quarta-feira, 25 de junho de 2014

Generosidades


A Portugal Telecom saiu beneficiada quando, em 2003, o Governo de Durão Barroso lhe entregou o serviço universal de telecomunicações sem qualquer concurso público. Os portugueses já tinham perdido a PT na privatização, voltaram a perder nos tarifários que durante anos a PT pôde fixar como quis. Em 2012, voltaram a perder, e a PT a ganhar, porque o actual Governo a indemnizou com 33 milhões de euros pela revogação antecipada do contrato de concessão assinado à margem da lei em 2003 para durar até 2025. Em 2014, hoje, para não variar, são novamente os portugueses que ficarão a perder, no caso os 3 milhões de euros da coima que o Tribunal de Justiça Europeu decidiu aplicar a Portugal para punir a generosidade de vários Governos para com a PT ou, vivemos numa democracia e os Governos não caem do céu, para punir a forma alegre e despreocupada como o melhor povo do mundo convive com as generosidades do seu arco preferido. Povos generosos, Governos generosos. Tem a sua lógica. A dos eternos ganhadores e a dos eternos perdedores.

Que nojo


Um grupo de seguristas, entre eles o tal colaboracionista que andou anos a fio a fazer-se passar por sindicalista e a oferecer direitos laborais de mão beijada para agora poder estar a gozar a recompensa em Bruxelas, lembrou-se subitamente de apontar erros à governação Sócrates. Concordo com alguns dos erros apontados, discordo de outros, constato que muito do pior dos piores do socratismo não se encontra na lista, mas o que de mais significativo retiro desta iniciativa é a aridez de princípios da parte deste gang que, para obter proveitos pessoais, sempre aplaudiu Sócrates e agora, em desespero de causa e novamente em proveito próprio, o ataca desta forma despudorada. É certo que irão obrigar a outra facção a fazer o que sempre tentaram evitar o mais possível, posicionarem-se no aplauso ou na crítica ao socratismo, o que será sempre positivo. Caramba, mas não vale tudo.

No dia seguinte....

Não é só Seguro que aponta erros à era Sócrates. António Costa também já o fez. Ex-PM volta a ser arma de arremesso, agora na campanha PS.


«o dia de ontem foi tão bonito que eu quase chorei: pela primeira vez na vida, vi socialistas penitentes. Socialistas arrependidos. Socialistas macerados. Socialistas a assinarem um manifesto onde admitem que durante seis anos pecaram muitas vezes por pensamentos, palavras, actos e omissões, por sua culpa, sua tão grande culpa. Socialistas a criticarem “os seis trágicos anos do descalabro económico, financeiro e social, que foi a governação de José Sócrates”. Socialistas a afirmarem: “Nesse período sempre verificámos com angústia, como certamente muitos outros portugueses e socialistas, que o interesse nacional andou a reboque dos interesses partidários do grupo no poder.” E mais: “Sofremos o silêncio cúmplice de quem tinha a obrigação e o poder de evitar que o PS conduzisse Portugal para os braços da dependência internacional e para o sacrifício de milhões de portugueses.” E ainda: “Sejamos sérios, o actual governo é um mau governo, mas não foi este Governo que preparou o terreno para os cortes salariais, para as privatizações feitas sem critério e para o descrédito das instituições. Fomos nós, socialistas, que o fizemos, e quanto mais rapidamente o compreendermos melhor será para o PS e para Portugal.” Que bonito, meu Deus. Um grande aleluia para este manifesto.» – in “os cegos vêem e os coxos andam”, por João Miguel Tavares.

Melhor do que falecer: austeridade "benigna" e "meiguinha"


Ricardo Araújo Pereira: "queria que falássemos sobre o futuro, sobre o seu apoio a António Costa. O que eu queria saber, enfim, tendo em conta todo o ambiente que rodeia o Dr. António Costa, é: em que ponto das Trovas do Bandarra é que é mencionado o nome do António Costa?"
Ferro Rodrigues: "Eu penso que ele próprio não tem dele uma ideia de D. Sebastião, não tem a ideia de ser uma espécie de homem providencial. Acho que ele compreende que tem um contributo a dar neste momento ao país e, portanto, ao PS, e é nessa perspectiva que está a agir e eu penso que bem."
RAP: "E, nessa medida, que tipo de austeridade benigna e meiguinha é que o PS nos vai impor?"
FR: "Ouça, o mundo é o que é, não é o que gostaríamos que fosse, desde há muitos anos que tenho essa percepção   e quando se está, como foi o meu caso, durante praticamente seis anos no Governo, compreendo que é possível fazer muita coisa, mas há muita coisa que não se pode fazer, há uma relação de forças na Europa  e no mundo que tem que ser questionada. Agora, o que eu vejo é que na própria Comissão Europeia há muita gente neste momento a dizer que é preciso fechar as portas à austeridade. Eu também não sei muito bem como é que essas portas vão ser fechadas, lá ficará uma parte entreaberta, certamente, mas também depende da capacidade que o Governo português do futuro tiver, capacidade de unir muita gente em Portugal e ser capaz de se bater na Europa por políticas que, embora de rigor, permitam o crescimento e o emprego. Penso que isso é possível."
RAP: "Eu queria agora que acompanhasse este raciocínio que é intrincado mas eu vou tentar torná-lo claro. É o seguinte: António Costa é alternativa a António José Seguro, que por sua vez é alternativa a Pedro Passos Coelho. Ora, uma vez que António Costa é alternativa à alternativa, não há hipótese de António Costa ser na verdade Passos Coelho?" (vídeo aqui)