terça-feira, 24 de junho de 2014

O milagre do "ajustamento"

A electricidade para os chineses. Os parceiros chineses escolhidos pelo governo português para mandar na energia portuguesa, sector crítico para o funcionamento do país, estão afundados em escândalos de corrupção. A State Grid e a Three Gorges Corp., os maiores accionistas da REN e da EDP, respectivamente, "estão a revelar-se enormes antros de corrupção a uma escala dificilmente imaginável", refere a Stratfor, consultora no rescaldo da análise às conclusões da investigação inicial a este sector na China levada a cabo pelo Gabinete Nacional de Auditoria da China (GNAC). Este gabinete apurou que em apenas quatro meses, de Abril a Julho de 2013, houve o "roubo e desvio através de irregularidades contratuais" de mais de 1,1 mil milhões de dólares - 808 milhões de euros – só na State Grid. 

A água para os japoneses. Segundo a Bloomberg , duas empresas japonesas, a Marubeni e a Innovation Network Corp. of Japan, terão comprado à espanhola Sacyr, por 72 milhões de euros, a totalidade da AGS, empresa que detém em Portugal participações em 11 concessões de gestão de águas, incluindo Cascais, Gondomar, Faro e Covilhã.

As escolhas da governação do país para os alemães. “Aqui, em Portugal, temos um bom exemplo de reformas bem-sucedidas e da solidariedade europeia prestada. Aquilo que foi conseguido na Europa não impediu Portugal de enveredar pelo rumo das reformas, não, ajudou Portugal. Isso é de facto impressionante”, afirmou o Presidente alemão Joachim Gauck em resposta a um jornalista alemão, que tinha questionado os dois chefes de Estado sobre os chumbos do TC que têm “travado” as medidas.

E para os portugueses?


«O responsável máximo da fundação do Pingo Doce, um think tank inteligente do neoliberalismo, declarou, ao jornal i, que os juízes do Tribunal Constitucional tinham mentalidade de funcionários públicos. Como se isso fosse um insulto, como se ser professor, médico, polícia, homem do lixo, funcionário de uma autarquia, bombeiro e enfermeiro desqualificasse as pessoas e significasse que andam a roubar o dinheiro dos outros.

Para certa gente, servir a população é um crime. Todos os serviços públicos e o Estado social são vistos como privilégios de madraços e coisas que em última instância estão a impedir algum negócio chorudo de um amigo privado.

No fundo o Sr. Garoupa tem alguma razão: neste país há duas atitudes mais pronunciadas, uma espécie de ideal de tipo weberiano, que resumiriam as atitudes em disputa: por um lado, temos a maioria da população, que tem "mentalidade de funcionário público", por outro lado, temos os governantes, as fundações, que justificam o nosso sistema, e as elites económicas, que têm mentalidade de banqueiro.

É essa atitude que permite o Sr. Ricardo Salgado ir ter com o primeiro-ministro, que ele ajudou a colocar no poder, e pedir 2500 milhões de euros para tapar um dos buracos no BES. Mentalidade de banqueiro é aquela que acha natural que os lucros da especulação sejam para os accionistas e os prejuízos dessa nobre actividade sejam pagos pelo contribuinte. Foi o que funcionou até agora. Nós pagamos os BPN, os BCP, as parcerias público-privadas e os swaps especulativos com os nossos ordenados, impostos e reformas. Infelizmente, para o líder do BES aproximam-se as eleições e nem mesmo Passos Coelho o pode salvar e tirar mais 2500 milhões de euros da cartola que alimentou tanto rico com o nosso dinheiro.

Mas não sejamos cegos, a crise continua a ser uma máquina ideológica que destrói a vida da maioria da população, aquela que tem a "mentalidade de funcionário público", e permite salvar os negócios da casta que manda neste país. No meio da maior crise que a Europa viu desde a Segunda Guerra Mundial, os mais ricos viram crescer a sua riqueza individual. É caso para usar uma expressão, do na altura primeiro-ministro Cavaco Silva, sobre alguns dos empreendedores portugueses dos anos 80: "Há milionários prósperos que são donos de empresas falidas."

Nos países da periferia da Europa a corrupção não é um acidente. Ela não é combatida pelo sistema porque é a própria garantia da manutenção das elites e da casta que manda e lucra. O capitalismo rentista, em que as fortunas são feitas à conta do Estado e do contribuinte, tem a desigualdade económica e política como condição de existência. Só uma sociedade em que a maioria da população é expulsa do campo da decisão política permite o seu roubo e empobrecimento continuado.

Mas de tanto puxar a corda, as coisas são cada vez mais voláteis. É por isso que ninguém pode dizer que o rei vai nu. Só assim se percebe que um estudante da Universidade do Algarve esteja a responder em tribunal por ter feito uma obra em que denunciava a situação no país. Como fez uma instalação em que enforcava a bandeira nacional, pode ir preso. Aqui em Portugal quem denuncia a pouca-vergonha pode acabar na cadeia, aqueles que na realidade enforcam o país e roubam a sua população ainda ganham medalhas de comendadores.» – NNuno Ramos de Almeida, no I.

