que certos artistas de talento duvidoso tenham
sempre financiamentos garantidos e outros, apesar da qualidade do seu trabalho,
nunca vejam ou deixem de ver um cêntimo sequer. A máquina do poder não anda a
dormir. Porém, nem toda a sofisticação do mundo lhe chega para passar sempre
despercebida.
Por vezes o poder expõe-se ao seu
poder de calar. Aconteceu na semana passada, a homenagem a uma filha de uma
família poderosa que não houve como evitar resultou na exposição pública do
facto consumado da obra artística daquela a quem as suas origens não impediram
de acender luzinhas em muitos espíritos ter sido suprimida dos
programas curriculares de português do ensino secundário.
Também às vezes, lá acontece que
uma organização internacional que não deve obediência aos poderes cá do
rectângulo decide distinguir um artista daqueles que os silenciadores do regime
tanto se esforçam para retirar de cena. Aconteceu com José Saramago,
distinguido com o Nobel da Literatura em
1998, a cujo funeral Cavaco Silva fez questão de não estar presente, e
aconteceu também na semana que ontem terminou com o Grammy atribuído a Carlos do Carmo, para não
variar novamente sem os parabéns da praxe do senhor Presidente. Não admira. O
inquilino de Belém diz-se que já
trabalhava para a causa dos brutos antes do 25 de Abril). Ele próprio é um
bruto, uma vez não lhe chegou para aprender que as suas macacadas apenas o expõem
como um palonço que não percebe a diferença entre o Aníbal embrutecido que é e o
Presidente da República que nunca soube ser. Há-os assim. . Este já não aprende.
Nota: não disponho de elementos que garantam a autenticidade do documento da imagem que ilustra este post, embora já circule há tempo suficiente para ter merecido o respectivo desmentido.
Nota: não disponho de elementos que garantam a autenticidade do documento da imagem que ilustra este post, embora já circule há tempo suficiente para ter merecido o respectivo desmentido.

