As regras do jogo. O poder
político dita as inevitabilidades, os órgãos de informação repetem-nas quantas
vezes for preciso para lhes dar ares de estado de emergência, a plateia assimila-o
com a desejada pacatez. O poder político desenvolve uma revolução semântica, a
nova terminologia da novilíngua imediatamente começa a ler-se nos jornais e a
ouvir-se nas rádios e televisões em notícias que podiam perfeitamente
dispensá-la, a opinião pública segue-lhe o espírito. Os Governos abandalham
relações laborais e promovem cruzadas contra alegados poderosos interesses
corporativos de quem não tem poder algum, muitos jornalistas noticiam-no como
“reformas estruturais necessárias”, os portugueses posicionam-se naquele que
julgam ser o lado da trincheira que mais lhe convém nestes dias do salve-se
quem puder. A economia implode e o desemprego alastra, os governantes culpam
cada desempregado da sua situação e apontam-lhe o empreendedorismo e a
emigração, a comunicação social enche-se de notícias sobre os temas da moda enriquecidas
com reportagens sobre casos de sucesso do fulano que emigrou e do sicrano que
montou o próprio negócio, o público deixa-se convencer que estar desempregado
não é assim tão mau. Até ao dia em que o desemprego bate à porta e se sente o
mundo a desabar sobre a própria cabeça. Vai calhando a vez a todos.
Para surpresa de cada um. Esta
semana o desemprego entrou nas casas de 160 jornalistas do DN, JN e TSF. Não
conheço pessoalmente nenhum deles, não sei quem foi despedido e quem não foi e
não faço ideia qual terá sido o critério de escolha dos que ficaram e dos que
saíram, se é que houve outro que não o dos proveitos e custos. Se houvesse
justiça neste mundo, os dispensados seriam exclusivamente aqueles que sempre colaboraram com o poder na guerra
de percepções que vai resultando na imposição das regras do jogo atrás
enunciadas e, nesse caso, a democracia sairia a ganhar com a limpeza na classe
daqueles que asseguram o seu pilar informação. Se o episódio servisse para
evitar sequelas futuras, os jornalistas deixariam de comportar-se como quase todas
as outras classes profissionais, cada um por si, e a ética profissional, os
deveres deontológicos e o espírito de classe encarregar-se-iam de expulsar a
concorrência desleal dos maus profissionais pagos a um prato de lentilhas que vão substituindo os bons, e há muitos,
que são postos na prateleira e, dessa forma, também de devolver aos clientes
finais do seu trabalho aquele prazer antigo de comprar jornais e revistas. Infelizmente,
nem o mundo é justo, nem a generalidade dos jornalistas se diferencia assim
tanto dos restantes compatriotas que não dispõem do seu poder de influenciar as
percepções dos outros. Foram despedidos mais 160 portugueses. 160 dramas pessoais e um desastre colectivo. O desemprego já está a trabalhar para surpreender os
160 seguintes.
