A electricidade para os chineses.
Os parceiros chineses escolhidos pelo governo português para mandar na energia
portuguesa, sector crítico para o funcionamento do país, estão afundados em
escândalos de corrupção. A State Grid e a Three Gorges Corp., os maiores
accionistas da REN e da EDP, respectivamente, "estão a revelar-se enormes
antros de corrupção a uma escala dificilmente imaginável", refere a
Stratfor, consultora no rescaldo da análise às conclusões da investigação
inicial a este sector na China levada a cabo pelo Gabinete Nacional de
Auditoria da China (GNAC). Este gabinete apurou que em apenas quatro meses, de
Abril a Julho de 2013, houve o "roubo e desvio através de irregularidades
contratuais" de mais de 1,1 mil milhões de dólares - 808 milhões de euros
– só
na State Grid.
A água para os japoneses. Segundo
a Bloomberg , duas empresas japonesas, a Marubeni e a Innovation Network Corp.
of Japan, terão comprado à espanhola Sacyr, por 72
milhões de euros, a totalidade da AGS, empresa que detém em Portugal
participações em 11 concessões de gestão de águas, incluindo Cascais, Gondomar,
Faro e Covilhã.
As escolhas da governação do país para os
alemães. “Aqui, em Portugal, temos um bom exemplo de reformas bem-sucedidas e
da solidariedade europeia prestada. Aquilo que foi conseguido na Europa não
impediu Portugal de enveredar pelo rumo das reformas, não, ajudou Portugal.
Isso é de facto impressionante”, afirmou o Presidente alemão Joachim Gauck em
resposta a um jornalista alemão, que tinha questionado os dois chefes de Estado
sobre os chumbos do TC que têm “travado” as medidas.
E para os portugueses?
«O responsável máximo da fundação do Pingo Doce, um think tank inteligente do neoliberalismo, declarou, ao jornal i, que os juízes do Tribunal Constitucional tinham mentalidade de funcionários públicos. Como se isso fosse um insulto, como se ser professor, médico, polícia, homem do lixo, funcionário de uma autarquia, bombeiro e enfermeiro desqualificasse as pessoas e significasse que andam a roubar o dinheiro dos outros.
Para certa gente, servir a população é um
crime. Todos os serviços públicos e o Estado social são vistos como privilégios
de madraços e coisas que em última instância estão a impedir algum negócio
chorudo de um amigo privado.
No fundo o Sr. Garoupa tem alguma razão:
neste país há duas atitudes mais pronunciadas, uma espécie de ideal de tipo
weberiano, que resumiriam as atitudes em disputa: por um lado, temos a maioria
da população, que tem "mentalidade de funcionário público", por outro
lado, temos os governantes, as fundações, que justificam o nosso sistema, e as
elites económicas, que têm mentalidade de banqueiro.
É essa atitude que permite o Sr. Ricardo
Salgado ir ter com o primeiro-ministro, que ele ajudou a colocar no poder, e
pedir 2500 milhões de euros para tapar um dos buracos no BES. Mentalidade de
banqueiro é aquela que acha natural que os lucros da especulação sejam para os
accionistas e os prejuízos dessa nobre actividade sejam pagos pelo
contribuinte. Foi o que funcionou até agora. Nós pagamos os BPN, os BCP, as
parcerias público-privadas e os swaps especulativos com os nossos ordenados,
impostos e reformas. Infelizmente, para o líder do BES aproximam-se as eleições
e nem mesmo Passos Coelho o pode salvar e tirar mais 2500 milhões de euros da
cartola que alimentou tanto rico com o nosso dinheiro.
Mas não sejamos cegos, a crise continua a
ser uma máquina ideológica que destrói a vida da maioria da população, aquela
que tem a "mentalidade de funcionário público", e permite salvar os
negócios da casta que manda neste país. No meio da maior crise que a Europa viu
desde a Segunda Guerra Mundial, os mais ricos viram crescer a sua riqueza
individual. É caso para usar uma expressão, do na altura primeiro-ministro
Cavaco Silva, sobre alguns dos empreendedores portugueses dos anos 80: "Há
milionários prósperos que são donos de empresas falidas."
Nos países da periferia da Europa a
corrupção não é um acidente. Ela não é combatida pelo sistema porque é a
própria garantia da manutenção das elites e da casta que manda e lucra. O
capitalismo rentista, em que as fortunas são feitas à conta do Estado e do
contribuinte, tem a desigualdade económica e política como condição de
existência. Só uma sociedade em que a maioria da população é expulsa do campo
da decisão política permite o seu roubo e empobrecimento continuado.
Mas de tanto puxar a corda, as coisas são
cada vez mais voláteis. É por isso que ninguém pode dizer que o rei vai nu. Só
assim se percebe que um estudante da Universidade do Algarve esteja a responder
em tribunal por ter feito uma obra em que denunciava a situação no país. Como
fez uma instalação em que enforcava a bandeira nacional, pode ir preso. Aqui em
Portugal quem denuncia a pouca-vergonha pode acabar na cadeia, aqueles que na
realidade enforcam o país e roubam a sua população ainda ganham medalhas de
comendadores.» –
NNuno Ramos de Almeida, no I.



