quinta-feira, 15 de maio de 2014

Gostei de ler: “Socialistas”



«Na aproximação das eleições europeias, levantou-se entre governos e partidos do centrão liberal-conservador e socialista uma maré de preocupação com a ascensão dos populistas eurocéticos e da extrema-direita (uns e outra a mesma coisa em muitos casos). “Todos invocam o peso da crise nas escolhas extremistas. Mas cada um age como se se tratasse de um fenómeno natural, lamentável mas inevitável. A desregulação financeira, o desmantelamento dos direitos sociais, a redução do poder de compra das classes médias, forçar os assalariados a concorrerem entre si, tudo isto é apresentado como uma fatalidade e como se, pelo contrário, não resultasse de decisões concretas tomadas por indivíduos concretos – os governantes e os seus delegados europeus (e à cabeça a Comissão)” (Martine Bulard, “Nouveaux visages des extrêmes droites”, Manière de voir. Le Monde Diplomatique, Abril-Maio 2014).

Era bom sabermos com quem contamos para contrariar o avanço do racismo, do populismo, do neofascismo. Mas o que mais contribui para este fenómeno é levarmos anos a ouvir que o neoliberalismo económico em geral e o austeritarismo em particular são inevitáveis na era da globalização. O consenso – de que Cavaco tanto fala – foi sempre a marca das opções de política económica dos governos das direitas e dos socialistas que se apresentam como a “esquerda de governo” por essa Europa fora. Cavaco começou as privatizações, Guterres multiplicou-as. Durão começou a austeridade, Sócrates levou-a até aos cortes de salários e aos PECs, e Passos e Gaspar deram-lhe a forma infernal que ela assume desde há três anos. Consenso e continuidade, portanto. Vota-se num para pôr de lá para fora outro – mas continua tudo na mesma.

É esta uma característica do sistema político português? Não, claro! Na Alemanha, o social-democrata Schröder desregulou o mercado de trabalho e forçou a descida de salários. Perdeu eleições (2005) e o SPD não se lembrou de melhor que de fazer uma Grande Coligação com a direita de Merkel, a que regressou há meses atrás, depois desta mulher ter imposto ao Sul da Europa a receita da mais terrível pobreza dos últimos 40 anos.

Nestas eleições, os socialistas europeus querem-nos convencer, contudo, que uma vitória sua permitiria salvar-nos da “actual maioria liberal-conservadora em todas as instituições da UE” e na maioria dos governos, que “não consegue dar uma resposta eficaz” à “pior crise económica que a Europa enfrenta desde os anos 30”. A quem se estarão a referir? Ao Presidente do Eurogrupo, o socialista holandês Jeroen Dijsselbloem (sim, aquele que se enganou quando incluiu no seu currículo um mestrado que nunca fez), que repetidamente insiste que o governo português, e o grego, e o espanhol, não podem relaxar nas medidas de austeridade que ele próprio tem proposto? Ao Presidente do Parlamento Europeu, o social-democrata alemão Martin Schultz, que sempre elogiou a política de austeridade imposta à Europa pelo governo Merkel de que o seu próprio partido, o SPD, faz agora parte? Ou será ao vice-governador do BCE, Vítor Constâncio, um ex-líder do PS, essa águia de visão aguda das fraudes bancárias portuguesas, que nunca cessou de pedir a Passos, a Portas, a Gaspar e a Seguro que, fizessem o que fizessem, não colocassem em questão as políticas comprometidas com as equipas da troika de que o BCE é uma das componentes? Ou será do socialista François Hollande, que dirige a segunda economia europeia, e que, depois de ser eleito em 2012 com a promessa de revogar esse espartilho austeritário que é o Tratado Orçamental, que contraria tudo quanto os socialistas europeus dizem sobre o Estado Social, não só fez marcha atrás, como passou a adoptar a política de cortes que Merkel e os liberalões da Comissão Barroso lhe pedem? Lembremo-nos que, no mesmo ano, os socialistas gregos cometeram o seu hara-kiri político ao aceitarem integrar o governo da direita, de Antonis Samaras, que levou mais longe do que eles próprios haviam feito o mais radical e devastador dos programas austeritários europeus, que deixou metade dos gregos na pobreza...

