«A maior preocupação de curto
prazo da zona euro está, neste momento, na pressão deflacionista, a ameaça de
uma constante e perigosa baixa de preços que o chamado
"arrefecimento" da economia pode provocar. O perigo, dizem uns, será
uma queda no consumo pelo efeito indirecto dessa baixa de preços. Porquê?
Porque essa queda de preços resulta, em primeiro lugar e em correspondência,
numa queda de rendimentos de quem vende. Por causa dessa perda de lucros os
produtores decidem efectuar despedimentos, o que coloca mais pessoas em
situação de não consumirem. Como há menos consumidores, há nova baixa de
preços, criando-se assim um círculo vicioso na economia.
Há quem, pelo contrário, não veja
na deflação a existência de um grande problema se ela resultar de um mero
ajuste natural do mercado em resposta a distorções provocadas anteriormente,
por exemplo, em situações de crédito fácil prolongado ou por causa de políticas
de Estado de investimento em infra-estruturas sem real efeito de crescimento
económico, duas situações identificadas como ocorridas em Portugal .
Há muitos economistas preocupados
com os problemas da deflação e o Banco Central Europeu tem tomado medidas para
a evitar. Mas, curiosamente, há muito poucos economistas preocupados com a
degradação salarial, deliberadamente provocada pelas medidas de austeridade e
que o Banco de Portugal agora quantificou: o poder de compra da maioria dos
assalariados portugueses está ao nível de 2005 e nos funcionários públicos
salta mesmo para os níveis de 1997. Como é que os preços em Portugal, face a
esta degradação que, necessariamente, diminui o dinheiro em circulação no nosso
país, podem fugir a um estágio deflacionário? Eis uma bela questão.» – DN
(editorial).
