«O salário mínimo nasceu em
Portugal com o 25 de Abril, mas não é uma conquista do marxismo-leninismo.
Também não é uma invenção burocrática do Estado-providência, porque foi uma
economia de tradição liberal, a Nova Zelândia, quem criou esta forma de regular
o mercado de trabalho. A vizinha Austrália foi o segundo país que, ainda no
século XIX, adoptou semelhante imposição legal, fixando um valor abaixo do qual
o empresário está proibido de remunerar o factor trabalho. E, dez anos depois,
o exemplo foi seguido pelo Reino Unido – que o mantém até aos dias de hoje.
O salário mínimo nem sequer é um
“ex-libris” do modelo social europeu, porque a Alemanha e os três países
nórdicos da União Europeia não têm salário mínimo fixado por decreto. E os
Estados Unidos têm. Sim, os Estados Unidos, a Meca do liberalismo, tem, vejam
só, um salário mínimo nacional. Sofreu uma desvalorização brutal na primeira
metade desta década, com George W. Bush, mas nem os rapazes radicais dos
Republicanos questionam hoje a sua existência.
Para os nostálgicos que evocam a
economia e cristalizam na ideologia. Para os que trocam “policy” por
“politics”. Mas, sobretudo, para o pessoal que fala de ar emproado do mundo
global, sem tirar os olhos do bairro para ver o que se passa por aí,
um aviso: o assunto está de volta à nossa agenda, não repitam, por favor, os
mesmos erros da última vez em que o salário mínimo fez correr muita tinta. Em
finais de 2006, salvo erro, quando o Governo e todos os parceiros sociais
subscreveram uma convergência, em cinco anos, para os 500 euros brutos. O
fantasma das falências em cadeia foi o mais temido e comentado. As empresas não
suportariam tamanho encargo. Milhares e milhares de empresas têm, entretanto,
fechado portas em
Portugal. Facto indesmentível. Mas mentirá quem associar esta
destruição de negócios ao salário mínimo nacional – até porque a onda de
falências cresceu exactamente no período em que o valor ficou congelado, os
últimos três anos.
Isto porque há outra coisa que o
salário mínimo não é: definitivamente, não é um argumento decisivo da
competição desenfreada entre as economias da globalização. Países que lideram
os “rankings” mundiais da competitividade têm salário mínimo. Outros não. Se
continuar a estabelecer alguma correlação entre as duas coisas, esqueça.
O tema nem sequer pode ser
evocado com a crise financeira do Estado. Segundo o próprio e insuspeito
Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública, serão cerca de 20 mil os
funcionários públicos que recebem uma remuneração equivalente ao salário mínimo
nacional. Isto é: se for actualizado em 15 euros mensais, chegando aos 500,
como se previa, o impacto na despesa pública seria pouco superior a 4 milhões
de euros! Argumento arrumado...
Então, se o salário mínimo não é
tanta coisa, o que terá acontecido para que um histórico Acordo, inusitadamente
assinado há quase oito anos por todos os parceiros da Concertação Social, não
tivesse chegado ao fim? Há três explicações possíveis. Estúpida arrogância.
Estúpida ignorância. Estúpida vingança. A ignorância combate-se com estudo – e
este texto é uma simples contribuição, melhor, um resgate de memória, para que
não se perca tempo com debates estéreis, assentes em preconceitos e erros,
quando o tema voltar a “aquecer”. A arrogância, em princípio, resolve-se em
breve com a saída da troika – porque foi ela que nos proibiu de mexer no
salário mínimo em Portugal, desde 2011.
Tal como outros equívocos graves
do Programa de Ajustamento, os representantes dos nossos credores abriram a
boca para dar ordens e fecharam os olhos com as estatísticas à frente. Temiam
uma subida em espiral nos níveis salariais seguintes. Quando, há pelo menos uma
década, o salário mínimo deixara de acompanhar os salários médios da economia –
estes acumularam uma valorização média de 10% ao ano. O salário mínimo não
estava a perder poder de compra, como os sindicatos queriam fazer crer, porque
ganhou 1,5% à inflação. Pouco, mas ganhou. Também não contribuiu para agravar o
desemprego, como os empresários sugeriam. A produtividade foi pífia, mas
cresceu três vezes mais. Portugal ficou um local pouco competitivo, mas o
salário mínimo foi inocente nesse crime.
Quanto à vingança, bem, seria
estupidez a mais para ser verosímil – embora, como se está a ver na ressurreição
do carro eléctrico, não seria a primeira vez que um Governo simplesmente
soterrasse uma “bandeira” do Governo anterior, para, anos mais tarde, a
empunhar como sua. Bush, que era arrogante, ignorante e estúpido, conseguiu um
raro consenso entre economistas, já no seu estertor, depois de ter levado o
salário mínimo dos americanos para o nível de poder de compra mais baixo desde
1951. Mais de seis centenas de académicos, liderados por professores de
Standford, Harvard, MIT, outras universidades da Califórnia do Michigan e da
Pennsylvania, subscreveram um manifesto a propor um programa de actualização
faseada, o que veio aliás a suceder com Obama.
Em Portugal, raramente se vê
economia nos argumentos contra o aumento do salário mínimo nacional. Apenas
miséria nas famílias que o recebem. Pobreza. E, quando é de pobreza que
falamos, não senhor presidente do Conselho Económico e Social, este não é um
“assunto pobre” para levar à concertação entre sindicatos e patrões. É a mesma
miséria social que, de quando em vez, leva multidões de empresários para
jantares e fotografias das campanhas para a inclusão, sob o alto patrocínio de
entidades oficiais. Vinte e quatro horas depois da celebração do Dia do
Trabalhador, é preciso sublinhar que não é caridade, mas dignidade, que
resolve. É o mínimo! Aqueles que criam emprego e acreditam que, por si só, isso
basta, que 500 euros, já com os 23,75% da TSU incluídos, só podem fazê-lo por
incompetência ou por outra coisa que rima com arrogância e ignorância: é ganância.
PS: Por memória e a propósito de
ideologias: o primeiro-ministro que, nos 40 anos de democracia, fez o maior
corte do salário mínimo (em 1976) é o mesmo que o levou ao valor mais baixo de
sempre (em 1984). Mário Soares.» – Sérgio Figueiredo, no
Dinheiro
Vivo.