Foi simultaneamente um dos
primeiros sinais do que depois chegou para todos e um teste à capacidade ou
incapacidade de indignação com a qual os povos travam ou incentivam os abusos
dos seus governantes. Nos idos de 2007, o Governo de José Sócrates reduziu a
quase nada os benefícios fiscais em sede de IRS com os quais os trabalhadores
portadores de deficiência contavam para fazer face a despesas decorrentes das
suas deficiências, que a generalidade dos cidadãos não tem que enfrentar. O sinal que os portugueses então quiseram dar aos seus
governantes foi claro. A indiferença foi quase geral. De tal forma geral que, sem sobressaltos de maior, um dos ideólogos do regime de então chegou mesmo a argumentar que a pulverização de
um dos poucos instrumentos eficazes na integração da população portadora de
deficiências se justificava por ter ouvido dizer que havia falsas declarações
de incapacidade passadas por cirurgiões a si próprios, isto é, em vez de
identificar e punir todas as situações fraudulentas de pessoas que recebiam
indevidamente benefícios fiscais por uma deficiência que não tinham, retiravam-se
os benefícios fiscais às pessoas que as tinham e contavam com esse dinheiro
para pagar a reparação da cadeira de
rodas eléctrica, o banho diário do paraplégico, o veterinário e a ração do cão-guia.
Passaram quase sete anos. É agora a vez de um governante se lembrar de usar o mesmo
tipo de argumentação moralista para justificar o encerramento de urgências: "Mais
de 90% das urgências, à hora a que foram fechadas, eram para curar bebedeiras. Não
vamos pagar horas extraordinárias durante toda a noite a médicos, enfermeiros e
técnicos de saúde porque há uns indivíduos que resolvem tomar a bebedeira de
vez em quando”, disse Alberto João Jardim na
passada Quinta-feira. O mestre das orgias orçamentais, guru das despesas ilegais,
ele próprio afamado consumidor de poncha, entende que quem se embebeda perde o direito
à assistência médica e por isso todos os que não bebem – e se não bebem,azarito, comecem a beber – também a perderão. A indiferença solidária que volte a dar-lhe
toda a razão.
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