A direita que vive à sua sombra e
sempre os defendeu põe paninhos quentes, a esquerda que nunca se deixou comprar
e sempre os apontou faz o que sempre fez, apontá-los. O primeiro exército é
muito mais numeroso do que o segundo nos terrenos onde se faz opinião pública e
aquilo que sempre seria um escândalo ruidoso está a passar de pantufas diante
dos narizes dos portugueses. Para ilustrá-lo, escolhi dois textos sobre o mesmo
tema, um do João Rodrigues, lido por centenas no blogue Ladrões de Bicicletas,
e outro do mediatíssimo Pedro Marques Lopes, lido por largos milhares no DN.
Aproveito que hoje é Domingo e, em princípio, tempo livre é o que menos falta,
para deixar como proposta adicional o documentário «Quando a Europa salva os
bancos, quem paga?» (2013), um excelente trabalho do jornalista de investigação
do Der Spiegel Harald Schumann. A legendagem em português é fruto do trabalho
dos membros de outro blogue, o Aventar. Por alguma razão que não a sua
legendagem este tipo de documentários nunca chega ao grande público.
«Com a excepção do trabalho de alguns
jornalistas, de que o melhor e mais recente exemplo é o livro
de Paulo Pena, a comunicação social, como até Camilo
Lourenço reconhece no seu pedido de desculpas, tem sido demasiado timorata
na cobertura dos mandos e desmandos do poder financeiro em Portugal. Pudera. É
que o dinheiro comanda muito respeitinho e tem propriedades estranhas de
inversão para as quais a referência clássica continua a ser Marx. Basta pensar
no que também acontece em alguma academia por aí: a que tem cátedras BCP,
salas BES e atribui Doutoramentos
Honoris Causa e outras
honras a banqueiros muito respeitáveis e a quem a próspera economia
portuguesa tanto deve; a que propagou a ideia de que os mercados financeiros
liberalizados são o máximo da eficiência. Basta pensar na eficiência com que o
capital financeiro se transmuta em poder politico, a tal “bancocracia”.
Surge esta conversa a propósito da extraordinária
entrevista ao Doutor Honoris Causa Ricardo Salgado feita pelo Negócios e do
pouco
que se vai sabendo sobre a transformação do Espírito Santo em zumbi, para a qual
já
chamámos a atenção: na melhor das hipóteses, o próprio Ricardo Salgado
atribui os “erros” de gestão à opacidade da estrutura do grupo, às “n”
holdings, tudo feito certamente para maximizar a transparência fiscal e
regulatória, tudo certamente tolerado pela regulação ligeira, pela trela solta
da finança. Aliás, a Espírito Santo Internacional estava sediada no refúgio
fiscal do Luxemburgo porque o Espírito Santo está sempre onde estão os
portugueses. A naturalidade com que fala do Luxemburgo, sem que haja qualquer
pergunta, é impressionante.
O
resto é a impunidade de sempre até à hipotética queda final do que era
considerado até há pouco tempo o homem mais poderoso da economia política
portuguesa: devemos estar muito agradecidos, segundo Ricardo Salgado, por este
nos ter “poupado” dinheiro ao evitar a capitalização estatal. Também devemos
estar agradecidos pelos créditos fiscais concedidos, na ordem das centenas de
milhões de euros, referidos de raspão. Enfim, vejamos se as propriedades
autodestrutivas de um sistema, que também apostou na austeridade, não deitam
tudo a perder.» – João Rodrigues, no Ladrões de
Bicicletas.
Não devo ter sido o único a ouvir que a
grande diferença na relação entre o poder político e o económico em Portugal,
da ditadura para a democracia, seria que antigamente era o ditador a definir
quem eram os ricos e que agora eram os ricos a decidir quem tinha o poder
político. A afirmação é manifestamente exagerada [ai sim, Pedro?],
provavelmente incorreta em termos históricos [não me digas, Pedro?] e injusta
para a nossa democracia [como eu te compreendo, Pedro, os portugueses adoram os moderadinhos]. É, sobretudo, muito influenciada pelo
ambiente atual em que existe a perceção de que o poder económico se globalizou
e se sobrepôs de maneira clara ao poder político [tudo normal, portanto, não é,
Pedro?]. (...)
Há coisas aparentemente pequenas que dizem
muito [então não são pequenas, Pedro]. Sabemos que um líder de um partido está
com grandes possibilidades de chegar a primeiro-ministro quando se sabe que vai
almoçar com o presidente do banco X ou Y e é certo e sabido que o primeiro
telefonema que um recém-primeiro-ministro recebe é de um presidente de um
grande grupo económico [então o exagero que apontavas ali atrás não é exagero nenhum, Pedro?].
Vem esta conversa toda [pois, paninhos quentes, Pedro] a propósito, e a
algum despropósito, da novela Espírito Santo, que vai tendo a cada dia que
passa um episódio mais degradante [só o descobriste agora, foi, Pedro?]. (...)»
– Pedro Marques Lopes, no DN.
