quarta-feira, 21 de maio de 2014

Povo que lavas no rio



As hostes laranja-rosa estão que nem podem. Mário Soares não gostou de ter sido convidado por António José Seguro à última da hora para participar no encerramento  da campanha, diz que vota PS à mesma mas recusou o convite. "Oh, eu estarei sempre com o Soares, mas também gosto do Seguro". "Ai! Eu do Seguro não gosto, nem do Assis, mas faço como o Soares, também voto PS". "Ui! Se eles são assim incompetentes até nos convites, se não se entendem nem entre eles próprios, imaginem no resto! É por isso que eu voto Aliança Portugal!" Mas o que é que tanto entusiasma esta gente? Que mais dá votar PS ou Aliança Portugal? Em que é que estão a votar? O Tratado Orçamental que todos eles aprovaram consagra a austeridade como a única política possível em toda a União Europeia. Em entrevista ao jornal Leipziger Volkszeitung, Angela Merkel pintou as eleições do próximo Domingo como mera formalidade porque "o meu [seu] partido [os conservadores da CDU] e os sociais-democratas [que estão coligados com a CDU no Governo] vai apresentar uma proposta consensual para a formação da nova Comissão Europeia". Qual Schulz, qual Juncker,,se é que alguma vez existiu alguma diferença substancial entre ambos. Segundo fontes bem colocadas, A presidência da Comissão Europeia já está definida e irá ser novamente designada por "consenso", leia-se, por Ângela Merkel. O nome avançado é o de Christine Lagarde, actual directora-geral do FMI, a tal organização de benfeitores que fez jorrar espumante na semana passada por alegadamente ter deixado o país. Que filme é que esta malta anda a ver?

Por falar em reformas estruturais (mesmo necessárias)


Eduardo Catroga (EDP/PSD), 639 mil euros anuais, 45 mil euros mensais, 1500 euros diários (acumula com pensão de 9600 euros mensais). Negociou a privatização da empresa e foi para lá trabalhar depois de privatizada.  

Segundo uma análise comparativa do Eurostat aos preços da electricidade e do gás praticados na União Europeia no segundo semestre de 2013, o custo da energia em Portugal estava entre os mais elevados quando medido através de paridades do poder de compra (ppp), uma medida que leva em conta as diferenças do custo de vida entre os vários países. No caso da electricidade, o gabinete europeu de estatísticas determinou que o custo médio (já com impostos) para um agregado familiar português era de 26,2 euros em ppp para um consumo de 100 kWh, um valor que só era superado pelos 28,1 euros da Alemanha e os 28,2 euros do Chipre. Medido em euros, o valor médio pago pelos consumidores portugueses era de 21,3 euros, acima da média da UE, que era de 20,1 euros. No caso do gás o cenário também era mais penalizador para os consumidores portugueses, de acordo com a análise do Eurostat. Os preços ajustados ao poder de compra situavam a factura média em 11,5 euros por 100 kWh, um valor apenas ultrapassado pelos 11,6 euros praticados na Bulgária.


Vagamente relacionado: A EDP terminou 2013 com um lucro de 1.005 milhões de euros, isto é, 2,76 milhões por dia. Segundo o relatório de Governo da Sociedade, em 2013, António Mexia beneficiou de quase 738 mil euros de remuneração fixa e 250 mil euros de componente variável, num total de quase 1 milhão de euros, cerca de 2700 euros por dia. Globalmente, a comissão executiva da EDP recebeu em 2013 remunerações no valor de 5,03 milhões de euros.

Um pouco mais vagamente ainda: A Galp Energia encerrou 2013 com um lucro de 310 milhões de euros (quase 1 milhão por dia), menos 13,9% do que no ano anterior, embora com prémios de desempenho atribuídos à gestão. O presidente executivo da Galp auferiu, em 2013, de uma remuneração fixa de 1.069.600 euros, a que se somaram 305.600 euros de remuneração variável e 267.400 euros em PPR (Plano de Poupança Reforma), o que totaliza 1.642.600 euros, 4500 euros diários. . O montante anual da remuneração auferida de forma agregada pelos membros dos órgãos de administração da Galp foi de 5.057.277,09 euros, em 2013, sendo 4.250.553,80 euros a título de remuneração fixa e 806.723,29 euros como remuneração variável.

