«Margaret Thatcher tinha um
fetiche, era o sadomonetarismo. O termo foi mesmo cunhado no início dos anos
80, para descrever a obsessão orçamental e monetária da Dama de Ferro, que
tornou o Reino Unido um centro financeiro em troca de mais 2 milhões de desempregados.
Para justificar o fetiche, Thatcher fez o melhor uso do seu conservadorismo
popular. Com ele criou uma imagem à imagem do seu pai, respeitado merceeiro, e
com ela muitas outras. Criou imagens sobre a economia do país a partir de
exemplos da economia doméstica.
Acontece que um país não funciona
nem um bocadinho como a mercearia do Sr. Alfred Roberts. Um exemplo? Para o Sr.
Alfred seria muito útil se o seu fornecedor entrasse num processo de deflação,
uma quebra generalizada nos preços que pratica. Poderia assim baixar os seus
próprios preços, vendendo mais barato (e até com mais lucro) aos clientes da
mercearia Thatcher. Mas se isto funciona para o sr. Alfred, por que não haveria
de funcionar para o resto da economia? Do ponto de vista doméstico,
supermercados, restaurantes, todos têm incentivos para baixar os preços. Do
ponto de vista doméstico, também faz sentido esperar. Empresas adiam
investimentos, famílias adiam consumos maiores, bancos adiam empréstimos, tudo
espera por melhores negócios. Todos adiam aquilo que faz crescer a economia e,
com isso, adiam os impostos que pagam, criando problemas nas contas
públicas.
Para quem está endividado a
situação complica-se ainda mais. Com a queda dos preços na economia, a casa que
servia como garantia ao empréstimo perde valor, e a dívida aumenta em proporção. O mesmo
acontece com todas as dívidas do setor empresarial que tinham ativos como
garantia. Quanto mais endividada a economia, pior. Só há três formas de
compensar o aumento do peso da dívida: vender ativos, o que reforça ainda mais
a queda dos preços; pedir novos empréstimos, o que aumenta a dívida; aumentar a
poupança, o que reduz ainda mais o investimento e o consumo. Todas estas
alternativas criam aquilo a que Keynes chamou uma preferência pela liquidez.
Bancos e grandes empresas preferem guardar dinheiro a gastá-lo. A
correspondente falta de liquidez na economia leva os restantes negócios e
famílias à falência, provocando uma tendência recessiva.
Este processo, iniciado - em teoria
- a partir da economia de mercearia de Thatcher, foi descrito e cunhado por
Irving Fisher num artigo chamado The Debt Deflation Theory of Great Depressions
(1933, Econometrica). É por tudo isto que a deflação é tão ou mais perigosa que
a inflação e, olhando para os dados mais recentes, tanto da zona euro como de
Portugal, temos razões de preocupação. Por toda a Europa a austeridade, o
desemprego e a obsessão exportadora criaram pressões deflacionistas, que se
sentem mais nos países periféricos, onde tudo o resto também é mais forte. Nos
últimos anos, o único dinheiro que entrou na economia foi enterrado nos bancos
em apuros, que o guardaram ou usaram para reciclar maus balanços.
Há quem diga que a deflação é importada, porque o euro está forte. Nada
mais errado. Foram as políticas europeias que fizeram o euro forte, as mesmas
que causam a deflação. Há quem diga que a deflação na periferia faz parte do
processo para reganhar competitividade no euro. Nada mais falso. A não ser que
queiramos atrair capitais para novas bolhas financeiras, o fator preço não
deveria ser determinante para as exportações. De qualquer das formas, a única
forma saudável de o fazer seria ter a Alemanha com um forte processo de
inflação, e não a periferia em deflação.
O BCE pode e deve contrariar esta
tendência. Draghi optou por continuar a inundar os bancos com liquidez e
esperar que estes a passem às empresas (este assunto dava um outro artigo). O
risco é que o dinheiro nunca lá chegue e sirva antes para novas bolhas
especulativas. Ou que, chegando lá, sirva para trocar dívida velha por nova,
uma vez que a falta de procura não permite às empresas vender mais.
A alternativa? Que esse dinheiro
seja utilizado para um plano de investimentos a partir do Banco Europeu de
Investimento; que esse dinheiro sirva para comprar dívida directamente aos
Estados, financiando políticas públicas expansionistas e de criação de emprego
e salários. Mas isso era se a Europa não estivesse a ser governada como se
fosse a mercearia do pai da senhora Thatcher.» – Mariana Mortágua, no
Expresso.