A comunicação social quase não
falou no assunto, mas a selecção portuguesa de futebol foi eliminada do mundial
do Brasil. E é uma tragédia nacional. Pessoalmente, ainda estou que nem posso.
Não me conformo com a ideia de deixar de ver directos nos telejornais sobre a
chegada do autocarro da selecção ao hotel. Acompanhava com enorme comoção
patriótica o destino daquelas litradas de azeite e daqueles quintais de
bacalhau que nunca mais vou saber como terminarão. Vou ter que começar a
conviver com a imprevisibilidade de mudar de canal sem saber o que me espera e tanta
incerteza prejudica a minha estabilidade emocional. Ao menos que algum daqueles
especialistas em tudo e mais alguma coisa, os tais que agora dizem de si
próprios serem intelectuais de direita sem medo, se atrevesse a propor para os
jogadores e equipa técnica da selecção a sua receita infalível para fazer aumentar
a produtividade do país. Não que defenda reduções de salários como estratégia
para se conseguir mais do que desequilibrar contas públicas que são função de
uma estrutura fiscal salário-dependente, rebentar com o consumo que sustenta a
grande maioria das nossas empresas, concentrar ainda mais a riqueza e eternizar
o atraso estrutural do país. Ninguém trabalha melhor ou produz mais por receber
menos, pelo contrário., e os jogadores de futebol não são excepção. Mas podia ser
que, se algum destes génios tivesse coragem para tanto, a manada que se
entusiasma com o espectáculo de um autocarro a chegar a um hotel e com os
penteados do Cristiano Ronaldo se desse conta dos disparates debitados por esta
tropa de elite. Não digo que se revoltassem, o 12º jogador comprovadamente é
gado manso. Mas podia ser que, confrontados com o que estão a permitir
acontecer no país que deixarão a filhos e netos , se lembrassem deles na
próxima vez que gritassem “viva Portugal”. “Viva Portugal” não é aquilo. Viva
Portugal é o país que poderíamos ser se não nos contentássemos com sonhos
pequeninos como a conquista de uma porcaria de um mundial de futebol. Ainda por
cima um mundial feito com milhões roubados à Saúde, à Educação, à Habitação do país
sonhado por tantos brasileiros que se organizaram para dizer ao mundo o
significado do “viva o Brasil” que querem que viva, e que não é o Brasil do
futebol. Soubéssemos nós reaprender com eles a sonhar em vez de andarmos sempre
a dizer adeus ao sonho. Teria sido o nosso melhor mundial de todos os tempos. "Não há-de ser nada". Fica para uma próxima. Fica sempre.
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