Que Europa é esta, que há 30 anos
nos aliciou com a promessa de nos ajudar a recuperar do atraso que herdámos de
uma ditadura de quase meio século e agora, ao mesmo tempo que nos impõe a
destruição do edifício social que nos ajudou a construir, é ela própria a
ditadora que nos põe a pagar a recapitalização da banca alemã e francesa com os
recursos que nos obriga a desviar do investimento no nosso desenvolvimento
económico e social? O que fazer para reestruturar e tornar pagável uma dívida
que é impagável e nos condena ao declínio? Como conviver com esta ditadora que
antes nos dava e agora nos tem a saque? Que vantagens temos em continuar a
aceitar incondicionalmente as regras que nos são impostas por eurocratas sem
qualquer legitimidade democrática? E que papel queremos assumir nesta Europa, a
de submissos bons alunos da nossa auto-destruição ou o de membros de pleno
direito empenhados numa construção europeia alicerçada nos valores da
democracia e de um desenvolvimento económico orientado para o bem-estar dos
seus cidadãos?
Estas são algumas das questões que
deveriam ocupar as várias candidaturas aos 21 lugares no Parlamento Europeu em
disputa nas eleições do próximo Domingo. Política. É isto que está em jogo. Nessa medida, responder-lhes,
seja lá qual for a resposta, é respeitar o eleitor e a democracia. É dar
interesse à campanha eleitoral. É incentivar o cidadão a envolver-se no
processo democrático. Como tal, este deveria ser o critério que deveria
presidir à escolha dos alinhamentos dos diários de campanha de estações de
rádio e de televisão, até porque a atenção dada por quem assiste às reportagens
sobre a campanha da primeira e da segunda candidatura de qualquer alinhamento no
final de um dia de trabalho é muito superior à que consegue dar às peças seguintes,
até porque quem vê hierarquiza inconscientemente o que vê primeiro como
principal e como norma e o que vê depois como acessório e desvio ao padrão. Quem
quisesse falar sobre política deveria aparecer primeiro, quem quisesse fazer
teatro e brincar aos insultos aparecia depois. Como sabemos, e não é de agora,
este não é o critério.
E a ordem é sempre a mesma. As
candidaturas que não se esquivam a apresentar as suas propostas, as que
respondem a questões como as que se lêem ali atrás, CDU e Bloco de Esquerda,
aparecem sempre ou em terceiro ou em quarto lugar nos alinhamentos. O primeiro e
o segundo na sequência são lugares cativos das reportagens sobre a campanha ou
da coligação dos partidos do Governo ou do PS. Precisamente aquelas que evitam
falar sobre política. Exactamente aquelas que fazem de tudo para fugirem às
questões que dão motivos às pessoas para não se absterem de participar numa
decisão que, quer votem, quer não votem, será determinante no rumo que as suas
vidas tomarão a partir daí.
A campanha está a ser pobre e
aborrecida?
Não. A campanha está a ter uma cobertura mediática que a faz
paupérrima e chatíssima. PSD, PS e CDS assinaram o memorando, aprovaram o Tratado
Orçamental, não querem ouvir falar em reestruturação da nossa dívida pública, partilham
a mesma subserviência à Europa da senhora Merkel, chafurdam no mesmo lamaçal que
coroa com cargos excepcionalmente bem remunerados os seus fieis servidores. Resta-lhes
tentarem diferenciar-se com
peixeiradas e fogos de artifício, o que podem fazer
sem perderem o comando da agenda mediática garantido por toda a comunicação social.
Eles são o prato principal e o resto é o resto, uns malucos que dizem para ali umas
coisas quando já ninguém está a prestar atenção. Se a abstenção aumentar drasticamente,
tanto melhor. Conseguem eleger-se com ainda menos votos do que da vez anterior.
Eficácia redobrada, portanto. O abstencionismo sempre beneficia os infractores.