Futilidade, alheamento, défice de cidadania, as coisas de gente que
faltam à nossa gente. Um destes dias, logo pela manhã, numa mesa de café ao lado da
minha, duas comadres conversavam sobre a vida. A minha atenção centrou-se nelas
quando a primeira começou a comentar com inveja a boa vida e o palácio de
alguém que enriqueceu do nada apenas por se ter tornado testa de ferro de um
figurão envolvido em negócios escuros. A mesma atenção desviou-se delas depois
da segunda comentar com a mesma inveja boçal – “quem me dera, ia logo “ – ter
ouvido falar que há para aí quem pague férias em paraísos fiscais ao felizardo
que se disponha a retribuir levando somas de dinheiro a depositar no destino.
Pelo meio, o mesmo “quem me dera” aplicado ao Iphone do esperto que enriqueceu
do nada, o sonho partilhado por ambas na urgência da sua satisfação, “aquilo é
tão fixe que até dá para tirar uma foto e publicá-la no facebook no segundo a
seguir”. Voltei a encontrar as duas comadres nos dois retratos que abaixo
republico. Leiam com atenção. Pode ser que também encontrem alguém conhecido.

«Olá. Se calhar ainda não me
conheces, mas eu sei que queres saber o que é que eu acabei de comer. Foi
isto.
Já viste? Por favor vê. É importante. Está
aqui.
Já viste? Se não vires
aqui,
também podes ver em todas as redes sociais, onde as coisas que eu transformo em
cocó vivem eternamente na nuvem virtual, mesmo depois do pártenon ruir e da
humanidade se extinguir. O meu softcake gourmet é agora imortal.
Se não sabes quem eu sou, não
sabes o que estás a perder. Eu sou o filho da puta mais moderno que o mundo
pós-moderno já pariu: pontuo as minhas frases com anglicismos como o Duarte
Marques pontua as dele com vírgulas; Estás a falar comigo e eu de repente
chuto-te com um overthinking, ou um awkward, ou um overrated e tu ficas a
pensar “wow… este gajo é mesmo modernaço!”. É isso mesmo. Eu estou para a
humanidade como o estrangeirismo para a língua e para a atualidade como o
Rococó para o Barroco. Eu sou o Barroco moderno e cocaínado. Eu não como
queques, como cupcakes. Eu sou o yuppie português. Eu sou mais que barroco, sou
bacoco.
O que é um yuppie? Yuppie =
winner + vaidoso² + ¼ hipster × pequeno-burguês ÷ alienado. Sou meio homem,
meio marketing, meio business plan e a minha vida é uma miséria com um filtro
de instagram. Vivo para mostrar ao mundo como sou feliz e bonito e
interessante. Sou uma puta de likes e preciso de mostrar-me perfeito como um
produto publicitário de uma revista de moda, como um modelo de mim próprio.
Como o meu próprio Deus. Porque eu adoro quem eu sou e adoro tudo sobre mim.
Porque eu sou o centro do meu mundo. Mas olha, não penses que sou egoísta. De
vez em quando até ofereço um portátil a uma criança africana ou expresso a
minha ideologia na loja do comércio justo.
Às vezes, quando leio um post
sobre a perseguição dos homossexuais no Chade, até me passo e digo “que se foda
o sistema”. Mas que não se foda muito. Só um bocadinho. De uma forma não
ameaçadora e muito non-violent, ok? Só o suficiente para partilhar um vídeo de
uma gaja que viveu um ano sem dinheiro para nos absolver dos pecados colectivos
do consumismo. Era isso que eu também queria fazer se não fosse um monte de
merda sem coragem: fugir da sociedade e viver só com bichos, porque os humanos
são todos uma merda. Todos menos eu.
Na verdade, o meu objetivo na
vida até é mudar o mundo. Através do design. E para mim, design é comprar
merdas no IKEA, chamar vintage à mobília do lixo e um look clean a paredes
brancas. Eu sou o apóstolo português do Mark Zuckerberg e o Steve Jobs reencarnado
no corpo de um analfabeto licenciado. Eu sei que o problema deste país é a
estupidez. A estupidez em geral, a dos outros, a estupidez do povo que não sabe
o que é o gmail. É por isso que o país está como está! Porque a referência
ainda é o Salgueiro Maia e não o Kim Dotcom.
Mas não é a política que faz
bater o meu i-coraçãozinho imbecil. Eu quero lá saber se os correios são
privatizados ou se o novo código do laboral passa. Eu voto PAN ou Marinho
Pinto. Eu era o gajo que cantava “
Jota
Pimenta forever”, o primeiro na fila para a exposição do mundo português e
o tipo que o Buiça teve que empurrar da frente para matar o rei.
Não importa que pronuncie uáda
fáque e tevisão: Eu tenho um mestrado em business solutions numa privada, onde
aprendi a efectuar em vez de fazer, a visualizar em vez de ver, a capacitar em
vez de preparar, a recalibrar em vez de mudar e a repetir em vez de pensar.
Quando escrevo, não páro até ter arranjado forma de usar as palavras
“stakeholders”, “dinâmica” “globalizado”, “exportações” e “flexível” porque eu
sou um winner, compreendes?! Cresci com os meus pais a dizerem-me que podia ser
qualquer coisa e prometeram-me a vida toda que sou especial. E malgrado a minha
ambição seja um tipo particular de demência, estou sempre a esbarrar com esta
sociedade demasiado estúpida para me apreciar. Não faz mal, o facebook não
precisa de saber: Eu sou a personagem principal de um romance incrível, narrado
com voz de robô, em que eu estou sempre ao pé de uma piscina, com o meu fato de
casamento e óculos escuros à patrão.
Eu sei o que estás a pensar:
“Este gajo é o maior”. Mas não sou o maior, amigo. Sou awesome. Que em inglês
bimbo quer dizer que sou o glacê sem o bolo e o deslumbramento pelo novo; uma
máquina de comprar coisas e consumir atenções, um embrulho enorme com uma
pastilha gorila lá dentro. Eu sou o yuppie português.» –
António Santos, no
Manifesto
74.

«Portugal poderia ter sido um
território fértil para Agatha Christie. O seu detective, Hercule Poirot, teria
aqui encontrado culpados para todos os gostos. Seja Paulo Bento, o Tribunal
Constitucional, José Sócrates, a Constituição, Passos Coelho, Paulo Portas,
Ricardo Salgado, a troika, o FMI e Bruxelas. Ou o árbitro. Os culpados são
sempre os outros. Porque a culpa, em Portugal, morre sempre solteira. É um
milagre exclusivamente nacional: ignora-se e esquece-se. Arquiva-se. A culpa
deveria servir para se tirarem lições dos erros. Mas aqui encena-se a análise
do que falhou e repetem-se as mesmas fórmulas na próxima oportunidade. (…) O
historiador Tacitus, descrevendo os romanos, disse um dia: "Eles criaram
uma terra desertificada e deram-lhe o nome de paz". É essa paz que está a
desfazer este regime.» – Fernando Sobral, no Negócios, via
Joana
Lopes.