A Itália assumiu a presidência rotativa da União Europeia na passada Quarta-feira. No discurso que proferiu no Parlamento Europeu, o Primeiro-ministro italiano Matteo Renzi quis marcar a diferença lembrando que o Pacto de Estabilidade também é de Crescimento e constatando que a própria Alemanha tem entrado em incumprimento sempre que necessitou,, que foi a primeira a fazê-lo em 2003 e que foi graças a isso que conseguiu crescer. Bravo
Ora, já sabemos como são os
alemães, a subserviência dos restantes países da União Europeia encarregou-se
de convencê-los que são os donos da Europa, a resposta a tal atrevimento não
poderia tardar muito. Chegou na Sexta-feira, pela boca do presidente do banco
central alemão, que disse à imprensa italiana um "basta de propaganda, mais
dívida não garante crescimento". A propaganda da austeridade é feita
destas frases lapidares e os alemães gostam de dar lições de moral aos seus
súbditos. Jens Weidmann aproveitou para dizer que "Matteo Renzi considera
que a fotografia da Europa é aborrecida e que Renzi acha que sabe aquilo que
devemos fazer", para logo acrescentar que "as reformas não podem ser
apenas anunciadas, mas também concretizadas". A farpa dirigia-se às reformas
ao sistema político e da justiça, que Renzi tem tentado levar a cabo em Itália.
O Governo de Itália ainda tardou
menos a responder. A primeira reacção foi curta: "Se o banco central da
Alemanha pensa causar-nos medo, talvez se tenha enganado no país. Seguramente
enganou-se no Governo". Completou-a Matteo Renzi numa conferência de
imprensa onde também estava presente esse cidadão honorário alemão que dá pelo
nome de José Manuel Durão Barroso. O italiano começou por garantir não existir
"nenhum problema no relacionamento com Berlim", assumindo preferir
"não comentar as declarações do presidente do banco central da
Alemanha" porque se trata de uma "instituição independente", mas
não deixou de assinalar que "o papel do Bundesbank é o de assegurar o seu
próprio objectivo estatutário, não o de participar no debate político
italiano". Bravo. E ainda mais algumas para o aplauso: "Em relação ao
trabalho do banco central da Alemanha, quando houver a vontade de conversar
connosco será bem-vindo, partindo do pressuposto de que a Europa pertence aos
cidadãos e não aos banqueiros alemães ou italianos". Bravo, bravíssimo.
Tradução possível: "se vocês
pensam que estão a lidar com um Governo como o de José Sócrates ou o de Pedro
Passos Coelho, que sempre vos disseram sim a tudo sem a mínima objecção,
desenganem-se". Tradução errada, porém. A reforma laboral que Matteo Renzi
já conseguiu fazer aprovar não deixa margens para dúvidas. Renzi pertence
àquela direita canhota que combate o desemprego fomentando o trabalho
temporário e facilitando despedimentos. A reforma da Administração Pública
italiana que defende conduz à mesma conclusão. Renzi pertence àquela esquerda
destra que aumenta a produtividade do sector público desmantelando carreiras e
impondo mobilidades geográficas de mais de cem quilómetros aos funcionários
públicos italianos.
A tradução mais plausível será,
portanto, "tratem de não nos humilhar publicamente que nós faremos tudo o
que vocês e os nossos amigos da finança também querem que façamos". Se é
espectáculo o que querem os italianos e os
europeus, se espectáculo
lhes basta, se é espectáculo o que os acalma, será espectáculo o que irão
continuar a ter. A receita é muito antiga. O burro come palha, a questão é saber
dar-lha.

