sábado, 5 de julho de 2014

Bravo, bravíssimo



A Itália assumiu a presidência rotativa da União Europeia na passada Quarta-feira. No discurso que proferiu no Parlamento Europeu, o Primeiro-ministro italiano Matteo Renzi quis marcar a diferença lembrando que o Pacto de Estabilidade também é de Crescimento e constatando que a própria Alemanha tem entrado em incumprimento sempre que necessitou,, que foi a primeira a fazê-lo em 2003 e que foi graças a isso que conseguiu crescer. Bravo

Ora, já sabemos como são os alemães, a subserviência dos restantes países da União Europeia encarregou-se de convencê-los que são os donos da Europa, a resposta a tal atrevimento não poderia tardar muito. Chegou na Sexta-feira, pela boca do presidente do banco central alemão, que disse à imprensa italiana um "basta de propaganda, mais dívida não garante crescimento". A propaganda da austeridade é feita destas frases lapidares e os alemães gostam de dar lições de moral aos seus súbditos. Jens Weidmann aproveitou para dizer que "Matteo Renzi considera que a fotografia da Europa é aborrecida e que Renzi acha que sabe aquilo que devemos fazer", para logo acrescentar que "as reformas não podem ser apenas anunciadas, mas também concretizadas". A farpa dirigia-se às reformas ao sistema político e da justiça, que Renzi tem tentado levar a cabo em Itália.

O Governo de Itália ainda tardou menos a responder. A primeira reacção foi curta: "Se o banco central da Alemanha pensa causar-nos medo, talvez se tenha enganado no país. Seguramente enganou-se no Governo". Completou-a Matteo Renzi numa conferência de imprensa onde também estava presente esse cidadão honorário alemão que dá pelo nome de José Manuel Durão Barroso. O italiano começou por garantir não existir "nenhum problema no relacionamento com Berlim", assumindo preferir "não comentar as declarações do presidente do banco central da Alemanha" porque se trata de uma "instituição independente", mas não deixou de assinalar que "o papel do Bundesbank é o de assegurar o seu próprio objectivo estatutário, não o de participar no debate político italiano". Bravo. E ainda mais algumas para o aplauso: "Em relação ao trabalho do banco central da Alemanha, quando houver a vontade de conversar connosco será bem-vindo, partindo do pressuposto de que a Europa pertence aos cidadãos e não aos banqueiros alemães ou italianos". Bravo, bravíssimo.

Tradução possível: "se vocês pensam que estão a lidar com um Governo como o de José Sócrates ou o de Pedro Passos Coelho, que sempre vos disseram sim a tudo sem a mínima objecção, desenganem-se". Tradução errada, porém. A reforma laboral que Matteo Renzi já conseguiu fazer aprovar não deixa margens para dúvidas. Renzi pertence àquela direita canhota que combate o desemprego fomentando o trabalho temporário e facilitando despedimentos. A reforma da Administração Pública italiana que defende conduz à mesma conclusão. Renzi pertence àquela esquerda destra que aumenta a produtividade do sector público desmantelando carreiras e impondo mobilidades geográficas de mais de cem quilómetros aos funcionários públicos italianos.

A tradução mais plausível será, portanto, "tratem de não nos humilhar publicamente que nós faremos tudo o que vocês e os nossos amigos da finança também querem que façamos". Se é espectáculo o que querem os italianos e os europeus, se espectáculo lhes basta, se é espectáculo o que os acalma, será espectáculo o que irão continuar a ter. A receita é muito antiga. O burro come palha, a questão é saber dar-lha.