António José Seguro está em
grande. Garantiu neste sábado de manhã, na Comissão Nacional do PS, no
Vimeiro, que não se demite de secretário geral do PS e votou contra a proposta
de António Costa de convocação de um congresso extraordinário, uma alteração à
ordem de trabalhos que segundo os estatutos do partido apenas é possível quando
existe unanimidade. Em vez do congresso extraordinário, Seguro anunciou que vai
marcar congressos das federações distritais e
abrir um processo de discussão interna para que os militantes possam
escolher, em primárias abertas a militantes e a simpatizantes, quem deve ser o
candidato do PS a primeiro-ministro nas próximas legislativas. Sim, leram bem, embora
o processo não esteja ainda regulamentado, os estatutos do PS prevêem a escolha
do candidato a Primeiro-ministro em primárias, como se em eleições legislativas
os portugueses elegessem mais do que deputados.
Mas Seguro fez brilhar ainda mais
a sua genialidade. Para além da solução bicéfala que propôs, um
secretário-geral diferente do tal candidato a Primeiro-ministro, ou lá o que é,
Seguro propôs a alteração do sistema eleitoral com os círculos uninominais que
o PSD há muito defende e a redução do número de deputados na Assembleia da
República dos actuais 230 para 180, o sonho daqueles que confundem o direito a
sermos livres que o 25 de Abril nos trouxe com a sua liberdade de permanecerem
escravos de si próprios e, por essa razão, acreditam que o problema do nosso
país está no excesso de deputados no Parlamento e não nas consequências das suas
próprias escolhas.
António José Seguro mostrou que
sabe ler o seu partido. Seguro não caiu em desgraça por defender a continuidade
da austeridade nem por qualquer outra questão relacionada com opções políticas
que determinam a vida dos portugueses. Tudo começou no final de duas semanas em
que Seguro não podia ser criticado em absolutamente nada sem que logo
aparecesse um socialista a acusar o autor da crítica de estar a fazer o
"jogo da direita". Os socialistas ganharam as europeias desse Domingo
por escassa margem , Seguro exagerou nos festejos e houve gente que não gostou.
E foi tudo.
Os socialistas gostam de vitórias
mais folgadas, daquelas que garantem mais lugares para todos. É isto que Seguro
agora lhes oferece. Se o sistema eleitoral com círculos uninominais na
Inglaterra consegue reduzir
a menos de 10% a representação parlamentar de partidos com votações na casa dos
23% e garante a divisão de lugares quase exclusivamente entre apenas dois
partidos, juntar-lhe a redução do número de deputados de 230 para 180
certamente que será mais do que suficiente para repartir entre o seu partido e
o PSD a quase totalidade dos lugares na Assembleia da República. Se o que os
socialistas querem é lugares, Seguro trabalha para satisfazê-los. Se querem
outro que não ele próprio para Primeiro-ministro, Seguro mostra ter humildade e
abnegação suficientes para abdicar do lugar
a favor de quem o partido eleja para ser essa figura. Apenas não prescinde de continuar
a ser secretário-geral do partido, mas continua a provar que está muito bem onde
está. Para além de rasgo, Seguro demonstra perseverança. A lapa não larga o Rato.

