Os dias loucos do PS. António
José Seguro está na berlinda. Mário Soares começou a surrá-lo ontem logo de
manhã nas
páginas do DN, num artigo com recados para outros destinatários em que a
critica ao triunfalismo exagerado de Seguro a seguir a uma “vitória
de Pirro” aparece poucas linhas antes de um elogio implícito na citação das
palavras com que António Costa tinha surrado Seguro no dia anterior
convidando-o a reflectir mais e a comemorar menos.
Acto contínuo, poucas horas
depois, António Costa anuncia estar “naturalmente disponível para assumir essa
responsabilidade, de liderar essa mudança e garantir um governo sólido em
Portugal, porque isso é essencial para a mudança que os portugueses disseram muito
expressivamente querer”, isto é, a menor soma de votos de sempre dos três
partidos do nosso rotativismo e uma das vitórias mais escassas de sempre em
eleições europeias significam que é a ele, António Costa, que os portugueses
pedem para estar disponível para avançar. Conclusão complicada.
Mas a coisa complica-se ainda
mais. Complica-se porque “Disponível para avançar” é diferente de “avançar
mesmo”, não só porque naquela outra vez em que António Costa
se disponibilizou para avançar acabou por não o fazer, como porque, também
nessa outra vez, Costa não se opôs à mudança estatutária com que António José
Seguro se blindou na liderança do partido até depois das próximas legislativas.
Os consensos são uma complicação mesmo complicada.
Sobretudo quando são consensos
contrários ao interesse nacional. De que é que Seguro é acusado? Não de ter
estado ao lado do Governo em todas, e reforço o todas, as matérias
estruturantes e realmente importantes na determinação do presente e do futuro
do país. Não de ter geminado o PS com PSD e CDS
quando se amarrou ao malfadado Tratado Orçamental que condena os
portugueses a um empobrecimento progressivo e contínuo durante as próximas
décadas e impõe ao país a inversão do progresso económico e social que conheceu
até ao dia em que a austeridade chegou para ficar. Não de rejeitar liminarmente
falar sequer de renegociar a nossa dívida pública.
Todo este festival nada tem que ver
com políticas. A acusação que é movida a Seguro resume-se tão-somente à
escassez da vitória nas europeias e à forma tonta como tentou vendê-la aumentada. Há socialistas dispostos a
passar por cima dos estatutos que nunca tinham questionado até agora porque
acreditam que António Costa vai fazer aterrar na Portela resmas de charters
cheiinhos de votos no PS: até que ponto um partido que não respeita os seus próprios
estatutos será capaz de respeitar a Constituição da República? E há socialistas
que se agarram aos estatutos para evitarem uma disputa inevitável que quanto mais tarde
acontecer mais fragilizará o partido e o líder que alegadamente defendem: como é
que um líder que se furta ao combate político que é próprio da democracia no aconchego do seu
próprio partido pode ambicionar travar idêntico combate fora de casa pela liderança
do Governo do seu país? O poder pelo poder. O PS não aprendeu nada com as últimas
eleições.
E Mário Soares bem tentou: “as
eleições do passado domingo devem fazer repensar os partidos da esquerda, como
ocorreu na Grécia com Tsipras, cujo partido Syriza, ganhou as eleições. O que
infelizmente não aconteceu com o Bloco de Esquerda. Mas este não deve desanimar.”
Quem diria, o Bloco. Tantos ataques, tantas críticas, tantos votos perdidos por
não ter rasgado o contrato eleitoral com os seus eleitores e não ter
sacrificado os seus ideais associando-se ao PS na aprovação do PEC IV. Ao PS
que já era este PS do poder pelo poder, este PS que se rendeu aos mercados. Este
PS que nos faz tanta falta mas que assim não serve para nada.


