quarta-feira, 11 de junho de 2014

Genial



Quando o PIB não cresce nem pode crescer sem investimento público e com políticas que concentram a riqueza achatando salários e desmantelando serviços públicos, uma forma de o obrigar a aumentar é fazer o que os senhores de Bruxelas se lembraram de fazer: alterar-lhe a fórmula de cálculo. A ideia é tão boa ou tão má que a nova fórmula de cálculo do PIB nos estados da União Europeia a partir de Setembro passará a contabilizar toda a riqueza alegadamente gerada por actividades ilícitas como o tráfico de droga e contrabando, isto é, uma vez que os valores movimentados por tais negócios apenas podem ser calculados por estimativa, os Governos passam a ter plena liberdade para dizerem que os seus produtos cresceram o que lhes der na real gana. Assim, já a partir de Setembro, todos os desempregados que sejam empurrados para a droga e para a prostituição estarão a contribuir para a riqueza do seu país, pelo que as políticas públicas deverão concentrar-se ainda mais na destruição de empregos. Da mesma forma, os combates à criminalidade e à economia paralela deverão sofrer afinações de forma a compatibilizá-los com os superiores interesses de cada Nação.



Era uma vez uma linda carochinha


Quem não se lembra da história da carochinha que nos andaram a contar nestes últimos três anos? Se o Tribunal Constitucional chumbasse um Orçamento e dois dias depois os juros subissem umas milésimas nos mercados, pimba, a culpa era do TC. Se fosse convocada uma greve e no dia seguinte os juros aumentassem um niquinho, zás, a culpa era dos sindicatos. Se o Presidente desmaiasse e no dia a seguir os juros subissem um tiquitiquinho, ai, os mercados ficaram nervosos com a instabilidade política que poderia acontecer a seguir. Os juros dos outros países acompanhavam a tendência? Não vinha ao caso. O Governo sempre contou com um exército de trombeteiros que em toda a comunicação social entoavam o toca a portar bem e a baixar a cabeça, que os mercados nunca se enganam e parece não estarem a gostar nada do que estão a ver acontecer por aqui.

Agora, com o TC a chumbar orçamentos, com a maioria a insultar o TC para forçar eleições, com o PS aniquilado a brincar ao quem manda aqui, com a dívida a crescer como sempre cresceu nestes anos de troika e com o PIB a encolher como sempre encolherá enquanto a política oficial continuar a prescindir do investimento público como instrumento de política económica e se limitar a insistir em desmantelar salários, direitos laborais e serviços públicos, os juros vão caindo para mínimos sucessivos de oito anos mercê da bolha que o BCE vai alimentando no mercado monetário.

Portugal colocou nesta quarta-feira 975 milhões de euros em Obrigações do Tesouro a dez anos à taxa de juro média de 3,2524%, menos 0,3228 pontos percentuais que no anterior leilão comparável realizado em Abril. Boa notícia? Para Portugal, excelente notícia. O Governo pode começar a substituir dívida emitida quando os juros estavam muito mais altos, inclusivamente os juros do empréstimo contraído junto da troika, através de novas emissões a juros cada vez menores.

Paradoxalmente, para o Governo, para a maioria que o suporta no Parlamento e para o seu sócio de memorando, acidentalmente na oposição, nem tanto. Todos eles deixam de poder contar com o papão dos mercados que lhes dava liberdade absoluta para imporem a sua agenda de reconfiguração social, ao mesmo tempo que, tarefa impossível, se vêem na necessidade de explicar muito bem explicadinha a história da carochinha que usaram para coagir os portugueses. Lembro-me de, em dado momento, alguém muito pouco recomendável atirar que o país estava muito melhor embora a vida dos portugueses estivesse pior. Ironia do destino, agora, se o país ficar realmente melhor no que toca a juros e a mercados, é a vez do centrão do memorando ficar um bocadinho pior. E acrescento: tanto quanto os portugueses quiserem. É o que lhes vale.

Gostei de ler: "Da propaganda neoliberal como uma das belas-artes"


«Tal como já aconteceu em anos anteriores, vários órgãos de comunicação publicaram na semana passada artigos e reportagens sobre o Dia da Libertação de Impostos. Nessas peças jornalísticas, baseadas todas ou quase num despacho da agência Lusa (ainda que muitos não o assinalassem, seguindo uma lamentável tradição nacional), os seus autores explicavam que, até ao dia 6 de Junho, os portugueses tinham trabalhado apenas para pagar impostos e que era só a partir desse dia que estavam, finalmente, a trabalhar “para si”.

