sexta-feira, 23 de maio de 2014

Que destino dar ao meu voto? Ora deixa cá ver.






Alfredo Barroso, fundador do PS, foi ontem a Coimbra manifestar a sua intenção de votar no BE para o Parlamento Europeu, justificando-se com o facto de os bloquistas atacarem o odioso Tratado Orçamental. “Sempre com medo de enfrentar a direita europeia, este PS não parece apostado em romper com o rotativismo, a alternância, manifesta intenção de fazer alianças com a direita”, afirmou, para criticar a “ilusão” de que se pode cumprir um plano de austeridade para o país com “mais doçura”. (Público)



Há candidaturas pró e há candidaturas contra o Tratado Orçamental da ultra-austeridade até ao final dos tempos. Por alguma razão – a desonestidade política tornada endémica na ausência de votos que a sancionem – houve candidaturas que tudo fizeram para que tema tãocentral não fosse discutido na campanha. Este será sempre um dos critérios mais importantes de qualquer leitura dos resultados destas eleições. A sua inspiradora, Angela Merkel, bem como os seus homens e mulheres de mão de Bruxelas e de Estrasburgo, irão conhecer o grau de receptividade dos portugueses às novas doses a que o Tratado obriga. Não contribuirei com o meu voto para que esse sinal seja um “podem continuar que nós aguentamos”.

Da mesma maneira, os partidos que o aprovaram, PSD e CDS, da Aliança Portugal, e PS terão um bom indicador sobre a folga de que ainda dispõem para conseguirem acabar o trabalho que iniciaram no início do milénio sem perderem nas urnas o poder que necessitam para concluir a empreitada. Também não será o meu voto que irá alimentar essa folga. Nem nos sonhos mais malucos alguma vez votaria Aliança Portugal. Era o que faltava que depois de terem feito dos últimos três anos o maior inferno do pós-democracia PSD e CDS não obtivessem agora uma estrondosa derrota eleitoral. E era o que faltava que o estrondo dessa derrota ecoasse na vitória do Tratado Orçamental a que o PS também se amarrou. Não há “austeridade inteligente” nem austeridade “docinha”. Votar PS também não é nada boa ideia.

Quero dizer um basta de subserviência aos eurocratas da senhora Merkel. Estou para lá de farto de ver a austeridade a fazer o progresso andar para trás. De ver ricos feitos à custa de uma miséria que se vê alastrar a olhos vistos. Do tal país que melhora porque a vida das pessoas piora. Portanto, porque o que se rejeita combate-se, O meu voto terá forçosamente como destino uma candidatura que se oponha frontal e coerentemente à continuidade das políticas que têm destruído o meu país, para uma das duas forças partidárias que irão sempre merecer o meu respeito enquanto continuarem a dar o seu melhor para defenderem como defendem, intransigentemente e sem subterfúgios, os meus e o interesse nacional e enquanto continuarem a cumprir escrupulosamente os  compromissos eleitorais com que se apresentam a votos. Retribuir com um voto o bom trabalho de quem todos os dias se bate por nós é o mínimo dos mínimos. E há duas candidaturas que preenchem estes requisitos: CDU e Bloco. Na impossibilidade de votar numa coligação que os juntasse, sou obrigado a escolher.

E a escolha não é nada difícil. Votarei Bloco de Esquerda. O Bloco tem um discurso mais consistente em questões que considero fundamentais: reestruturar a dívida, sim ou sim, permanecer no euro sem a chantagem constante que vai perpetuando a austeridade que nos destrói e nos tem a saque, permanecer ou sair do euro consoante seja mais vantajoso para Portugal e comporte menos custos económicos e sociais. . Não me tem agradado que a CDU venha mantendo um discurso ambíguo quanto à saída ou permanência no euro, ora dizendo-se completamente a favor, ora propondo um referendo, ora admitindo todos os cenários. O mesmo relativamente à reestruturação da dívida, que às vezes rejeita e outras não se percebe o que quer.

Também não me agrada aquela ortodoxia que continua a impedir que A CDU consiga fazer outra coisa que não rejeitar qualquer tipo de concertação com outras forças partidárias no Parlamento Europeu. Não esteve ao lado da esquerda europeia quando esta conseguiu pôr termo ao abuso do roaming que durante anos foi uma das minas de ouro das multi-nacionais de telecomunicações europeias. O mesmo na votação da Taxa Tobin sobre as transacções financeiras. O PCP endeusa a cleptocracia angolana, Isabel dos Santos é accionista de empresas de telecomunicações e de bancos, não sei, ficou-me a suspeita. 
O Bloco é membro do Partido da Esquerda Europeia, ao lado do Syriza  grego, da Esquerda Unida espanhola e da Frente de Esquerda francesa, que inclui o PCF. Como reconhecimento do importantíssimo e bem sucedido combate político que tem sido travado na Grécia, um foco de mudança no rumo seguido nesta Europa à deriva que há que incentivar o mais possível, O Bloco apoia a candidatura de Alexis Tsipras, do Syriza, à presidência da Comissão Europeia. O PCP, pelo contrário, mantém relações de proximidade com o QE estalinista grego, que rejeita qualquer entendimento interno com o Syriza e o ataca sistematicamente.

