Na ressaca das Europeias que
fizeram o centrão abanar, o país ainda digere a surpresa do fenómeno Marinho
Pinto e da eleição de dois deputados
pelo MPT. Como foi possível, se os telejornais ainda lhe deram menos cobertura
mediática do que a que deram a CDU e Bloco? A resposta passa pela
caracterização do eleitor populista, que “sabe” de ouvir dizer, que prefere
programas de entretenimento ao
entretenimento oferecido pelos telejornais e se derrete quando ouve repetir com
voz bem grossa de uma boca a abarrotar de justiça aquelas “verdades” cheias de moralidade
que não importa se o são ou não porque “toda a gente sabe” que são. Marinho
Pinto há muito que se vinha moldando ao Sebastião desejado.
No vídeo, algumas intervenções
nos tempos de antena desses programas populares. A D. Mariazinha encantou-se ao
ouvir repetir o que ela própria há muito dizia, que “os políticos e os partidos
são todos iguais e que por isso o voto dela é que eles não levam”. O Sr. Pimpão
identificou-se ao ouvir repetir a
confirmação do que ele próprio há muito defendia, que “eles são todos uns corruptos
e que a única forma de os punir é não votando neles”. A D. Joaquina e o Sr.
Rabuja nunca ganharam mais do que 600 euros mas, de tanto ouvirem dizer,
convenceram-se que viveram a vida toda acima das suas possibilidades: aliviaram-se
quando Marinho Pinto lhes confirmou o pecado e os reconfortou isentando-os de
qualquer culpa. A D. Severa, que não acha nada natural dois gatos machos adoptarem
um periquito, maravilhou-se quando ouviu Marinho Pinto insurgir-se contra a co-adopção
por casais do mesmo sexo.
A fórmula não tem nada de novo: não
contrariar ideias feitas, falar ao paladar, rentabilizar a ignorância, capitalizar
o descontentamento. A porta já estava aberta. Com uma abstenção acima de 66%não
foi, não é nada difícil entrar. Marinho foi só o primeiro. E eles andam aí. Eles "andem" aí.
