«Bloquear, bater contra uma
parede, chegar a um beco sem saída, empancar, cair num pântano, enterrar-se em
areia movediça. etc.,etc. Qual destas palavras é que não se percebe? É assim
que está vida política portuguesa. E não apenas a vida política, também a vida
económica e a vida financeira. Pode haver arranques, mas são débeis. Pode haver
recuos, mas só confirmam o que já se sabia.
Mesmo as estatísticas de que o
governo (e a troika e o FMI e Bruxelas) gostam estão lânguidas e voláteis.
Sobem e descem. Exportações, importações, por exemplo. As estatísticas de que o
governo não gosta, essas continuam a dar os mesmos péssimos sinais. O aumento
drástico dos portugueses em privação severa, por exemplo. Das primeiras, se
sobem uma décima, há festa. As segundas, nunca são citadas, mesmo que subam ou
desçam muito. É como se não existissem, sobre elas cai um manto de silêncio.
Quanto aos juros, estão magníficos, seja para Portugal, seja para a mal
comportada Grécia. Só uma coisa se move e é no plano social. A passagem do
tempo gera um único dinamismo: empobrecer.
(...)
Só uma coisa move tudo: garantir
que há cortes na função pública, nas reformas e pensões. Tivesse o governo o
mesmo tipo de tenacidade que mostra nos cortes para renegociar as PPPs ou os
contratos swap, que se teriam poupado muitos milhões, ainda por cima abusivos.
Para cortar, ou seja “poupar”, há uma determinação sem paralelo com qualquer
outro acto de governação, mesmo legislando-se contra a Constituição de forma
reiterada, uma, duas, três vezes e agora anuncia-se uma quarta, os “cortes
Sócrates” que eram para ser temporários e agora voltam mais uma vez como
“temporários” redivididos até à reposição plena em 2019, ou seja um governo
depois. No Porto, havia várias coisas temporárias, a estação da Trindade, o
túnel da Ribeira. Ainda lá estão, muitas décadas depois, alive and kicking.
(...)
Como é que não há bloqueio se
numa sondagem a sério, as eleições, apenas 27% votou nos dois partidos do governo,
nos dois sublinhe-se, e em sondagens mais precárias, mas todas coincidentes,
mais de 60% dos portugueses querem Costa à frente do PS e pouco mais de 18%
querem Seguro? Com este estado de opinião e voto, como é que a maioria dos
portugueses se pode sentir representada pelos partidos que se reivindicam do
“arco da governação”?
Como é que se desembrulha uma
situação como esta? Não há milagres, até porque o material tem sempre razão e o
material é mau e não vai deixar de ser mau mesmo depois das eleições. E
eleições são a única coisa que pode fazer entrar algum ar fresco no quarto
miasmático em que estamos enfiados.
Se a vida fosse a ideal, o PS
resolveria rapidamente a sua querela interna, em vez de andar nesta necrose
quotidiana para salvar Seguro e garantir meia dúzia de lugares de deputados aos
seus fiéis, com elevadíssimos custos para o PS e para Portugal, e, quem fosse o
líder, estaria em condições para exigir eleições antecipadas com uma voz forte.
Se a vida fosse a ideal, o Presidente compreenderia que nunca vai conseguir um
acordo “consensual” na actual situação de bloqueio, mas apenas perante um
governo com legitimidade reforçada de origem eleitoral, seja do PSD-CDS, seja
do PS. Se a vida fosse a ideal, as eleições dariam a quem as ganhasse uma maioria
absoluta ou quase, para então existir força política para haver entendimentos,
ou para os recusar, se eles fossem abusivos. Se a vida fosse a ideal, o PSD
mudaria de liderança, mas, mais importante que tudo, deixaria para trás esta
continuada traição ao seu programa, à sua génese, ao seu papel histórico e aos
seus manes caseiros como Sá Carneiro. Se a vida fosse a ideal, ou o PS (mais
provável) ou o PSD, manteriam um esforço de consolidação orçamental, com maior
equilíbrio social nos seus custos, mas anunciariam, a partir dessa autoridade
de não aceitarem défices altos, que o chamado Tratado Orçamental não pode
continuar como está. E anunciariam que uma reestruturação da dívida é
inevitável e trabalhariam para isso, com moderação e tenacidade. E se a vida
fosse a ideal, Portugal passaria a ter outra voz na Europa, procurando aliados
e novas configurações, em função de um único objectivo, o interesse nacional.
É para que a vida, mesmo não
sendo a ideal, possa pelo menos ser mais sensata, equilibrada e melhor do que é
hoje, que é preciso correr o risco de antecipar as eleições, num tempo bem
escolhido, razoável e o mais depressa possível, ou seja, é preciso fazer alguma
coisa para desbloquear este enorme pântano em que vivemos. Tem riscos? Tem
todos os riscos. Mas ficar assim é pior.» – Pacheco Pereira, no Público.