Era difícil ouvir estas reportagens sem ficarmos indignados com a ganância deste Estado que nos rouba o dinheiro arduamente ganho e esse era o tom dos entrevistados de rua que vi na televisão. Todos lamentavam que tivessem de dar tanto dinheiro ao Estado e que ficasse tão pouco para eles próprios, incluindo uma mulher que se identificava como funcionária pública, mas que não tinha parado para pensar que era daqueles impostos que vinha a totalidade do seu salário.

As reportagens que vi e os artigos que li dividiam-se entre um tom técnico e factual ou um tom discretamente escandalizado e todos citavam “um relatório”, “uma organização” ou “os autores do estudo”. Todos, porém, eram peças de pura propaganda. O subtexto de todos eles era cristalino: o Estado é uma entidade parasita, que rouba aos honestos trabalhadores mais de metade do que produzem para o enterrar num buraco negro sem dar nada em troca e, se não fosse assim, todos estaríamos muito melhor.

Não vi nem li uma peça onde se referisse, mesmo que à margem, que é com esse dinheiro que se pagam escolas e hospitais, estradas e pontes, salários de enfermeiros e médicos, juízes e polícias, autarcas e bibliotecários, cientistas e professores, a protecção civil e a defesa do património, o apoio aos deficientes e o combate à pobreza, os seguros que nos garantem protecção na doença e no desemprego. Não vi nem uma peça que lembrasse que, até dia 6 de Junho, o que o nosso trabalho cobre, o que os nossos impostos de todo o ano pagam são estas necessidades básicas, sem as quais seríamos, simplesmente, um bando de animais.

É tão relevante ou tão disparatado sublinhar que trabalhamos até dia 6 de Junho para pagar impostos, como sublinhar que trabalhamos três meses por ano para o nosso senhorio, mais dois meses para o Pingo Doce e o restante mês para a EDP e para a Nos, sem que sobre um euro que seja “para nós”. Todas estas “peças jornalísticas” são peças de propaganda porque, insidiosamente, insinuam que os impostos não são para “nós” mas para “eles”, que os impostos servem interesses e grupos que não são os da comunidade. Mas, curiosamente, estes estudos não referem que trabalhamos mais de um mês por ano para pagar apenas juros (e, aí sim, sem termos absolutamente nada em troca), para além do que temos de trabalhar para pagar a dívida em si. Como não referem que a organização autora do estudo, a New Direction-The Foundation for European Reform, não é um think tank independente e idóneo, mas apenas um lobby da extrema-direita económica instalado em Bruxelas para impor a agenda neoliberal, que tem como santa padroeira Margaret “There Is No Alternative” Thatcher.

É evidente que é importante conhecer e avaliar a evolução ao longo dos anos da colecta fiscal. E é importante fazer estudos comparativos com outros países. Mas não para estabelecer como objectivo reduzir cegamente a “carga fiscal”. Não se pode avaliar a bondade de uma política fiscal sem saber para quê e como são usados os nossos impostos. Não é apenas o custo que conta: é também o benefício que se recebe em troca. E é por isso que, entre os países que aceitam as maiores “cargas fiscais” da Europa, vemos países com elevados níveis de bem-estar como a Bélgica, a França, a Áustria ou a Alemanha.

A New Direction-The Foundation for European Reform tem uma agenda e uma estratégia a que se costuma dar o nome de “starve the beast” e que foi a agenda e a estratégia de Thatcher e de Reagan. A “beast” é o Estado (Cavaco chama-lhe “o monstro”, mas é a mesma coisa) que é apresentado como um sorvedouro insaciável de dinheiros dos contribuintes. A estratégia é reduzir drasticamente os impostos, convencendo os cidadãos que lhes estão a “meter dinheiro nos bolsos” e, em seguida, reduzir a oferta de serviços públicos com o argumento de que… não há dinheiro. Segue-se a privatização de serviços públicos que são transformados em negócios para os amigos. Os pobres ficam mais pobres e morrem pobres e os ricos ficam mais ricos e vivem felizes para sempre, comemorando o Dia da Libertação dos Impostos.» – José Vítor Malheiros, no Público.