No Manifesto Eleitoral Europeias 2014 que o PS divulgou denuncia-se o governo de Passos “que se aliou ao que a Europa tem de mais conservador, para impor esta marcha forçada para o empobrecimento e a subalternização política.” Ou seja, queixa-se o PS de que Passos e Portas se aliaram com o socialista que dirige o Eurogrupo, os socialistas que dirigem o governo francês, os que estão no governo alemão e numa infinidade de governos do Norte da Europa, o socialista que está na direcção do BCE, o socialista que preside ao Parlamento e que o PS apoia para presidir à Comissão...

No velho debate sobre como é que, à esquerda, se cria uma alternativa à destruição das políticas sociais (na educação, na saúde, na segurança social) que garantiram um bem-estar relativo e asseguraram décadas de paz à Europa, era bom que os que acham que sem os socialistas ela não se cria se lembrassem de que PS temos. “Temos de mudar de políticas e já!”, diz o seu manifesto. Quanta razão! Comece por si próprio, pelas políticas que o governo Sócrates assumiu, e por todas aquelas que os seus aliados europeus nos impõem!» – Manuel Loff, no Público.

Sinais positivos


Uma boa e uma má notícia. Poderíamos estar a falar de um tratamento inovador regenerador da coluna vertebral que possibilitasse devolver a capacidade de andar a paraplégicos mas que, devido aos seus elevados custos,  as autoridades sanitárias o restringissem a doentes com idade inferior a 50 anos. Seria uma óptima notícia para o doente com 50 anos menos um dia. Pelo contrário, saber da existência de um tratamento que não lhe seria ministrado por ter nascido um dia antes do que devia seria uma péssima notícia para o doente que já tivesse completado os 50 anos no dia anterior ao fixado. Seria cruel. Seria uma monstruosidade. Ainda assim, apesar de cruel e de monstruoso,  o critério da idade desta notícia do futuro é objectivo e de fácil avaliação por qualquer pessoa.
Mas regressemos ao presente. As notícias de hoje, a boa e a má, são ligeiramente diferentes. Mas a questão que suscitam é a mesma: que prioridades e que critérios rigorosos serão aqueles que o infarmed alega para se arrogar o direito de negar a doentes com hepatite C o medicamento inovador que cura 90% dos casos, mesmo os mais graves, que estará disponível em Portugal a partir  de Junho? É de duvidar que sejam outros que não a restrição orçamental da unidade hospitalar onde cada doente seja tratado. Um tratamento de apenas três meses custa 48 mil euros. Em Saúde, é muito. Em SWAPS, em PPPs, em rendas da energia ou em juros são uma ninharia que não paga nem um minuto decidido sem hesitações e sem remorso. O “não há dinheiro” repetido por governantes e respectiva máquina mediática aplica-se selectivamente apenas à população segundo um critério extremamente objectivo. Há sempre dinheiro para tudo menos para as pessoas.
E, ao mesmo tempo que a comunicação social vai debitando notícias que produzem em quem lê e quem ouve a habituação à ideia  de um regresso resignado a um passado em que a Saúde era um privilégio do universo restrito daqueles que tinham dinheiro para pagá-la, o poder político faz um esforço no sentido de encontrar ofertas alternativas incomparavelmente mais baratas. Alexandra Solnado apresenta-se nas revistas que algumas franjas da nossa população consomem como sucedâneas da Cultura e do conhecimento científico a que são alérgicas como uma terapeuta da alma que desenvolveu a capacidade de viajar por vidas passadas. Conversa regularmente com Jesus Cristo, o próprio. Respondeu afirmativamente ao convite que a própria reconhece ser um “positivo sinal de evolução que acompanha a tendência destes novos tempos e que já atinge uma instituição tão reconhecida" e estará presente nas jornadas que estão a decorrer no Parlamento, onde, com uma experiência adquirida ao longo de 60 mil atendimentos, dará uma palestra sobre "como as memórias das vidas passadas interferem na saúde" e como a "limpeza das memórias" pode contribuir para a saúde e o bem-estar”. “Evolução”, “novos tempos” e “abertura”, porque só o preconceito se agarra ao passado. “Sinais positivos”, portanto. Poder tratar a hepatite C ou outra qualquer maleita limpando a alma de manchas de vidas passadas é uma excelente notícia.


Actualização: a conferência de Alexandra Solnado foi cancelada à ultima hora.