A civilização e a porcaria. “Aqui
vai disto”. Conta-se que na Idade Média mandavam as boas maneiras mais rudimentares
que se dissesse esta frase para avisar quem eventualmente passasse na rua que
lá de cima alguém iria despejar um penico. “Aqui vai disto”, mas “disto” o quê?
A expressão tem um significado vago fora de um contexto de usos e costumes que
o incorpore como um aviso imediatamente perceptível por qualquer pessoa e, como
este tipo de processos evolutivos levam o seu tempo, tem toda a lógica admitir
que houve um antes e um depois do seu momento zero, um antes marcado pelo risco
e por uma conflitualidade latente e um depois em que, embora ainda longe desse salto
em frente a partir do qual a chuva se tornou tendencialmente inodora e
translúcida, pelo menos reduziram-se os prejuízos para a integridade física de
todos os que deixaram de sofrer retaliações após despejarem o penico
educadamente e de boa fé. O “aqui vai disto” foi um grande avanço
civilizacional, sem dúvida alguma.
A civilização e a porcaria.
Muitos séculos depois, muitos avanços civilizacionais depois, o penico é pouco mais
do que uma peça de museu. Tudo mudou. Atirar o que quer que seja pela janela,
por melhor boa fé que o gesto encerre, é hoje socialmente reprovável. Desde
pequenos somos educados a percepcionar o espaço público como um espaço que é de
todos e a não tolerarmos quem dele tente apropriar-se fazendo-o seu caixote do
lixo. Quem seja apanhado por um agente da autoridade a deitar um papel para o
chão sabe de antemão que é pouco provável que possa contar com a solidariedade de alguém se
tiver que pagar uma multa. Não passa pela cabeça de ninguém gabar-se do papel
que deitou para o chão do jardim. A educação cívica que todos recebemos
produziu em cada um de nós a percepção de que, embora um papelito não suje um
jardim, muitos papelitos rapidamente transformam um espaço aprazível numa
lixeira desagradável. A intolerância a tentativas de apropriação privada do
espaço público no nosso ideal colectivo de sociedade é um grande avanço
civilizacional, sem dúvida alguma.
A civilização e a porcaria. A
quatro dias de eleições, após doze anos de austeridade crescente que culminaram
com três anos de troika, por toda a comunicação social há sondagens que dão uma
vitória esmagadora aos três partidos que chegaram a um consenso para
prolongarem até à eternidade os sucessivos “aqui vai disto” que vão fazendo a
porcaria chegar ao céu cada vez mais rapidamente. Metade dos portugueses não
irá fazer nada para impedir que oito em cada dez da outra metade dêem 18
penicos em 21 possíveis aos peniqueiros do costume. Alguns dos todos iguais da metade abstencionista
gabam-se da sua indolência heróica, que um dia há-de deixar de servir de
almofada aos penicos do poder. Outros dizem que o seu papelinho não muda nada,
que não será por sua causa que o jardim deixará de ser esterqueira. Outros
ainda, mais espertos, opinam que não é nada com eles, que a porcaria dos “aqui
vai disto” sempre cai na cabeça do vizinho, até porque eles desenvolveram um
jeitinho especial para se safarem, cupões de desconto, marcas brancas e essas
coisas que sempre têm à mão para se esquivarem quando ouvem mais um “aqui vai
disto”. Os fazedores de opinião referem-se ao fenómeno como simplesmente “preocupante”,
afinal não é nenhuma multidão que desatou a emporcalhar os belos jardins deste
nosso querido país. Reprovação social, nem vê-la. O direito inalienável a
choramingar as desgraças da vida debaixo de um copioso duche de trampa é a maior conquista destes
quarenta anos de democracia caída das alturas sem se fazer anunciar. A
liberdade é um grande avanço civilizacional, sem dúvida alguma. Portanto, aqui vai disto mais uma vez.

