É diferente escrever uma carta às
esquerdas a apelar à união quando se ganha e quando se perde eleições. Quando
se ganha, soa a “aproveitem a nossa dinâmica de vitória, juntos podemos mais”.
Quando se perde, e mais quando a derrota é pesada e é a segunda consecutiva,
soa a “socorro, ajudem-nos a não desaparecer de vez”. E não estou a dar
novidade nenhuma, qualquer liderança , até mesmo a de um clube de adolescentes,
faz por não o esquecer para evitar fazer figuras tristes.
Lembrei-me disto, que escrevi há dias
em jeito de comentário à "carta às esquerdas" que a coordenação do
Bloco de Esquerda pôs a
circular na imprensa, ao ler a entrevista de hoje da
Ana Drago ao Público, onde diz que o Bloco precisa de ser mais humilde. Mais
ainda? Não a entendo.
A convergência que defende ser
urgente fazer acontecer, a não ser a mesma que se lê na carta de há dois dias,
e que a Ana Drago sabe – e admite na entrevista – não ter sido possível por manifesta falta de
vontade das outras forças políticas envolvidas, obrigá-la-ia a assumir uma ruptura
com a direcção que a defende.
Mas a Ana Drago diz textualmente
que "o problema do Bloco não é um problema de liderança, ou de
comunicação. É um problema de estratégia", a da tal aliança que só será
possível se as outras forças também estiverem interessadas, que só será
vantajosa para o Bloco em determinadas condições e que só faz sentido falar
nela num cenário de eleições próximas, o que não parece ser o caso.
E então para quê insistir tanto
numa questão tão gasosa? Como é que o problema do Bloco não passa pela sua liderança
nem pelos seus mais que visíveis défices de comunicação, se é a própria a admitir
que as pessoas estão a deixar de ver utilidade no Bloco? A entrevista começa
com um “hoje milito no Bloco. Mas isto é um dia de cada vez…” Ficaria muito
desapontado se tudo isto for a preparação de um salto para aquele partido que
nasceu do protagonismo de um eurodeputado eleito com votos de esquerda nas
listas do Bloco e acabou sentado na bancada onde agora Marinho Pinto queria sentar-se. Por
toda a admiração que lhe tenho, se a Ana Drago quer sair, e ninguém é obrigado a
ficar onde não se sente bem, andar a cozinhar o "fui obrigada a sair"
não casa com a frontalidade que sempre a caracterizou. E é atitude que a Ana sabe desgasta ainda mais um
partido já sobejamente desgastado.


