Aproveitar uma crise provocada por décadas de impunidade e delinquência banqueira para impor uma agenda de reconfiguração social de concentração de riqueza e pôr países como Portugal, Grécia e Irlanda a pagar a recapitalização da banca que a gerou. Um sector financeiro que, ao invés de ser severamente punido, contou com o poder político para recompensar as suas loucuras. É uma tese que tenho aqui defendido repetidamente, aliás
apontada por muita gente bem mais conhecedora do que eu. Uma tese que fica bastante reforçada pelos pormenores revelados por alguém como Philippe Legrain, que foi conselheiro económico independente de
Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, entre Fevereiro de 2011 e
Fevereiro deste ano, o que lhe permitiu acompanhar por dentro o essencial da
gestão da crise do euro. A sua opinião, muito crítica, do que foi feito pelos
líderes do euro, está expressa no livro que acabou de publicar “European
Spring: Why our Economies and Politics are in a mess”. A tese do seu livro é
que a gestão da crise da dívida, ou crise do euro, foi totalmente inepta,
errada e irresponsável, e que todas as consequências económicas e sociais
poderiam ter sido evitadas. Abaixo republico parte da entrevista que hoje se lê no Público.
Porque é que as coisas se passaram assim? O que é que aconteceu?
Uma grande parte da explicação é
que o sector bancário dominou os governos de todos os países e as instituições
da zona euro. Foi por isso que, quando a crise financeira rebentou, foram todos
a correr salvar os bancos, com consequências muito severas para as finanças
públicas e sem resolver os problemas do sector bancário. O problema tornou-se
europeu quando surgiram os problemas da dívida pública da Grécia. O que teria
sido sensato fazer na altura – e que era dito em privado por muita gente no FMI
e que este acabou por dizer publicamente no ano passado – era uma
reestruturação da dívida grega. Como o Tratado da União Europeia (UE) tem uma
regra de “no bailout” [proibição de assunção da dívida dos países do euro pelos
parceiros] – que é a base sobre a qual o euro foi criado e que deveria ter sido
respeitada – o problema da Grécia deveria ter sido resolvido pelo FMI, que
teria colocado o país em incumprimento, (default), reestruturado a dívida e
emprestado dinheiro para poder entrar nos carris. É o que se faz com qualquer
país em qualquer sítio. Mas não foi o que foi feito, em parte em resultado de
arrogância – e um discurso do tipo ‘somos a Europa, somos diferentes, não
queremos o FMI a interferir nos nossos assuntos’ – mas sobretudo por causa do
poder político dos bancos franceses e alemães. É preciso lembrar que na altura
havia três franceses na liderança do Banco Central Europeu (BCE) – Jean-Claude
Trichet – do FMI – Dominique Strauss-Kahn – e de França – Nicolas Sarkozy.
Estes três franceses quiseram limitar as perdas dos bancos franceses. E Angela
Merkel, que estava inicialmente muito relutante em quebrar a regra do “no
bailout”, acabou por se deixar convencer por causa do lobby dos bancos alemães
e da persuasão dos três franceses. Foi isto que provocou a crise do euro.
Como assim?
Porque a decisão de emprestar
dinheiro a uma Grécia insolvente transformou de repente os maus empréstimos
privados dos bancos em obrigações entre Governos. Ou seja, o que começou por
ser uma crise bancária que deveria ter unido a Europa nos esforços para limitar
os bancos acabou por se transformar numa crise da dívida que dividiu a Europa
entre países credores e países devedores. E em que as instituições europeias
funcionaram como instrumentos para os credores imporem a sua vontade aos
devedores. Podemos vê-lo claramente em Portugal: a troika (de credores da zona
euro e FMI) que desempenhou um papel quase colonial, imperial, e sem qualquer
controlo democrático, não agiu no interesse europeu mas, de facto, no interesse
dos credores de Portugal. E pior que tudo, impondo as políticas erradas. Já é
mau demais ter-se um patrão imperial porque não tem base democrática, mas é
pior ainda quando este patrão lhe impõe o caminho errado. Isso tornou-se claro
quando em vez de enfrentarem os problemas do sector bancário, a Europa entrou
numa corrida à austeridade colectiva que provocou recessões desnecessariamente
longas e tão severas que agravaram a situação das finanças públicas. Foi
claramente o que aconteceu em Portugal. As pessoas elogiam muito o sucesso do
programa português, mas basta olhar para as previsões iniciais para a dívida
pública e ver a situação da dívida agora para se perceber que não é, de modo
algum, um programa bem sucedido. Portugal está mais endividado que antes por causa
do programa, e a dívida privada não caiu. Portugal está mesmo em pior estado do
que estava no início do programa.
Quando diz que os Governos e instituições estavam dominados pelos
bancos quer dizer o quê?
Quero dizer que os Governos
puseram os interesses dos bancos à frente dos interesses dos cidadãos. Por
várias razões. Em alguns casos, porque os Governos identificam os bancos como
campeões nacionais bons para os países. Em outros casos tem a ver com ligações
financeiras. Muitos políticos seniores ou trabalharam para bancos antes, ou
esperam trabalhar para bancos depois. Há uma relação quase corrupta entre
bancos e políticos. No meu livro defendo que quando uma pessoa tem a tutela de
uma instituição, não pode ser autorizada a trabalhar para ela depois. Continuar a ler sobre a saída limpa da banca alemã e francesa.
