«(...) Perante a impossibilidade
de arrancar mais 700 milhões de euros aos trabalhadores, desempregados e
pensionistas, Passos Coelho decidiu avançar para um braço de ferro com o
Tribunal Constitucional.
Sejamos claros. Os 700 milhões de
euros, que para muitas pessoas fazem toda a diferença nas suas escolhas diárias
de sobrevivência, valem 0,35% do PIB. O que é que isto quer dizer? Quer dizer
que não é verdade que não haja dinheiro para compensar estes cortes. É sabido
que o governo tem uma folga orçamental de €900 milhões, para além da almofada
orçamental. Quer dizer ainda que o seu impacto nas metas do défice seria 20
vezes inferior a todas as revisões que o governo já fez no passado. Não são as
contas orçamentais de curto prazo que justificam o drama.
O drama justifica-se porque o
governo sabe que as metas de longo prazo acordadas através do Tratado
Orçamental não são compatíveis com um Tribunal que respeite uma Constituição
que protege serviços públicos e níveis mínimos de equidade e justiça. Por isso
é preciso descredibilizar ambos. Os Juízes, porque são "mal
escolhidos" e "mal preparados"; e o Tribunal, porque tem
demasiados poderes para "não ser escrutinado democraticamente".
Três notas breves sobre estas
declarações:
1. Seis dos
treze juízes do Tribunal Constitucional foram indicados pelo PSD, um deles pelo
CDS. Apesar disto, 10 em 13 consideram os cortes inconstitucionais;
2. Sendo o
escrutínio democrático importante, a independência do poder judicial também o
é. Que pena não ver Passos Coelho preocupado com o escrutínio democrático da
Comissão Europeia ou do Banco Central Europeu, cujas políticas estão a colocar
a nossa Constituição (democrática) em causa;
3. Se os
magistrados que chegam ao TC são mal preparados, que dizer de um Governo que
apresentou três orçamentos de Estado, todos eles inconstitucionais?
O drama também se justifica
porque, para lá do seu neo-justicialismo em relação ao TC, o primeiro-ministro
sabe que precisa de um bode expiatório. Afinal, as coisas não vão tão bem como
se esperava. O PIB caiu no primeiro-trimestre, assim como o emprego, a dívida
está longe do prometido e a Troika está tão presente em Portugal como estava no
dia 16 de Maio. Um drama político vinha mesmo a calhar, para ver se ninguém se
lembra de perguntar pela "retoma" e pelo "milagre
económico".» – Mariana Mortágua, no Expresso.