sábado, 7 de junho de 2014

Voto obrigatório: sim ou sim?


Seis milhões trezentos e noventa e cinco mil setecentos e setenta e oito eleitores num universo de nove milhões seiscentos e setenta e seis mil oitocentos e oitenta e oito ou, o que é o mesmo, cerca de sessenta e seis em cada cem eleitores portugueses Não votaram nas eleições europeias do passado dia 25 de Maio. Pavoroso. Ainda mais pelo autêntico caos institucional que se instalou depois entre Governo e Tribunal Constitucional, com a colaboração de um Presidente da República que sempre assobia para o lado nas situações mais incríveis. E mais ainda pela reacção da classe de bem pensantes do país ao fosso que se vai alargando entre o país político e o país real.

Aqueles cujas carreiras políticas dependem do voto dividiram-se. À direita, com o sobressalto de um resultado que coloca o centrão abaixo do conforto dos 66,6% que garantem o poder  absoluto  em matéria de revisão constitucional, algumas vozes do PS aproveitaram para arranjar motivos para se unirem ao coro que no PSD há muito reclama um sistema eleitoral com círculos uninominais que simultaneamente replica à escala nacional o tristemente célebre Orçamento do queijo limiano e acentua drasticamente o bipartidarismo, tal como a redução do número de deputados, que também propuseram à boleia da abstenção. À esquerda, nenhuma proposta. CDU e Bloco limitaram-se a reagir, constatando a deterioração da pluralidade da democracia e o défice de representatividade que a sua aprovação acarretaria.

Por seu lado, aqueles que ganham a vida a dizer ou a escrever o que os seus públicos gostam de ouvir e de ler alinharam-se na versão mais popular, também aquela que mais glorifica e incentiva a abstenção. Foram quase unânimes em colar o défice de cidadania que os números apontam a um protesto imaginário de um povo que disputa o título de campeão do mundo da submissão e do alheamento. Poderia até ser protesto, concordo, há razões de sobra que o justificam, mas para isso seria necessário que a enorme abstenção destas eleições contrastasse com o hábito que a maioria dos portugueses objectivamente não tem de exercer o seu direito e dever cívico de escolher os seus representantes. Não se pode dizer “olha, ao contrário do que sempre acontece, desta vez não votaram, devem estar zangados com alguma coisa”, mas pode e sobretudo deve dizer-se “olha, desta vez não votaram outra vez, é incrível como tanta gente esbanja assim um direito que custou tanto a conquistar”. Um dia destes, quando e se o voto obrigatório for referendado, será interessante ler o que dirão estes fazedores de opinião sobre o nível de abstenção que seguramente se repetirá como sempre se repete: tanta gente a usar a abstenção como protesto contra o seu próprio direito a poder continuar  a não votar.

Uns e outros, toda a gente se mostrou muito chocada com a abstenção recorde das últimas europeias. O certo é que nem com seis milhões trezentos e noventa e cinco mil setecentos e setenta e oito razões para se falar no assunto se abre um debate público sobre o tabu da introdução do “voto obrigatório” no nosso sistema eleitoral. Da minha parte, sou completamente a favor. Só vejo vantagens em que todos sejam obrigados a participar nas escolhas colectivas de uma sociedade que, por ser de todos e a todos abranger nos benefícios que proporciona, a todos deve vincular  nas opções que são dever de todos e não apenas de alguns. Vejamos algumas: 

– Uma democracia que a todos envolva enriquece-se com uma comunidade de cidadãos mais informados e mais vigilantes. O dever de votar obriga quem vota a manter-se informado para depois verter essa informação na escolha que periodicamente expressará pelo voto.

– Uma democracia participada por todos é uma democracia mais inclusiva. Estatisticamente, o eleitor mais pobre e o eleitor mais jovem é aquele que tendencialmente menos vota. Quem se abstém deixa de ser prioridade para os decisores políticos. Com o voto obrigatório, o decisor político deixa de estar tão à vontade para poder negligenciar as suas reacções.