Da longa série "Pedro, o mitómano que destruía vidas"


"O essencial da criação de emprego passa por emprego com carácter permanente e não por emprego com carácter provisório ou ocasional. A maior parte do emprego gerado, uma parte significativa, bem mais de 60% do emprego gerado, corresponde a contratos sem termo. Portanto, não há precariedade laboral, mas há estabilidade laboral", disse Pedro Passos Coelho no debate quinzenal no Parlamento da passada Quinta-feira. Apenas três dias depois, ontem, o relatório europeu sobre vagas e recrutamento de 2014, da Comissão Europeia, mostra uma realidade muito diferente: 65% do total dos recrutamentos efectuados em Portugal em 2012 foram "trabalhos temporários involuntários", a segunda percentagem mais alta em toda a União Europeia, a seguir à Espanha. Em 2008 era de 57%. A média da União Europeia em 2012 era de 31%. O subemprego involuntário, trabalhadores que procuram um emprego a tempo inteiro mas não conseguem mais do que um part-time, também aumentou significativamente, embora menos do que A colecção de galgas de Pedro Passos Coelho, que vai crescendo todos os dias a um ritmo alucinado, função da miséria que a sua inegável competência para destruir vidas vai semeando de Norte a Sul de Portugal.

Vagamente relacionado: "O Governo e as autarquias chamam-lhes Contratos Emprego Inserção. Três palavras para três mentiras. Não são contratos porque não há qualquer vínculo. Não são emprego porque não pressupõem salário. Não são inserção porque nunca são inseridos nos quadros. São mandados embora quando o prazo acaba, trocados pela próxima leva. Descartáveis. Ficam na rua, sem direito a subsídio de desemprego, sem indemnização, sem nada. “Falavam-nos no Estado gordo e hoje há menos 75 mil trabalhadores na administração pública. Ao mesmo tempo, mas pela porta das traseiras, fizeram entrar quase 60 mil para funções que se provaram ser necessárias e permanentes. Com uma diferença: fazem-no sem receber. Este Governo é a maior máquina de precariedade e desvalorização salarial que Portugal conheceu." (continuar a ler)


Ainda mais vagamente: “É uma das mais graves notícias dos últimos meses e diz respeito a todos. O título desta notícia devia ser "Caro reformado, vamos cortar na reforma e entregar esse valor à Nestlé". Trata-se da utilização do dinheiro dos descontos para as reformas e pensões, dos impostos para o Estado Social, da Segurança Social, em suma, do dinheiro colectivo destinado a bens sociais e reformas dignas, a ser utilizado de forma massiva para pagar o salário de jovens precários nas multinacionais...” (Raquel Varela)

Gostei de ler: "A saúde de Churchill não foi assunto público, felizmente"


Todos os jornalistas têm sido bombardeados nos últimos anos com boatos sobre a saúde de Cavaco Silva. De uma das vezes, a "informação" que me chegou incluía o nome do hospital, o número do quarto e o dia do internamento. Tudo falso, claro. A conversa voltou depois do mal-estar do dia 10 de Junho - quem nunca desmaiou na vida pode ter ficado impressionado, mas quem conhece o poder do "chilique", com ou sem desmaio adjacente, não se impressiona. No sábado, o "Expresso" fez um excelente trabalho sobre se a saúde dos Presidentes deve ser ou não um assunto público. O porta-voz do PS para a saúde, Álvaro Beleza, defende que sim.

A cultura e a imprensa anglo-saxónica são as melhores do mundo, excepto em alguns assuntos em que são as piores do mundo. E aqui inclui-se a paranóia com a transparência total - incluindo assuntos como a saúde, a moral sexual e outros.

É interessante reflectir sobre a obsessão com os "políticos com paredes de vidro" à luz da Segunda Guerra Mundial. Se a imprensa britânica fosse, nos anos 30, o que é hoje, nunca Churchill teria sido primeiro-ministro - e na América, Roosevelt, na sua carreira de rodas e no seu casamento infeliz, teria muito mais dificuldades em se impor.

O livro de memórias do médico de Churchill - que Max Hastings, biógrafo do ex-primeiro-ministro britânico, considera uma fonte bastante fiável - regista as suas depressões constantes e em alguns casos muito violentas. Churchill chamava a essas crises a visita do cão negro ("black dog") e em muitas ocasiões não saía da cama. Se o excesso de whisky era testemunhado por todos os que conviviam com o primeiro-ministro (os diários de alguns chefes militares recordam reuniões a altas horas da manhã com Churchill já completamente bêbado), as depressões eram menos públicas. Entre a comunidade psiquiátrica é hoje corrente a ideia de que Churchill sofria de doença bipolar.

Evidentemente, se a imprensa britânica tivesse tido acesso ao boletim clínico de Churchill, teria sido muito mais fácil a linha apaziguadora com Hitler vencer no interior do governo britânico. Churchill foi um herói do nosso tempo à custa de ainda não ter sido inventado o escrutínio do corpo dos políticos. A saúde não dá qualquer garantia no exercício de um cargo político nem a falta dela, genericamente, o prejudica. Em que é que a presidência de Mitterrand foi afectada pelo cancro? Os casos em que um cargo público pode ser prejudicado por uma doença são raríssimos. O resto é mero voyeurismo.» – Ana Sá Lopes, no I.