terça-feira, 1 de julho de 2014

O discurso e a prática: duas Europas de sinal contrário


A Europa das palavras. Martin Schulz acaba de ser reeleito presidente do Parlamento Europeu. No discurso de agradecimento, em Estrasburgo, Schulz afirmou que “tem de haver na Europa a solidariedade que tanto apreciamos no parlamento. As pessoas têm de ter a ideia de que a União Europeia está lá para as proteger” independentemente das suas escolhas de vida. “Só podemos construir a democracia com base no respeito pela dignidade humana e é com base nisto que temos de trabalhar em termos de política internacional”, concluiu.

A Europa dos actos. Na 26ª reunião do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, que decorreu na semana passada em Genebra, foi aprovada uma resolução que cria um Grupo de Trabalho para elaborar uma proposta de instrumento legal que obrigue as multinacionais e outras empresas a respeitarem os direitos humanos. Conhecendo a impunidade com que muitas das grandes empresas actuam face aos trabalhadores e aos recursos naturais das regiões mais frágeis e desprotegidas do globo e sabendo como a concorrência entre produções obtidas na presença e na ausência de direitos laborais elementares e de restrições ambientais mínimas vai, por um lado, dando argumentos aos Governos europeus para abolirem cada vez mais direitos laborais e sociais e, por outro, convidando as empresas a deslocalizarem as suas produções para esses paraísos do enriquecimento criminoso e a deixarem multidões de desempregados atrás de si, competiria a uma Europa que se apregoa defensora universal dos direitos e guardiã incondicional da concorrência mais leal apoiar esta iniciativa.

Porém, não foi o que aconteceu. Mais uma vez, a voz dos mercados falou mais alto e a UE encorajou os seus membros a oporem-se. Áustria, República Checa, Estónia, França, Irlanda, Itália, Roménia e Reino Unido (os Estados-Membros da UE que pertencem a este Conselho) todos votaram contra. Mas a resolução foi aprovada, com 20 votos a favor, 14 contra e 13 abstenções. Cabe agora aos eurodeputados que elegemos para nos representarem no PE a exigência das explicações que estes amigos das grandes multinacionais ficaram a dever a todos os europeus. E fica também o agradecimento devido ao esquerda.net e ao Renato Soeiro pela divulgação de mais um exemplo de como a Europa das palavras tem sempre muito mais visibilidade do que a Europa dos actos na comunicação social dos donos desta Europa que já foi dos cidadãos.

* * * * * Notícia CHOQUE * * * * *



"Instabilidade do BES contagia juros da dívida pública", É a grande manchete do Público desta manhã. Como se comportaram os juros dos outros países da periferia europeia? Para evitar as manipulações da opinião pública com que a imprensa económica se associou ao Governo e à troika nos três últimos anos de  esbulho aos portugueses, a notícia deveria responder à pergunta e não o faz.... mas também não tem mal. O "contágio", lê-se no corpo da notícia, trata-se afinal de uma variação de 0,004% no prazo a 3 anos. A autora do artigo, Cristina Ferreira, devia estar com um "sentimento negativo", como eles tanto gostam de dizer. Podia ter-lhe dado para se lançar na abordagem que evitou, a de como é que tudo o que se está a passar no universo BES está a acontecer sem que por cá se fale sequer em processos crime, inquéritos judiciais, detenções ou congelamentos de bens, que é o que realmente surpreende nisto tudo. Estamos em crise, as "poupanças" são uma explicação mais do que ajuizada. E a família Espírito Santo manda no país há mais de 100 anos e quem se mete com os grandes arrisca o posto de trabalho no curto prazo. Há que saber jogar. No longo prazo, quando a bomba atómica rebentar, toda a gente andará demasiado alterada para se lembrar do bom trabalho de todas as formiguinhas da desinformação.


Vagamente relacionado: título do I “Estaleiros. Governo "não teve alternativa" face a investigação europeia” em vez de “Estaleiros. Governo DIS QUE "não teve alternativa" face a investigação europeia. O BES esteve envolvido na venda ao desbarato dos Estaleiros de Viana do Castelo aos irmãos Martifer, como não poderia deixar de ser. Está sempre presente nos grandes negócios públicos.


Ainda mais vagamente: “Pergunta do milhão de euros: como é possível que um caso com a dimensão do BES só se conheça agora? Como é possível que nós, gente dos jornais e da comunicação social, tenhamos tido ao longo dos anos notícia de tantas pontas soltas – basta ver o número de casos em que o banco esteve envolvido –, mas ninguém tenha sido capaz de unir as várias pontas e perceber aquilo que realmente se estava a passar?” – João Miguel Tavares, também no Público.