A Europa das palavras. Martin
Schulz acaba de ser reeleito presidente do Parlamento Europeu. No discurso de
agradecimento, em Estrasburgo, Schulz afirmou que “tem de haver na Europa a solidariedade
que tanto apreciamos no parlamento. As pessoas têm de ter a ideia de que a
União Europeia está lá para as proteger” independentemente das suas escolhas de
vida. “Só podemos construir a democracia com base no respeito pela dignidade
humana e é com base nisto que temos de trabalhar em termos de política
internacional”, concluiu.
A Europa dos actos. Na 26ª
reunião do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, que
decorreu na semana passada em Genebra, foi aprovada
uma resolução que cria um Grupo de Trabalho para elaborar uma proposta de
instrumento legal que obrigue as multinacionais e outras empresas a respeitarem
os direitos humanos. Conhecendo a impunidade com que muitas das grandes
empresas actuam face aos trabalhadores e aos recursos naturais das regiões mais
frágeis e desprotegidas do globo e sabendo como a concorrência entre produções
obtidas na presença e na ausência de direitos laborais elementares e de
restrições ambientais mínimas vai, por um lado, dando argumentos aos Governos
europeus para abolirem cada vez mais direitos laborais e sociais e, por outro,
convidando as empresas a deslocalizarem as suas produções para esses paraísos
do enriquecimento criminoso e a deixarem multidões de desempregados atrás de
si, competiria a uma Europa que se apregoa defensora universal dos direitos e
guardiã incondicional da concorrência mais leal apoiar esta iniciativa.
Porém, não foi o que aconteceu.
Mais uma vez, a voz dos mercados falou mais alto e a UE encorajou os seus
membros a oporem-se. Áustria, República Checa, Estónia, França, Irlanda,
Itália, Roménia e Reino Unido (os Estados-Membros da UE que pertencem a este
Conselho) todos votaram contra. Mas a resolução foi aprovada, com 20 votos a
favor, 14 contra e 13 abstenções. Cabe agora aos eurodeputados que elegemos
para nos representarem no PE a exigência das explicações que estes amigos das
grandes multinacionais ficaram a dever a todos os europeus. E fica também o agradecimento
devido ao esquerda.net
e ao Renato
Soeiro pela divulgação de mais um exemplo de como a Europa das palavras tem
sempre muito mais visibilidade do que a Europa dos actos na comunicação social
dos donos desta Europa que já foi dos cidadãos.


