sábado, 31 de maio de 2014

A lapa e o Rato


António José Seguro está em grande. Garantiu neste sábado de manhã, na Comissão Nacional do PS, no Vimeiro, que não se demite de secretário geral do PS e votou contra a proposta de António Costa de convocação de um congresso extraordinário, uma alteração à ordem de trabalhos que segundo os estatutos do partido apenas é possível quando existe unanimidade. Em vez do congresso extraordinário, Seguro anunciou que vai marcar congressos das federações distritais e  abrir um processo de discussão interna para que os militantes possam escolher, em primárias abertas a militantes e a simpatizantes, quem deve ser o candidato do PS a primeiro-ministro nas próximas legislativas. Sim, leram bem, embora o processo não esteja ainda regulamentado, os estatutos do PS prevêem a escolha do candidato a Primeiro-ministro em primárias, como se em eleições legislativas os portugueses elegessem mais do que deputados.

Mas Seguro fez brilhar ainda mais a sua genialidade. Para além da solução bicéfala que propôs, um secretário-geral diferente do tal candidato a Primeiro-ministro, ou lá o que é, Seguro propôs a alteração do sistema eleitoral com os círculos uninominais que o PSD há muito defende e a redução do número de deputados na Assembleia da República dos actuais 230 para 180, o sonho daqueles que confundem o direito a sermos livres que o 25 de Abril nos trouxe com a sua liberdade de permanecerem escravos de si próprios e, por essa razão, acreditam que o problema do nosso país está no excesso de deputados no Parlamento e não nas consequências das suas próprias escolhas.

António José Seguro mostrou que sabe ler o seu partido. Seguro não caiu em desgraça por defender a continuidade da austeridade nem por qualquer outra questão relacionada com opções políticas que determinam a vida dos portugueses. Tudo começou no final de duas semanas em que Seguro não podia ser criticado em absolutamente nada sem que logo aparecesse um socialista a acusar o autor da crítica de estar a fazer o "jogo da direita". Os socialistas ganharam as europeias desse Domingo por escassa margem , Seguro exagerou nos festejos e houve gente que não gostou. E foi tudo.

Os socialistas gostam de vitórias mais folgadas, daquelas que garantem mais lugares para todos. É isto que Seguro agora lhes oferece. Se o sistema eleitoral com círculos uninominais na Inglaterra consegue reduzir a menos de 10% a representação parlamentar de partidos com votações na casa dos 23% e garante a divisão de lugares quase exclusivamente entre apenas dois partidos, juntar-lhe a redução do número de deputados de 230 para 180 certamente que será mais do que suficiente para repartir entre o seu partido e o PSD a quase totalidade dos lugares na Assembleia da República. Se o que os socialistas querem é lugares, Seguro trabalha para satisfazê-los. Se querem outro que não ele próprio para Primeiro-ministro, Seguro mostra ter humildade e abnegação suficientes  para abdicar do lugar a favor de quem o partido eleja para ser essa figura. Apenas não prescinde de continuar a ser secretário-geral do partido, mas continua a provar que está muito bem onde está. Para além de rasgo, Seguro demonstra perseverança. A lapa não larga o Rato.

"Aprenderam alguma coisa? Não aprenderam nada."


E os eleitores que passam a vida a queixar-se da vida mas não votam, aprenderam que a única coisa que ganham ao absterem-se é proporcionarem àqueles que lhes dão cabo da vida, e que alegadamente querem punir não votando, a oportunidade de se fazerem eleger ainda mais facilmente, com ainda menos votos? Aprenderam que os partidos que querem punir não precisam dos seus votos para nada porque contam com máquinas partidárias poderosas que lhes garantem os votos que valem tanto mais quanto maior for a abstenção? Aprenderam que não votando as suas vidas ficam cada vez mais na mesma? Aprenderam que as eleições não são uma brincadeira, é ali que as suas vidas começam a mudar para melhor ou para pior? Aprenderam os eleitores do arco que tanto dá votar no PSD como no PS ou no CDS? Aprenderam que o contrário de votar não é não votar? Não. Governantes, partidos e eurocratas podem continuar a não aprender nadinha. 

 

«(...) Não é a excepção, é a regra. Aprendeu o PS com a derrota a e maldição pública de Sócrates? Não. Aprendeu o PSD com as duas catastróficas derrotas eleitorais da actual direcção política de Passos? Não. Aprenderam o PS e o PSD o que significavam os sucessos das listas independentes nas últimas autárquicas? Não. Aprenderam o PS e o PSD com o aumento de votos brancos e nulos e as abstenções por protesto, desinteresse ou revolta contra a “oferta” política que é dada ao eleitor? Não. Aprenderam o PS e o PSD com a quebra cada vez mais acentuada dos votos do chamado “arco governativo” em relação ao conjunto dos votos expressos? Não. Aprenderam o PS, o PSD e o CDS com o divórcio já profundo entre eleitores e eleitos, entre os portugueses e a sua representação política? Não. Aprenderam o PSD e o PS o que significam resultados como os de Marinho e Pinto? Aprenderam o PSD e o PS com a cada vez maior dúvida sobre o mérito da democracia para resolver os problemas dos portugueses? Não. (...) O mesmo se passa, por razões ainda maiores, logo mais graves, a nível da Europa. Aprenderam os governos da União Europeia o que significou a derrota da Constituição Europeia na Holanda e França? Não. Aprenderam os governos com o facto de que cada vez que há um referendo as propostas do mainstream europeu chumbam ou passam por um fio? Não. Aprenderam os governos o desastre das políticas das troikas dos últimos anos? Não. Aprenderam os governos e os partidos europeístas com a enorme abstenção que há muito atinge a legitimidade do Parlamento Europeu? Não. Aprenderam os governos e os partidos centristas e de esquerda com o ascenso da extrema-direita xenófoba por toda a Europa? Não. Aprenderam os governos nacionais e os partidos europeístas com o crescimento de forças anti-União Europeia ou apenas eurocépticas por toda a Europa? Não. (...) Aprenderam alguma coisa? Não, não aprenderam nada.» - José Pacheco Pereira, no Público (texto integral aqui).