Os triunfos pedagógicos do bem
sobre o mal no final de quase todas as histórias que nos enriqueceram as
meninices e o triunfo do mal sobre o bem quase sempre no final dos contos do
vigário que nos foram empobrecendo ao longo de toda a nossa existência adulta.
Pelo meio, na vida de muitos de nós, o 25 de Abril de 1974.
Ainda não tinha seis anos de
idade quando se deu a revolução. Tinha completado os sete há pouco quando com os
meus pais e irmãs regressámos a Portugal. Fomos viver para Almada, cidade onde
muita gente trabalhava na indústria, a extinta Lisnave era ali, e já então com
forte implantação comunista, se bem que naquela altura quase toda a gente se
dizia comunista mesmo que não fosse. Naturalmente, eu também era “comunista”.
Os comunistas eram os bons e os fascistas eram os maus, especialmente os PIDES,
os piores de todos, que por isso mesmo me ia inteirando se já tinham sido todos
presos e exemplarmente punidos. Evidentemente que aos sete anos é impossível
saber o que é o comunismo, mas a coisa encaixava que nem uma luva no meu
imaginário infantil de bons e de maus, sem nada digno de registo no meio.
Só vivemos em Almada um ano.
Mudámo-nos quando já muito pouca gente
se dizia comunista sem o ser. Mudámo-nos para uma cidade mais ao Norte, para a
Figueira da Foz, onde creio nunca houve muita gente a dizer-se abertamente
comunista, ainda que o fosse. Eu cá continuava a ser. Cidade estranha, aquela,
em que “seu comunista” era insulto e onde as pessoas faziam má cara quando me
dizia comunista. Por feitio, aquilo divertia-me. Cheguei a apanhar umas
reguadas “fascistas” por me atrever a ser “comunista” no recreio da escola e
uns puxões de orelhas por chamar “PIDEs” aos queixinhas. Apesar de não ser insulto, “PIDE”
também não era mimo. Pior que PIDE era ser “vermelho”. Isso é que não. Até
porque “toda a gente sabia” que os bons meninos e meninas não querem saber da
política para nada, muito menos retaliam puxões de orelhas de professores com
baldes de água fria pela cabeça abaixo naquela que justamente se chamava Rua
dos Banhos no tempo do saudoso Salazar.
A minha geração cresceu nesta escola da obediência que sobreviveu à revolução e continuou a deformar muito depois de 74. Tudo isto o recordo sem réstia de
traumas de criança , embora com mágoas do adulto que se foi formando depois. Hoje,
mais uma vez, tropecei numa notícia apenas possível num país onde se fez uma
revolução e se depôs uma ditadura sem julgar e punir os seus carrascos. Não
podemos querer que um povo que assiste à condecoração do PIDE Rosa Casaco com a
Ordem da Liberdade e à pensão que foi negada a Salgueiro Maia não se
torne um povo videirinho e sem qualquer tipo de valores de Justiça. É anormalmente
natural que a grande maioria que viu devolvida à oligarquia que enriqueceu à
sombra da ditadura toda a fortuna que sugou ao povo que explorou e fez seu escravo
acrescida de uma compensação pelos anos em que a democracia não lhe
proporcionou as mesmas rendas desenvolva o instinto de nunca afrontar
abertamente os fortes e poderosos mesmo quando estes cometem os crimes mais
hediondos. Não é de esperar que um povo que assiste ao desprezo com que o
regime trata os resistentes anti-fascistas, que nem sequer se deu ao trabalho
de contabilizar quantos morreram às mãos da ditadura, e nega a palavra aos
heróis de Abril na cerimónia do 40º aniversário da revolução seja um povo com
ideais que se bata intransigentemente pelos seus e valorize quem faz o que pode
para o defender numa democracia corrompida pela sua própria indolência. Não se pode
esperar grande Justiça de um regime que permitiu que aqueles juízes que julgavam
para a ditadura continuassem a julgar para a democracia sem grande sobressalto.
Esperto é aquele
que se safa. Parvo é aquele que se insurge contra a cultura do favor e do
sempre foi assim. E, claro, tudo pode acontecer. Tudo vai acontecendo.
Uma Justiça para ricos e outra
para pobres. Tem sido cada vez mais assim e sem chatices de maior. A notícia que referi atrás tem uma
parva e dois espertos. A parva recusou-se a engolir a versão da quadrilha Jardim
Gonçalves segundo a qual os ex-administradores não conheciam os beneficiários
das 17 offshores e dos empréstimos que lhes foram sendo concedidos e foram-nos
aprovando, empréstimo atrás de empréstimo, milhão após milhão, com base na
confiança nos "soldados rasos" da instituição, isto é, nos
funcionários dos escalões inferiores. Os dois espertos, pelo contrário, acham possível
– disseram que acham, é o que conta – que haja bancos que financiem milhões de
euros e só o 'homem do balcão' ou, no máximo, o seu superior, saiba a
identidade do cliente, cabendo aos funcionários no fundo da linha hierárquica toda
a responsabilidade da transacção e aos administradores e quadros superiores confiar
nos primeiros até ao infinito. Resultado: 2-1, ganharam os espertos, que podem alimentar
fundadas esperanças quanto ao futuro das suas carreiras. A
quadrilha (afinal) não falsificou documentos. Bem me parecia. Parafraseando o Capitão sem medo, "meus senhores, como todos sabem, há diversas modalidades de Estado: os Estados sociais, os corporativos e o estado a que chegámos". Aqui estamos.