– Uma democracia que não deixa ninguém fugir às suas responsabilidades é uma democracia onde já não há lugar para o moralista que não vota para poder culpar os outros da situação do país. É uma democracia que valoriza o cidadão responsável e informado e reprova o fanfarrão que se orgulha da sua ignorância política e o esperto que se gaba da sua indisponibilidade para dar de si o que quer que seja para a construção de uma sociedade justa e solidária. Numa democracia com voto obrigatório, o decisor político deixa de ser premiado pelo seu mau trabalho com o número cada vez menor de votos que necessita para conseguir ser reeleito.

Uma democracia em que todos votam é uma democracia menos dada aos caprichos do sobrenatural. Os políticos e os governantes não caem do céu, como parece ser a percepção de muita gente com a abstenção como regra e não como excepção.

Para terminar, apesar de se usar a expressão "voto obrigatório", sublinho que em países que tiveram a coragem de avançar nesse sentido ninguém é obrigado a votar. A quem seja de todo impossível votar é facultada a possibilidade de justificar a sua falta. E quem não quiser mesmo votar, também não é obrigado. Tudo o que tem a fazer para, por exemplo, poder beneficiar de serviços públicos ou de isenções fiscais é pagar uma multa simbólica em valor e em transtorno, de forma a estragar a festa ao inteligente que se fica a rir "daqueles parvos que estragam excelentes Domingos de praia a votar" enquanto esta espécie de cidadãos aproveita o sol e o mar ou fica em casa a bater uma sorna. Obrigações é com os outros, direitos é mesmo ali. O voto obrigatório, como o próprio nome indica, obriga toda a gente a ser e a fazer como são e fazem as pessoas, deixando aos animais o monopólio da passividade própria da sua incapacidade de interferir na construção do futuro.

Acho que já vi este filme

Os interesses de Álvaro Sobrinho.
 Infograma do livro "Os Donos Angolanos
de Portugal"

O semanário Expresso noticia este sábado que o BES Angola não sabe a quem emprestou 5,7 mil milhões de dólares, sendo que a actual administração suspeita que 745 milhões foram parar às mãos de Álvaro Sobrinho, presidente daquele banco até 2012.

O empresário angolano Álvaro Madaleno Sobrinho é dono da Newshold, grupo angolano que, além do semanário Sol, controla 15% da Cofina (Correio da Manhã, Jornal de Negócios, revista Sábado), bem como o jornal i. A Newshold ficou conhecida por ter entrado na corrida pela privatização da RTP, entretanto gorada.

Segundo o Expresso, a situação do BESA foi explicada pelo novo CEO do banco, Rui Guerra, aos accionistas em duas reuniões que decorreram em Angola em finais de 2013. O panorama apresentado por Guerra foi no mínimo inusitado: para um valor de 5,7 mil milhões de dólares de crédito concedido pelo BESA, que representa nada menos que 80% do total da carteira, não há informação sobre quem são os beneficiários económicos nem para que fins foi utilizado o dinheiro. Há muito poucas garantias reais e as que existem não estão avaliadas.

Recorde-se que o presidente do BES, Ricardo Salgado, reconheceu recentemente que houve problemas no BESA e que o banco recorreu directamente ao governo angolano para obter uma garantia que cobrisse o crédito duvidoso. “O presidente José Eduardo dos Santos teve uma grande atenção, com certeza, na decisão [de ser dada uma garantia do Estado angolano que cobre de 70% do crédito do BESA]. Eu estou reconhecido porque também foi consideração em relação ao Grupo Espírito Santo. (…) A garantia é inequívoca”, disse Ricardo Salgado em entrevista ao Jornal de Negócios.

A notícia do buraco nas contas do BESA já fora dada pelo site informativo Maka Angola. O jornalista Rafael Marques calculava que os créditos malparados eram na ordem dos 6.500 milhões de dólares, incluindo 1.500 milhões em juros – um valor não muito diferente do que foi adiantado agora pelo Expresso. Segundo o artigo do Maka Angola, a origem do buraco foram os empréstimos generosamente distribuídos por Álvaro Sobrinho, “a conhecidas figuras do regime angolano, incluindo vários membros do Bureau Político do MPLA”. (esquerda.net, ler mais aqui)