Não quero de forma alguma que estas linhas sejam entendidas como ataque ao PCP. O PCP oferece como garantia fazer tudo o que estiver ao seu alcance contra o malfadado Tratado Orçamental. Só isto vale bem um voto. Mas o Bloco de Esquerda e a qualidade que reconheço aos membros da lista encabeçada pela Marisa Matias não me deixam margem para hesitar. Voto Bloco. De pé, povos da Europa! De pé, como eu gosto.

Gostei de ler: "A outra abstenção violenta"


«Portugal é um dos países com eletricidade e gás mais caros da União Europeia, em termos de paridades de poder de compra. De acordo com o Eurostat, Portugal foi o terceiro país com maior aumento do preço da energia na União Europeia entre o segundo semestre de 2012 e idêntico período de 2013 e o segundo com maior aumento do preço do gás nesse período.
São dados importantes para equacionar cenários de retoma para a economia portuguesa, não são? Pois no preciso momento em que o País tomava conhecimento disto, o PSD acusava o PS de querer trazer de volta o vírus do despesismo, o PS respondia ao PSD dizendo que essa acusação faz lembrar o nazismo e o PSD replicava ao PS dizendo que se sentia muito ofendido com a comparação.
Houve quem voltasse a lembrar que os números do relatório do Eurostat se calhar mostram que isto da saída limpa vai ser um ai-jesus mas logo o PS disse que era preciso censurar o Governo e o ai-jesus, afinal, foi saber se o PS ia apresentar uma moção de censura ao Governo, quando, com quantos parágrafos, com que ângulo de ataque e redigida por quem. E entretanto o PSD disse que eleições europeias nunca fizeram cair governos e o PS respondeu que até ao dia 25 não ia falar da queda do Governo.
Correu tudo como se esperava, portanto. O trabalho de ambos para aumentar a abstenção foi supereficaz. As encenações para pôr as tropas a reunir são cada vez mais grotescas, os berros são cada vez mais em falsete e os truques do "nós fizemos as contas e vamos repor os salários daqui a um bocadinho" ou do "malta, cuidado que vem lá o outro, aquele, o mau muito mau mesmo" são coisa que já ninguém suporta.
No domingo, este trabalho vai render frutos, pois claro. Com protagonistas assim, o crédito do sistema político fica pior do que a dívida pública portuguesa nos ratings da Moody"s. Tudo convergirá para fazer da zanga e do cinismo uma consequência totalmente inconsequente face à sova da troika e do Governo. E é então que nos vem à memória uma pergunta batida: "Que força é essa que trazes nos braços que só te serve para obedecer, que só te manda obedecer?"
Engrossar a abstenção é o maior dos bónus a quem não os merece. E a não contaminação pela sujidade da política é o álibi moral perfeito para a comodidade de deixar a política apodrecer às mãos de medíocres que dela se servem para tudo menos para servir o povo. Há, entretanto, uma coisa óbvia: à medida que a abstenção foi aumentando, a qualidade da vida política e a qualidade do País não aumentaram, diminuíram sempre. Ou seja, a abstenção não contribuiu em nada para regenerar a qualidade da política. Foi puro alheamento, desresponsabilização mas totalmente estéril, sem o mínimo impacto na construção de alternativas.
A raiva que se demite é sempre uma ajuda para os causadores da raiva. Se quem está descontente não votar, a decisão caberá a quem está satisfeito. Assente num cinismo autojustificativo ou numa pura exaustão, a abstenção será falta de comparência ao confronto com quem manda e um prémio a quem faz campanha a entreter para não ter de falar do essencial. É também nisto que o povo grego nos dá lições de dignidade: a revolta nas ruas e nas praças não parou às portas das assembleias de voto. Esse é o grande desafio à coragem que nos está feito agora: trazer para o voto a força que nos cresce nos dedos, a raiva que nos nasce nos dentes. O voto de cada um/a pode mesmo mudar a sua vida. As nossas vidas.» - José Manuel Pureza, no DN.