Beneficiar o infractor



Que Europa é esta, que há 30 anos nos aliciou com a promessa de nos ajudar a recuperar do atraso que herdámos de uma ditadura de quase meio século e agora, ao mesmo tempo que nos impõe a destruição do edifício social que nos ajudou a construir, é ela própria a ditadora que nos põe a pagar a recapitalização da banca alemã e francesa com os recursos que nos obriga a desviar do investimento no nosso desenvolvimento económico e social? O que fazer para reestruturar e tornar pagável uma dívida que é impagável e nos condena ao declínio? Como conviver com esta ditadora que antes nos dava e agora nos tem a saque? Que vantagens temos em continuar a aceitar incondicionalmente as regras que nos são impostas por eurocratas sem qualquer legitimidade democrática? E que papel queremos assumir nesta Europa, a de submissos bons alunos da nossa auto-destruição ou o de membros de pleno direito empenhados numa construção europeia alicerçada nos valores da democracia e de um desenvolvimento económico orientado para o bem-estar dos seus cidadãos?


Estas são algumas das questões que deveriam ocupar as várias candidaturas aos 21 lugares no Parlamento Europeu em disputa nas eleições do próximo Domingo. Política. É isto que está em jogo. Nessa medida, responder-lhes, seja lá qual for a resposta, é respeitar o eleitor e a democracia. É dar interesse à campanha eleitoral. É incentivar o cidadão a envolver-se no processo democrático. Como tal, este deveria ser o critério que deveria presidir à escolha dos alinhamentos dos diários de campanha de estações de rádio e de televisão, até porque a atenção dada por quem assiste às reportagens sobre a campanha da primeira e da segunda candidatura de qualquer alinhamento no final de um dia de trabalho é muito superior à que consegue dar às peças seguintes, até porque quem vê hierarquiza inconscientemente o que vê primeiro como principal e como norma e o que vê depois como acessório e desvio ao padrão. Quem quisesse falar sobre política deveria aparecer primeiro, quem quisesse fazer teatro e brincar aos insultos aparecia depois. Como sabemos, e não é de agora, este não é o critério.


E a ordem é sempre a mesma. As candidaturas que não se esquivam a apresentar as suas propostas, as que respondem a questões como as que se lêem ali atrás, CDU e Bloco de Esquerda, aparecem sempre ou em terceiro ou em quarto lugar nos alinhamentos. O primeiro e o segundo na sequência são lugares cativos das reportagens sobre a campanha ou da coligação dos partidos do Governo ou do PS. Precisamente aquelas que evitam falar sobre política. Exactamente aquelas que fazem de tudo para fugirem às questões que dão motivos às pessoas para não se absterem de participar numa decisão que, quer votem, quer não votem, será determinante no rumo que as suas vidas tomarão a partir daí.


A campanha está a ser pobre e aborrecida? Não. A campanha está a ter uma cobertura mediática que a faz paupérrima e chatíssima. PSD, PS e CDS assinaram o memorando, aprovaram o Tratado Orçamental, não querem ouvir falar em reestruturação da nossa dívida pública, partilham a mesma subserviência à Europa da senhora Merkel, chafurdam no mesmo lamaçal que coroa com cargos excepcionalmente bem remunerados os seus fieis servidores. Resta-lhes tentarem diferenciar-se com peixeiradas e fogos de artifício, o que podem fazer sem perderem o comando da agenda mediática garantido por toda a comunicação social. Eles são o prato principal e o resto é o resto, uns malucos que dizem para ali umas coisas quando já ninguém está a prestar atenção. Se a abstenção aumentar drasticamente, tanto melhor. Conseguem eleger-se com ainda menos votos do que da vez anterior. Eficácia redobrada, portanto. O abstencionismo sempre beneficia os infractores.