Em grande parte porque há sempre quem rejubile
quando cortam salários e direitos laborais ao vizinho, a regra dos últimos anos
tem sido a alternância. Uma vez cortam no público, na vez seguinte cortam no
privado, para a seguir cortarem novamente no público e pouco depois cortarem no
privado outra vez. Há sempre quem aplauda e há sempre quem desespere em cada
fase deste jogo em que todos perdem, que beneficia da rivalidade fratricida que
opõe trabalhadores a trabalhadores e da falta de memória de um povo que vai
alimentando pelo voto ou pela abstenção outra alternância, esta dentro de um arco inimigo
do seu bem-estar.
Vai calhando a vez a todos. É a
vez dos trabalhadores do privado. Prémios de assiduidade, subsídios de turno,
pagamento acrescido do trabalho nocturno ou de isenção de horário de trabalho.
Estes são alguns dos benefícios que poderão desaparecer ou sofrer uma redução
quando os contratos colectivos caducarem, o que implicará uma redução da
retribuição dos trabalhadores. A medida está prevista numa proposta de
alteração ao Código do Trabalho ontem enviada aos parceiros sociais e que
começa a ser discutida na próxima
terça-feira. Vira o disco e toca o mesmo. É sempre a perder.
Atrás aludi à falta de memória
dos portugueses. Bem sei que muita gente segue acaloradamente o
Benfica-Sporting que vai eternizando o rotativismo dentro do arco do sempre a
perder. Também que há sempre quem esperneie quando se faz algum reparo ao
legado de José Sócrates, ou por interesse material pessoal, ou por mera
clubite, por estupidez natural ou simplesmente porque admitir certos factos os
deixaria órfãos do todo que lhes deu tanto trabalho a entranhar. O nosso horizonte
seria bastante menos negro se, ao invés de se virarem contra quem lhes aviva a
memória se virassem contra quem escancarou a porta ao que veio a seguir e todos
recordassem quem foi que, em Abril de 2008, com o mesmo argumento de que seria
melhor para a economia hoje utilizado por Pedro Passos Coelho, introduziu na
legislação laboral portuguesa a cláusula da caducidade das convenções
colectivas ao fim de 10 anos na ausência de acordo entre entidade patronal e
representantes dos trabalhadores na sua revisão.
Agora que já se lembram quem foi,
acharão naturalíssima a calendarização da ronda seguinte do ataque aos salários
e direitos dos trabalhadores do sector público que, com nome de “orientação
final para a reforma do Estado”, Paulo Portas apresentou conjuntamente com
a privatização da segurança social e do Serviço nacional de Saúde paraacontecer depois do final da actual legislatura. António José Seguro, o
sucessor natural de Pedro Passos Coelho aos comandos de um país onde a maioria
dos que votam prefere a alternância à alternativa e a maioria que não vota
abdica por vontade própria de contar para este totobola, vai esboçando umas
piruetas com acusações disto e daquilo dirigidas ao Governo para nada dizer
sobre o que é que os portugueses podem esperar de uma governação sustentada na
AR pelo seu partido, amarrado que está ao Tratado Orçamental da
ultra-austeridade que assinou ao lado de PSD e CDS. A troika tem podido fazer
reparos às decisões do nosso Tribunal Constitucional. O Presidente da República
tem apelado a um acordo de longo prazo entre os três partido deste arco. E PSD
e CDS já começaram a falar numa revisão constitucional que torne possíveis as
suas “reformas estruturais necessárias. Se dois mais dois continua a ser igual
a quatro, de nada serve montar no tradicional “não há-de ser nada” para acreditar
que, com um bocadinho de sorte, o resultado final da falta de coragem para
romper com esta alternância poderá vir a ser igual a 5.
No dia seguinte:
Num só dia, em cenários diferentes, fez-se luz: seja qual for o resultado das
próximas legislativas, haverá um Governo de maioria absoluta. É o que resulta
do discurso cruzado dos três protagonistas desta equação: o Presidente da
República e os líderes dos dois maiores partidos. Continuar
a ler.

